Mostra “Gran Fury: arte não é o bastante” destaca a invisibilidade das mulheres cis na epidemia da aids

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Kissing Doesn’t Kill, Gran Fury (ver.1) [Beijar não mata (versão 1)], 1989-1990

O MASP (Museu de Arte de São Paulo) apresenta até 9 de junho de 2024 a mostra “Gran Fury: arte não é o bastante”, que ocupa a galeria localizada no 1o subsolo do museu. Com curadoria de André Mesquita e assistência de David Ribeiro, a exposição reúne 77 obras, entre elas fotocópias e impressões digitais que discutem a ideia da arte como estratégia no campo ativista para ampliar a consciência sobre o HIV/aids. Gran Fury foi um coletivo de artistas considerado referência para as práticas de ativismo artístico das décadas de 1980 e 1990, que emergiu a partir da organização ACT UP (AIDS Coalition to Unleash Power) [Coalizão da aids para libertar o poder], composta por indivíduos e grupos de afinidade dedicados a tornar criticamente público o silêncio e a negligência do governo dos Estados Unidos em relação ao HIV/aids. Gran Fury produziu campanhas gráficas e intervenções públicas em torno das questões relacionadas à crise do hiv/aids, servindo visualmente ao ACT UP em protestos e ações de desobediência civil.

Entre as ações produzidas pelo grupo está o cartaz com a frase “All People With AIDS Are Innocent” [Todas as pessoas com aids são inocentes] (1988), quebrando o paradigma moral de que algumas pessoas mereceriam o HIV/aids mais do que outras. O cartaz do Gran Fury determinava uma mudança de pensamento imediata da sociedade para respeitar, sem hierarquias, todas as pessoas que vivem com o HIV/aids, as quais devem ter o direito de receber cuidados e assistências igualitárias.

Conversamos com o curador-assistente David Ribeiro. Confira a entrevista.

Agência Aids: O que foi o Gran Fury? 

David Ribeiro: O coletivo nasceu em 1988, no contexto da epidemia. Ele dá, de certa forma, uma vazão para a ocupação de espaço público que o Act Up já estava desenvolvendo desde 1987. Vale lembrar que nos Estados Unidos existiu um silêncio muito grande sobre o que estava acontecendo em relação ao HIV e a aids. Não tinha testagem, não tinha tratamento, não tinha nenhum tipo de alternativa. A gente sabe muito bem como é a questão da saúde pública nesse país. O grande trabalho desse coletivo, desses dois coletivos na verdade, foi canalizar essa indignação coletiva. O nome Grand Fury tem a ver com essa grande fúria, uma indignação que estava envolvendo tantas pessoas, vivendo com HIV ou não, para chamar a atenção do Estado e da sociedade para o que estava acontecendo. O grupo trabalhou entre 1988 e 1995 e durante todo esse tempo de atuação, eles usaram algo que a gente chama de culture jamming, ou interferência cultural, que é capturar imagens ou discursos que estão presentes na mídia, que são conhecidos e reconhecidos facilmente, como campanhas publicitárias de grandes marcas ou discursos políticos, para comunicar mais facilmente e se ter um impacto rápido na sociedade.

Por que o MASP decidiu trazer essa exposição pro Brasil?

Porque acreditamos que é uma história pouco contada. Existe bastante silêncio e esquecimento em relação ao que foi (a crise da aids). Talvez pessoas com mais de 35, 40, 50 anos saibam o que foi esse momento ali do final dos anos 1980 e início dos anos 1990, de como se falava sobre a aids, de como as pessoas não eram representadas no espaço público, na mídia e na imprensa. E a gente considera super importante não só trazer essa exposição para o MASP, mas também abrir um ciclo todo dedicado às histórias da diversidade LGBT. A população LGBT sempre foi vista com um olhar de discriminação, de rejeição, mas a gente entende que a crise da aids contrubuiu para piorar esse olhar da sociedade. É importante a gente lembrar dessa história, lembrar de quem se engajou e de quem construiu, movimentou um caminho super importante pra que hoje existissem alternativas de tratamento, alternativas de prevenção, alternativas de representação, de representatividade de pessoas com HIV e aids para além desse grande estigma, desse grande olhar de discriminação e de rejeição que era praticamente o único discurso nos anos 1980 e 1990.

Imagem da exposição “Gran Furyy: arte não é o bastante”, MASP

As mulheres cis que vivem com HIV ou que morreram de aids sempre foram muito invisibilizadas nestes mais de 40 anos de história da epidemia e aqui nessa exposição dá para ver que tem um recorte bem profundo, lembrando que mulheres também se infectam, mulheres também morrem en decorrência da aids. Pode comentar?

A gente sente que um dos grandes enfoques das campanhas do Gran Fury tem a ver com informar a sociedade, já que ela era super carente de informações, naquele contexto. Vale lembrar que só se falava de HIV/aids como se fosse uma coisa diretamente relacionada a gays, com pessoas que faziam uso de drogas injetáveis, nunca relacionado a mulheres cis nem a casais heterossexuais. É muito importante a gente ver como o coletivo se preocupou em informar as pessoas sobre isso: mulheres também podem contrair o HIV, mulheres também podem ter aids, mulheres também podem morrer disso. E eles se aliaram a alguns coletivos feministas e femininos que discutiam essas questões, que também estão relacionadas aos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. Por exemplo, a forma como a Igreja Católica se comportava em relação ao uso de preservativos, que, ao mesmo tempo, tinha a ver com o controle da gestação, a escolha sobre querer ou não engravidar, mas também sobre se proteger das infecções sexualmente transmissíveis.

SERVIÇO

Gran Fury: arte não é o bastante

Em Cartaz: até 9 de junho de 2024
Local: MASP — Museu de Arte de São Paulo (Avenida Paulista, 1578 – Bela Vista 01310-200 São Paulo, SP)
Telefone: (11) 3149-5959
Horários: terças grátis, das 10h às 20h (entrada até as 19h); quarta a domingo, das 10h às 18h (entrada até às 17h); fechado às segundas
Agendamento on-line obrigatório pelo link masp.org.br/ingressos
Ingressos: R$70 (entrada); R$35 (meia-entrada)

Marina Vergueiro (marina@agenciaaids.com.br)

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