O Globo: Ministério da Saúde destina 20% dos recursos do antigo orçamento secreto a Alagoas; confira ranking

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Estado do presidente da Câmara, Arthur Lira, e do senador Renan Calheiros foi contemplado com R$ 100 milhões a mais do que o Rio, segundo colocado; ministério herdou R$ 3 bilhões com a extinção das emendas de relator pelo Supremo

O Ministério da Saúde liberou, desde o fim de junho, R$ 284,6 milhões em verbas do antigo orçamento secreto para Alagoas. O valor corresponde a cerca de 20% do total empenhado pela pasta dentro dos recursos redistribuídos ao governo após o Supremo Tribunal Federal (STF) extinguir no fim do ano passado as emendas de relator-geral, ou RP 9, nome técnico do orçamento secreto. O Rio, segundo colocado no ranking por estado, recebeu R$ 170,2 milhões no mesmo período.

O valor destinado a Alagoas representa uma média de R$ 91 por habitante, cinco vezes mais do que a segunda maior média, do Maranhão (R$ 18,49). A concentração de recursos no estado ocorreu em paralelo a votações prioritárias para o governo Lula no Congresso, casos da reforma tributária, aprovada na Câmara no início de julho, e do arcabouço fiscal, que passou pelo Senado no mês anterior.

O Ministério da Saúde iniciou a liberação dos recursos em duas portarias no dia 28 de junho e publicou novas autorizações nos dias 3, 7 e 28 de julho. No total, a pasta empenhou (reservou para uso) R$ 1,32 bilhão para custeio do sistema de Saúde, destinados em sua quase totalidade a prefeituras.

Antes de o STF declarar o orçamento secreto inconstitucional, a distribuição dos recursos era coordenada informalmente pelos presidentes da Câmara e do Senado no governo Jair Bolsonaro. O Orçamento deste ano previa R$ 19,4 bilhões em emendas de relator. Com o veto do Supremo, cerca de R$ 10 bilhões se transformaram em emendas individuais, divididas entre deputados e senadores, enquanto R$ 9,6 bilhões foram redistribuídos para seis ministérios. A pasta da Saúde herdou uma fatia de R$ 3 bilhões.

R$ 97 milhões a Maceió

Segundo as portarias publicadas pelo Ministério da Saúde, a capital Maceió foi o município alagoano mais contemplado nas liberações, com R$ 97 milhões. O prefeito João Henrique Caldas (PL) é aliado do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), com quem formou um bloco de oposição contra o grupo liderado pelo senador Renan Calheiros (MDB), que comanda o governo estadual.

Além de atender Lira, o governo Lula também vem contemplando redutos da família Calheiros com a verba da Saúde. A segunda cidade mais agraciada em Alagoas, com R$ 13 milhões, foi Santana do Ipanema, no sertão alagoano. A prefeita, Christiane Bulhões, é irmã do deputado federal Isnaldo Bulhões Jr. (MDB-AL), correligionário de Renan e líder do MDB na Câmara. Christiane assumiu a gestão após o falecimento, em 2020, do então prefeito Isnaldo Bulhões, seu pai.

Ao GLOBO, Isnaldo alegou não saber que o município governado pela irmã havia sido o segundo mais contemplado pelos recursos em Alagoas, mas disse que “naturalmente o governo ouve as lideranças” antes de liberações de verbas. No caso da verba de custeio da Saúde, prefeituras e governos estaduais pleiteiam os recursos diretamente ao ministério, que decide quais pedidos atender e em que ordem.

— Os municípios cadastram suas propostas e o governo libera de acordo com sua previsão orçamentária. Desconheço que Alagoas esteja recebendo tanto recurso. Talvez a turma lá no estado cadastre mais propostas, por precisar mais (da verba) — afirmou Isnaldo Bulhões.

Fora da lista

Lira mantém influência em outros municípios que figuram entre os mais contemplados em Alagoas. O presidente da Câmara foi o deputado mais votado em municípios do leste alagoano como Teotônio Vilela, Campo Alegre, Limoeiro de Anadia e São Sebastião, que receberam valores entre R$ 5 milhões e R$ 10 milhões cada. Nesses municípios, onde tem apoio dos respectivos prefeitos, Lira acumulou 30% e 59% dos votos válidos, mais que o dobro dos segundos colocados.

Cercada por essas quatro cidades e reduto histórico da família de Lira, Junqueiro não foi contemplada pelos recursos. O atual prefeito, Leandro Silva (MDB), se elegeu como opositor ao grupo do presidente da Câmara. Silva afirma que há um “bloqueio” de emendas ao município por ser adversário de Lira.

Um dos prováveis adversários de Silva em sua tentativa de reeleição em 2024 é o atual superintendente da Codevasf em Alagoas, Joãozinho Pereira, que é primo de Arthur Lira.

— Estamos tendo dificuldade por conta dessa situação política. Tudo que poderia vir (de verba ministerial) para Junqueiro esse pessoal bloqueia. Só tenho esperança de receber eventualmente alguma emenda impositiva (individual) de algum parlamentar — disse o prefeito.

Procurados pelo GLOBO, Lira e Renan não quiseram se manifestar. O prefeito de Maceió, JHC, também não retornou. O Ministério da Saúde informou, em nota, que não há “interferência de parlamentares” na apresentação de propostas para custeio de atenção primária e especializada de saúde. Segundo a pasta, a liberação dos recursos “considera as prioridades, tetos por recorte populacional e de produção definidos” em portaria, no fim de maio, com parâmetros para distribuição do antigo orçamento secreto.

“A pasta também está entrando em contato com estados e municípios para solicitar ajustes nas propostas que têm pendências técnicas. É precipitado, portanto, com base nas propostas aprovadas até agora, aferir discrepâncias entre os valores aprovados por município”, afirmou a pasta.

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