Encontrei na espiritualidade e na arte o equilíbrio para planejar o envelhecer com leveza, respirar e viver cada dia de uma vez. A demanda da cura é exaustiva, porém somos “bando” e a responsabilidade das mortes sociais deve ser coletiva.

Quando a possibilidade de caminhada é negada, remontar caminhos é uma necessidade constante, assim como remontar as linhas do tempo que atravessam o fazer e as vivências corporais negras. Romper com essa linha, na conjuntura em que estamos postas, se expressa como fato de que a arte, por meios que nem sempre são próprios, é incapaz de interromper as coordenadas sensoriais com que entendemos, habitamos e vivenciamos o mundo.

Talvez se encontre na esfera da disponibilidade as primeiras razões para esta prática ser iniciada. Repensar outros processos de reorganização do ódio e das dores.
Portanto, esta se estende como uma técnica, um treino para se realizar arte, que seria, neste caso, o encontro através do diálogo. Talvez na arte encontremos caminhos para a cura social da Aid$. Enquanto aguardamos a cura biológica.
O diálogo livre das artes propõe que o espectador crie sua própria narrativa, assim não fica na função das pessoas soropositivas resolver os estigmas da Aids e sim de cada pessoa com sua consciência ter a responsabilidade de tratar como uma questão coletiva, portanto de resoluções coletivas.
A epidemia de Aid$ funciona ativamente como um dos viés do genocidio da população negra e indigena, impossibilitando que esses indivíduos vivenciam a saúde plena e a qualidade de vida. São negadas ações de informação, acesso à prevenção e tratamento.
Aqui, o exercício artístico é o da conversa, uma mescla de composições que se reinventam durante um fazer em comum. Quais movimentos se cruzam com os dados que temos sobre a epidemia e as políticas públicas, portanto se a morte em decorrência da AIDS é evitável, na conta de quem ficam as mortes dessas populações?
Juntar-se à arte torna-se não só uma forma de cabeamento que conecta a vida remontando à morte, mas torna-se também uma forma de revelar paradigmas de sociabilidade que põe o tempo inteiro produções negras em posição de questionamento. O que escancara que até a arte se afirma como meio privilegiado de expressão, apreensão, compreensão e simultânea reinvenção da realidade.

Portanto, nessa exposição talvez se encontre uma das várias técnicas da remontagem desses cabeamentos que reconfiguram os processos de organização de dores, de expressões e compreensões da vida que rompem com a ideia privilegiada de ser artista. Como corpos negros queremos conseguir fazer, sempre que for do nosso desejo, uma busca e ruptura com nossas dores e mortes, até porque aprendemos com nossos ancestrais que, diferente do que muitos pensam, o contrário da vida não é a morte, mas desencanto.

Trago artistas que de alguma maneira abordam em seus trabalhos o desejo pela vida e a manutenção para permanecer nela.



