MILITANTES CONSIDERAM CRÍTICAS DE CARLOS PASSARELLI, DIRETOR-ADJUNTO DO PROGRAMA NACIONAL DE DST/AIDS, AO MOVIMENTO FEMINISTA FRUTO DE ‘PRECONCEITO E MACHISMO’

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26/01/2007 – 16h00

Desinformado, preconceituoso, misógino (aquele que tem antipatia, aversão mórbida às mulheres, segundo definição do dicionário) e machista. Esses foram alguns dos termos utilizados por militantes do movimento feminista para se referir ao diretor-adjunto do Programa Nacional de DST/Aids, Carlos Passarelli, que na última quarta-feira (24/01) valeu-se de termos chulos para criticar a atuação do movimento no início da pandemia da Aids (leia mais). Segundo Passarelli, as feministas não teriam sido solidárias com os homossexuais, os principais atingidos pelo vírus HIV no início da pandemia. “Elas foram filhas da…”, atacou o gestor público (usando um termo de baixo calão impublicável). Sônia Coelho, educadora popular da entidade Sempreviva Organização Feminista (SOF), disse que o gestor público foi “bastante injusto” em sua colocação. Para Marta Baião, do Centro Informação Mulher (CIM), o diretor-adjunto do Programa Nacional está “totalmente desinformado”.


“O movimento está inserido nessa luta [do combate a Aids] há muitos anos”, garante a atriz e militante Marta Baião. Ela lembra que o CIM trabalha com travestis e transexuais no centro de São Paulo. Intitulado “Buscando o feminino, reafirmando a vida”, a iniciativa, que promove a prevenção às DST/Aids, é fruto de um convênio com a Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo.

Sônia Coelho, educadora popular da Sempreviva Organização Feminista (SOF), lembra que “o movimento feminino, entre todos os movimentos organizados, foi um dos primeiros a se colocar, a tentar entender [a pandemia da Aids]”. “Inclusive se colocando contra essa história de grupos de risco”, acrescenta. “O movimento feminista sempre esteve trabalhando junto com o movimento homossexual”, avalia a educadora e feminista Sônia Coelho.

Marta Baião considera a fala de Carlos Passarelli carregada de “grande dose de machismo”. “O machista pregou uma peça no profissional”, avalia. “Nem vou dizer que ele é filho… [ela conclui a ofensa, que a equipe da Agência de Notícias da Aids prefere não publicar], porque seria tão absurdo, preconceituoso e misógino quanto ele”, esclarece Baião.

A feminista, autora de uma tese de mestrado da Universidade de São Paulo (USP) em que defende que as peças teatrais ainda reproduzem um modelo masculino de sociedade, explica que a feminização da pandemia da Aids é fruto de uma postura “machista” da maior parte dos parceiros do sexo masculino. “Nós temos um crescimento assustador [do número de mulheres infectadas] exatamente por causa do machismo. Os homens têm uma vida dupla e, por isso, contaminam às mulheres”, lamenta. Ela classifica a situação como “chocante”.

“Tentar depreciar um movimento que sobrevive a duras penas é muito complicado. Você sair falando mal de um movimento é muito chocante. É um comentário bem destrutivo”, afirma Sônia Coelho, da Sempreviva Organização Feminista (SOF). Assim como Marta Baião, ela avalia que o movimento feminista foi um dos primeiros a se preocupar com a questão. “A SOF [Sempreviva Organização Feminista], desde sempre, foi para as periferias pra discutir [o tema da Aids] com as mulheres”, recorda.

Para Sônia Coelho, a colocação do diretor-adjunto do Programa Nacional de DST/Aids, Carlos Passarelli, “não condiz com uma pessoa que ocupa esse cargo.”

Léo Nogueira

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