Movimento Nacional de Cidadãs Positivas celebra 21 anos com homenagem na Câmara de Campinas e reforça luta contra o estigma do HIV

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Na noite da última quinta-feira (25), a Câmara Municipal de Campinas se encheu de emoção e resistência. O Movimento Nacional de Cidadãs Positivas (MNCP) foi homenageado por seus 21 anos de luta em defesa das mulheres que vivem com HIV/aids. A solenidade, realizada no plenário, reuniu ativistas, profissionais de saúde, representantes de universidades, gestores públicos e vereadoras, em um encontro marcado por histórias de superação, lembranças de perdas e reafirmação de esperança.

A homenagem partiu da vereadora Paola Miguel (PT), presidenta da Frente Parlamentar de HIV/Aids em Campinas, que destacou a coragem das mulheres do movimento em transformar dor em mobilização coletiva. “Essa é uma das reuniões mais alegres que já tivemos aqui. Vocês, do MNCP, transformaram a vida de muitas mulheres e nos ensinaram o valor da solidariedade e da resistência”, afirmou.

A força da história coletiva

Fundado em 2004, o MNCP nasceu da necessidade de dar voz às mulheres vivendo com HIV, historicamente invisibilizadas nas políticas públicas e excluídas de espaços de decisão. Ao longo dessas duas décadas, a rede se tornou protagonista em pautas essenciais como saúde integral, direitos reprodutivos, enfrentamento à violência de gênero e combate ao estigma.

Representando a coordenação nacional, Fabiana de Oliveira lembrou que a trajetória do MNCP não começou em 2004, mas antes, nos anos 1990, quando mulheres como Nair Brito desafiaram o Estado e exigiram acesso aos antirretrovirais.

“A história deste movimento começou em 1996, quando Nair ousou enfrentar o Estado pelo direito à vida. Muitas de nós só estamos aqui hoje porque ela não teve medo de dar a cara, mesmo num período de extremo preconceito”, destacou.

Fabiana lembrou ainda que o MNCP nasceu da união em encontros nacionais e latino-americanos, quando mulheres perceberam a necessidade de um espaço próprio: “O movimento existe para dar voz às mulheres que muitas vezes ainda estão escondidas em suas casas, com medo do estigma e da violência. Nossa missão é enfrentar o preconceito, promover direitos e mostrar que cada mulher tem poder para ressignificar sua vida. Ninguém fala por nós. Nós falamos por nós”.

Vozes que emocionaram

A noite foi marcada por falas carregadas de memória e emoção. A assistente social da diretoria de Direitos Humanos da Unicamp, Aparecida do Carmo Miranda Campos, também conhecida como  Thida, relembrou os primeiros anos da epidemia no hospital universitário. “Andávamos pelos corredores do HC chorando diante da morte de tantos. O HIV é também um espelho das desigualdades sociais, de gênero e raça. Estar aqui hoje é testemunhar o quanto avançamos, mas também o quanto ainda temos que lutar”, afirmou.

Com 35 anos de diagnóstico, a ativista Jenice Pizão, uma das fundadoras do movimento, reforçou a importância do acolhimento entre mulheres. “Quem recebe o diagnóstico não sai só com uma receita cheia de comprimidos. Sai com o peso de achar que a vida acabou. O que salva, muitas vezes, é um abraço. Eu ouvi de várias mulheres: ‘foi a Thida que me abraçou quando eu mais precisei’. É isso que nos move. Empatia, solidariedade, caminhar juntas”, contou.

Jenice também lembrou a importância da organização coletiva: “Ninguém descobriu a roda. Nós só seguimos girando. Mas foi graças a essa união que conseguimos registrar o movimento em 2004 e mostrar que as mulheres não seriam mais invisíveis. Receber essa homenagem hoje, nesta Câmara, é histórico. É a prova de que não nos calaram”.

Já Silvia Almeida, coroada como Miss Mulher Vivendo com HIV, deu um tom de esperança ao evento: “Não tenho orgulho de viver com HIV, mas tenho orgulho da mulher que me tornei a partir dele. Essa coroa não é vaidade, é símbolo de dignidade. Carregá-la é lembrar todas as mulheres que precisam andar de cabeça erguida, porque o preconceito não pode nos definir”, afirmou.

Silvia também fez questão de frisar o papel do movimento: “Quando recebemos o diagnóstico, o medo é enorme. Mas o HIV não vai tirar nossas vidas se fizermos o tratamento direitinho. O que nos mata é o estigma. Por isso, sempre digo: além da cura do vírus, precisamos da cura do preconceito”.

Entre os depoimentos mais marcantes da noite esteve o de Renata Souza, representante do MNCP no Conselho Nacional de Saúde. Ela compartilhou sua trajetória de 26 anos vivendo com HIV e reforçou a importância de abrir caminhos para as novas gerações de mulheres.

“Eu queria lembrar os colegas que já se foram — seja por doenças oportunistas, abandono de tratamento, estigma ou discriminação — e também falar da importância de abrir portas para outras que estão chegando. Eu não queria que elas chegassem, mas o HIV ainda está aí. Hoje já temos sete pessoas curadas, e isso só foi possível graças à ciência. Queremos mais curas, queremos saber onde está esse segredo”, afirmou.

Renata fez ainda um apelo aos representantes políticos presentes: “O presidente Lula subiu a rampa de mãos dadas com o movimento social. Por isso, peço que vocês também peguem na mão da sociedade civil. Somos nós que vamos mostrar onde estão os problemas. Mandato de excelência é aquele que escuta a rua, que coloca a mulher no centro da política. Caminhem conosco”.

Desafios atuais

Apesar das conquistas, as falas mostraram que o cenário ainda impõe grandes desafios. Dados citados durante a cerimônia revelam que 52% das pessoas vivendo com HIV já sofreram algum tipo de discriminação, e 34% relataram preconceito dentro da própria família. O estigma nos serviços de saúde também permanece: 13% disseram ter sido maltratados em unidades de atendimento no último ano.

Além disso, a saúde mental das mulheres vivendo com HIV tem sido duramente impactada. Segundo levantamento apresentado, 29% apresentam sintomas de depressão e 41% relatam ansiedade ligada ao estigma. A pandemia de Covid-19 e a precarização das políticas sociais agravaram essas vulnerabilidades.

Um futuro de esperança

Mesmo diante das dificuldades, a noite terminou em tom de celebração e compromisso coletivo. “As mulheres vivendo com HIV não são vítimas passivas, mas protagonistas de sua própria história. Cada passo dado é um ato de revolução”, afirmou Tida em sua homenagem.

A vereadora Paola Miguel reforçou a importância da frente parlamentar como espaço de diálogo com a sociedade civil. “Que possamos estar juntas, livres e vivas, construindo políticas públicas que respeitem a dignidade de cada mulher”.

Entre aplausos, flores e música, a homenagem reafirmou a centralidade das mulheres na resposta ao HIV no Brasil. O MNCP segue como farol de esperança, mostrando que enfrentar o HIV é também enfrentar o machismo, o racismo e a transfobia — e que, como repetiram em coro no encerramento, “nada sobre nós sem nós”.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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Site: www.mncp.org.br

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