A participação da ministra das Mulheres, Márcia Lopes, na 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026) foi marcada pela defesa da aproximação entre governo e sociedade civil como estratégia para fortalecer políticas de proteção às mulheres, igualdade de gênero, direitos humanos e enfrentamento ao HIV. Convidada pela Federação Internacional de Planejamento Familiar (IPPF), a ministra participou, no primeiro dia do evento, da abertura da Women’s Networking Zone e também esteve presente na cerimônia oficial de abertura da conferência.
Realizada sob o tema “Repensar, Reconstruir, Avançar”, a AIDS 2026 colocou em debate os rumos da resposta global ao HIV em um momento de redução do financiamento internacional e de preocupação com a sustentabilidade das políticas de prevenção, tratamento e cuidado.
A cerimônia de abertura reafirmou a importância da liderança comunitária e da presença das populações mais afetadas pelo HIV no centro das políticas públicas. Pessoas trans, povos indígenas, profissionais do sexo e pessoas vivendo com HIV defenderam que uma resposta efetiva à epidemia precisa estar fundamentada nos direitos humanos, na equidade e no enfrentamento ao estigma e à discriminação.
Nesse contexto, Márcia Lopes destacou que a resposta ao HIV deve incorporar uma perspectiva de igualdade de gênero e enfrentar as diferentes formas de discriminação que atingem mulheres e meninas. Para a ministra, as políticas públicas precisam garantir acesso à saúde, autonomia e direitos, com atenção especial às mulheres submetidas a desigualdades relacionadas a gênero, raça, território e condição socioeconômica.
Ao falar sobre a situação brasileira, Márcia Lopes lembrou uma das principais conquistas recentes do país: o reconhecimento internacional pela eliminação da transmissão vertical do HIV como problema de saúde pública. Em 2025, o Brasil recebeu a certificação da Organização Mundial da Saúde.
“O Brasil tem o que comemorar, porque em 2025 recebeu um certificado da Organização Mundial da Saúde em função da eliminação da transmissão vertical. É uma grande conquista, e o Brasil continua com esse compromisso de cuidar da prevenção, do tratamento e de assegurar o acesso aos serviços de saúde”, afirmou.
Para a ministra, no entanto, os avanços precisam alcançar mulheres que permanecem expostas a diferentes situações de vulnerabilidade. Ela chamou atenção especialmente para mulheres da área rural, indígenas, quilombolas, migrantes e mulheres em situação de rua.
“Nós sabemos que as mulheres têm centralidade nisso. As mulheres são sempre as mais impactadas, principalmente aquelas que vivem em situação de vulnerabilidade, em todas as suas diversidades”, destacou.
Márcia Lopes também ressaltou que a trajetória brasileira de enfrentamento à epidemia está diretamente relacionada à participação dos movimentos sociais. Segundo ela, desde a década de 1980, quando o país começou a estruturar sua resposta ao HIV e à aids, a mobilização da sociedade civil tornou-se parte fundamental dessa construção.
“E, no caso do Brasil, ele é exemplar em relação aos movimentos sociais. Nós temos inúmeros movimentos sociais que há muito tempo, desde a década de 80, vêm atuando, e o Brasil tem absoluto compromisso com essa causa”, afirmou.
Financiamento e igualdade de gênero
Outro ponto defendido pela ministra durante a AIDS 2026 foi a necessidade de ampliar o financiamento internacional para a resposta ao HIV. Em um cenário de redução dos recursos globais, Márcia Lopes afirmou que diferentes países têm reivindicado maior compromisso internacional para garantir a continuidade das políticas de prevenção, tratamento e proteção social.
Segundo ela, essa mobilização também precisa assegurar que igualdade de gênero e direitos humanos permaneçam presentes nos documentos, compromissos e estratégias internacionais de enfrentamento à epidemia.
“O que nós vimos aqui foi um grupo de países insistindo, reivindicando que o mundo contribua mais para esse processo, financiando mais e assegurando que os nossos documentos tenham esse debate sobre gênero, igualdade e direitos humanos”, disse.
Além de participar da abertura da Women’s Networking Zone, espaço que reuniu mulheres de diferentes partes do mundo, a ministra teve uma agenda de diálogo com representantes da IPPF e da sociedade civil brasileira.
Durante a conferência, Márcia Lopes reuniu-se com a diretora-geral da IPPF, Maria Antonieta Alcalde; com Alessandra Nilo, diretora de Relações Externas da IPPF; e com Juliana Cesar, diretora de Relações Internacionais da ONG Gestos.
Na reunião, foram discutidas a situação das mulheres no Brasil e na América Latina, a importância das alianças com a sociedade civil e as possibilidades de ampliar o intercâmbio de experiências entre o governo brasileiro e a rede internacional da IPPF.
O encontro também debateu caminhos para fortalecer políticas públicas de proteção às mulheres, ampliar a cooperação internacional e manter os direitos sexuais e reprodutivos e a igualdade de gênero entre as prioridades das agendas nacionais e globais.
Para Maria Antonieta Alcalde, a reunião com a ministra reafirmou justamente a importância de construir essa agenda por meio da cooperação e da troca de experiências entre diferentes países.
“A reunião com a ministra das Mulheres reafirma o compromisso de fortalecer a agenda dos direitos das mulheres por meio da cooperação internacional e da troca de experiências”, afirmou.
Segundo Alcalde, o Brasil desenvolve iniciativas que podem inspirar outros países e, ao mesmo tempo, demonstra disposição para conhecer experiências de diferentes realidades. Para a diretora-geral da IPPF, esse intercâmbio pode contribuir para ampliar parcerias e fortalecer políticas públicas.
“Para a IPPF, esse diálogo é fundamental para ampliar parcerias, fortalecer políticas públicas e garantir que os direitos sexuais e reprodutivos e a igualdade de gênero permaneçam no centro das agendas nacionais e globais. Esperamos dar continuidade a essa conversa e aprofundar esse intercâmbio nos próximos meses”, completou.
Germana Accioly, especial para a Agência de Notícias da Aids
* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobriu a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.




