08/09/2014 – 13h
Fotos de Wagner Lima/G1
Matéria do repórter Wagner Lima, do G1, mostra que a rotina numa casa de apoio que funciona dentro do Hospital Padre Zé, em João Pessoa (PB), está melhorando a vida das pessoas que vivem com HIV. O apoio para combater o preconceito e melhorar a autoestima inclui produção de minijardins, peças artesanais, suplementos alimentares e remédios naturais, que são vendidos ali. Enquanto fazem seus exames, os pacientes, vindos de várias cidades, vão recupreando a autoestima, enquanto aprendem a desenvolver esses e outros trabalhos. Leia a reportagem a íntegra:
Minijardins feitos com cactos e outras plantas suculentas estão se transformando em exemplos de delicadeza nas mãos de pacientes vivendo com HIV em João Pessoa (PB). A união de elementos como terra, plantas e pedras encontra harmonia em um trabalho minucioso de transformar vasos de barro, taças e outros vasilhames em minijardins que servem como terapia ocupacional para os soropositivos e um item diferencial para quem adquire o produto na loja de artesanato na Casa de Convivência João Paulo 2º, vinculada à Arquidiocese da Paraíba.
Os mais de cem minijardins foram produzidos a partir do grupo Artes Positivas. A operadora de máquinas, Maria da Conceição dos Santos, 42 anos, 14 deles vivendo com HIV, encontrou nos cursos artesanais uma melhor compreensão da vida do lado de fora da instituição, que funciona no Hospital Padre Zé, no bairro de Tambiá. “Antes, eu achava que mato não servia para nada. Hoje, eu sei o quanto as plantas valem para nossa vida.”
O resultado desse trabalho vai além das mais de cem peças decoradas em jarros de barro, taças de vidro e objetos inusitados. A arte de produzir minijardins em João Pessoa alia a concepção milenar de contato com a natureza com uma outra possível leitura da vida. “Quando se cuida de uma planta a gente também está passando energia para ela”, sintetiza Maria da Conceição.
O enfermeiro Paulo (nome fictício) conta que mais que aprender a criar minijardins, ele aprendeu o `caminho das pedras`. Os integrantes tiveram noções de uso de solo, de funcionalidade e característica das plantas e onde encontrá-las, o que ampliou, segundo ele, os próprios horizontes. “Aprendemos a classificar as plantas, a plantá-las e como cultivar. Mas a gente aprendeu também onde comprar os materiais. Nós fomos ao Mercado Central em busca de todos os itens necessários para fazer os minijardins. Vou levar muitas lições para a vida”, frisou.
Com área suficiente em casa para abrigar não apenas um minijardim, Paulo já pensa em desenvolver suas habilidades para transformar uma área sem funcionalidade em um jardim. “Renova o ego e desenvolve na gente a certeza de que se é capaz de fazer algo bonito como os minijardins”, disse.
Vinda do sertão, a cabeleireira Janaina (nome fictício), 28, aproveita a estadia na Casa de Convivência enquanto realiza o check up médico na rede pública de saúde em João Pessoa para participar do curso de minijardins. “Ter contato com a natureza foi uma das melhores coisas que esse curso me proporcionou. A gente conversa com as plantas, acompanha o desenvolvimento delas até florescer. Com tantos exames para fazer, mexer com plantas faz om que eu me sinta melhor”, disse.
Desse contato com a natureza, vem a compreensão sobre a vida. Mexer com a terra para muitos é como modificar a rotina. Cuidar e regar plantas é a própria alusão à atenção dedicada ao corpo. Encontrar nas pedras o papel de enfeite é assimilar na aridez onde está a real beleza. “Muita gente não tem esse momento de se dedicar à arte. Quando se faz com amor se faz bem feito. Fazer um minijardim desses é como se eu estivesse me descobrindo como pessoa no mundo. A gente renasce”, conclui Maria da Conceição.
Informação e apoio na Casa de Convivência
Na Casa de Convivência João Paulo 2º, vencer a solidão e os medos fazem parte da rotina de 200 soropositivos da Grande João Pessoa. No local, essas pessoas iniciam uma nova trajetória fazendo adequações na alimentação, hábitos diários e até indo em busca de direitos sociais que sempre tiveram, mas desconheciam.
Ninguém na Casa de Convivência João Paulo 2º está só. Essa é a máxima que conduz todo o trabalho. Os cerca de 200 cadastrados são atendidos sempre que precisam ao recorrer à casa, no entanto, aproximadamente 60 deles foram divididos em nove grupos de atividades: culturais, direitos sociais, adesão ao tratamento, acompanhamento psicológico e saúde, além do atendimento jurídico individual.
Durante cinco horas diárias, das 8h às 13h, eles participam ativamente das atividades de segunda a sexta-feira. Duas refeições, café da manhã e almoço são garantidas pela instituição. Entre uma e outra, os grupos realizam as atividades artesanais e as de cunho social.
Geração de renda
Além dos trabalhos de minijardins com cactos e plantas suculentas, o grupo faz entrelaçamento de fitas que dão acabamento em roupa de banho, reciclagem de garrafas de vidro que são transformadas em peças de decoração e peças artesanais produzidas a partir de caixas de MDF. As mais de cem peças produzidas devem integrar uma exposição que será realizada na Área de Lazer do Serviço Social do Comércio (Sesc-Centro).
Ali, na Casa de Convivência, os soropositivos também fabricam uma série de medicamentos com plantas medicinais, a exemplo do Coprogen, um antibiótico natural à base de própolis, gengibre e copaíba. Mas, na loja há outras possibilidades naturais de remédios.
A Farinha de Ouro`, uma espécie de multimistura que funciona como suplementação alimentar feito com castanha de caju, gergelim, aveia, soja, amendoim, farelo de arroz e farinha de jerimum, é um dos orgulhos dos soropositivos ao explicar os itens à venda. "Funciona como suplemento alimentar e ajuda muito a proteger o corpo de doenças", defende Maria da Conceição. Todo o material produzido pelos soropositivos é posto à venda na loja que existe na própria Casa de Convivência. Os preços das peças variam de R$ 5 a R$ 100.
À frente da coordenação da Casa de Convivência João Paulo II, Maria Goretti Felismino conta que o maior desafio é ajudar as pessoas a reconstruírem a autoestima diante do preconceito e da discriminação fora da instituição. “O que mais atinge a maioria dessas pessoas que chegam até a Casa de Convivência são os atos de discriminação que elas enfrentam quando descobrem ter o vírus HIV. O trabalho aqui é de ajudar essas pessoas a recuperar a autoestima”, disse. A faixa etária das pessoas cadastradas na Casa de Convivência João Paulo 2º é de 20 a 70 anos e cerca de 60% dos usuários são homens.
Discriminação
No dia a dia, a luta para manter a regularidade do tratamento com medicação para combater o HIV é aliada ao enfrentamento do preconceito e da discriminação. Para muitos, ainda o maior problema. "Meu maior sonho é alcançar a vacina contra a aids. Eu não morri, eu sou gente. Eu mostro meu rosto não é para me exibir. Mostro para ensinar às pessoas que é normal. Eu quero que as pessoas voltem a me olhar da forma normal como me olhavam", desabafa a operadora de máquinas, Maria da Conceição. Maria é mãe de duas adolescentes que sabem de sua condição e nunca manifestaram ato de discriminação ou preconceito.
Com uma filha de apenas um ano, Patrícia (nome fictício) se desloca do sertão para a capital apenas quando precisa realizar exames e consultas especializadas porque teme a discriminação na cidade em que mora, que não se contabiliza mais que 2 mil moradores. "Eu descobri quando fui realizar o parto e o teste rápido deu positivo. A enfermeira pediu que eu não colocasse o dedo em lugar nenhum para que não contamisse as pessoas. Pra mim isso foi preconceito", afirma.
Mãe de outras duas crianças, Patrícia mora com a família. Ajuda com a pensão alimentar de R$ 200 no orçamento familiar, que basicamente depende de ajudas externas da igreja e do benefício do Bolsa Família. "Meu sonho é conseguir a aposentadoria para ter condições de estudar e garantir um futuro para meus filhos", conta.
Acomodação
Na unidade que integra o Hospital Padre Zé, há 24 leitos para pessoas que moram em outras cidades paraibanas e espaços coletivos como sala, cozinha e áreas de atividades socioculturais. “As acomodações são destinadas às pessoas vindas de outras cidades que, às vezes, o Hospital Clementino Fraga ou o Hospital Universitário encaminham. Isso porque eles precisam ficar uns dias em João Pessoa para a realização de consultas e exames e gastariam de três a quatro horas de viagem”, frisou Goretti.
Contato:
Tels.: (83) 3222- 2500 e (83) 8898- 2914.


