México e África do Sul abrem a Copa do Mundo com desafios persistentes na prevenção e no controle do HIV

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Enquanto a bola começa a rolar no Estádio Azteca, duas seleções entram em campo carregando histórias muito diferentes no futebol — e desafios igualmente importantes na luta contra o HIV

O apito inicial da Copa do Mundo FIFA 2026 finalmente vai soar. Nesta quinta-feira (11), às 16h no horário de Brasília, México e África do Sul entram em campo no histórico Estádio Azteca, na Cidade do México, para abrir oficialmente o maior torneio de futebol do planeta. O duelo marca o início do Grupo A e repete um encontro carregado de simbolismo: foi exatamente esse o jogo que abriu a Copa do Mundo de 2010, realizada em solo sul-africano.

De um lado, os donos da casa tentam aproveitar o apoio da torcida para começar bem uma competição histórica. Do outro, os Bafana Bafana sonham com uma campanha inédita que finalmente os leve além da fase de grupos. Mas esta reportagem não é apenas sobre futebol.

Com o início da Copa, a Agência Aids também dá o pontapé inicial em uma série especial que acompanhará cada partida do Mundial por uma perspectiva diferente: a do enfrentamento ao HIV/aids. E se existe um confronto que simboliza a diversidade de realidades da epidemia global, ele está justamente na partida de abertura.

México e África do Sul chegam ao Mundial ocupando posições muito diferentes no ranking do futebol. Mas ambos convivem com desafios importantes no combate ao HIV. Em uma espécie de tabela paralela da saúde global, os dois países entram em campo carregando números que ajudam a compreender por que a luta contra a aids continua sendo uma das partidas mais importantes do século XXI.

México joga em casa e enfrenta desafios persistentes

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Sediando uma Copa do Mundo pela terceira vez, o México também ocupa uma posição de destaque em outro indicador. Com mais de 400 mil pessoas vivendo com HIV, o país possui uma das maiores populações vivendo com HIV/aids da América Latina.

Segundo dados do Unaids, aproximadamente um em cada cinco mexicanos vivendo com HIV ainda não conhece seu diagnóstico. Em 2024, cerca de 22 mil novos casos foram registrados no país.

A epidemia mexicana é considerada concentrada, ou seja, permanece predominantemente em grupos específicos da população. Os homens que fazem sexo com homens concentram a maior parte das novas infecções e responderam por 78% dos casos registrados no último ano.

Os homens representam 85% dos diagnósticos realizados no país. Em mais de 92% das ocorrências, a transmissão acontece por via sexual.

Os números ajudam a explicar por que especialistas continuam defendendo a ampliação da testagem, do acesso à PrEP e de campanhas voltadas às populações mais vulneráveis.

Do Azteca aos serviços de saúde

Os primeiros casos de aids foram registrados no México em 1983. Nas décadas seguintes, o país construiu uma resposta nacional que passou a combinar acesso ao tratamento, campanhas de prevenção e fortalecimento da rede pública de saúde.

Um marco importante ocorreu em 2003, quando os mexicanos passaram a contar com acesso universal à terapia antirretroviral. Atualmente, a Secretaria de Saúde recomenda o uso da PrEP para pessoas em maior vulnerabilidade à infecção, utilizando medicamentos como Truvada e Descovy.

Apesar dos avanços, desigualdades sociais, barreiras de acesso aos serviços e o estigma ainda figuram entre os principais obstáculos para o controle da epidemia. Os desafios do México revelam uma realidade observada em diferentes partes do mundo: a ciência avançou rapidamente, mas o acesso nem sempre acompanha esse ritmo.

África do Sul entra em campo carregando o maior desafio do planeta

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Se o México possui uma das maiores populações vivendo com HIV da América Latina, a África do Sul carrega uma marca ainda mais expressiva. O país possui aproximadamente 8 milhões de pessoas vivendo com HIV. É o maior número absoluto do mundo.

Sozinha, a África do Sul concentra cerca de um terço de todos os casos registrados no continente africano. A epidemia atinge aproximadamente 12% da população sul-africana e é considerada generalizada, ou seja, está disseminada em toda a sociedade e não apenas em grupos específicos.

Embora os números continuem elevados, o país conseguiu estabilizar as novas infecções. Em 2023 e 2024, foram registrados cerca de 170 mil novos casos anuais. Ainda assim, os impactos permanecem profundos.

O jogo mais difícil acontece entre as jovens mulheres

Um dos aspectos mais preocupantes da epidemia sul-africana é seu impacto sobre meninas e mulheres jovens. Segundo o Unaids, adolescentes e mulheres entre 15 e 24 anos possuem risco de infecção cerca de três vezes maior do que os homens da mesma faixa etária.

A cada semana, aproximadamente mil adolescentes e jovens mulheres adquirem HIV no país. Cerca de 66% das novas infecções ocorrem justamente nesse grupo. Entre mulheres de 15 a 49 anos, mais de 20% vivem com HIV.

Na prática, isso significa que uma em cada cinco mulheres em idade reprodutiva vive com HIV.

Os números revelam como desigualdades de gênero, violência, vulnerabilidade econômica e dificuldades de acesso aos serviços de saúde continuam influenciando a dinâmica da epidemia.

A aposta sul-africana na prevenção do futuro

Se existe um país que se tornou referência mundial em pesquisa e inovação na prevenção do HIV, esse país é a África do Sul. Nos últimos anos, o território sul-africano foi palco de estudos decisivos para comprovar a eficácia do cabotegravir injetável, uma das tecnologias mais promissoras já desenvolvidas para prevenção do HIV.

Atualmente, quase 1,8 milhão de pessoas já iniciaram o uso da PrEP oral no sistema público de saúde. Mas a grande expectativa está voltada para o lenacapavir. Considerado um dos avanços mais importantes da prevenção nas últimas décadas, o medicamento começou a ser implementado no país em 2026.

A partir de uma doação internacional de US$ 29 milhões, a África do Sul receberá doses suficientes para oferecer prevenção a cerca de 450 mil pessoas em situação de maior vulnerabilidade.

O programa priorizará adolescentes, mulheres jovens, profissionais do sexo, homens que fazem sexo com homens, pessoas que usam drogas e outras populações expostas ao risco de infecção. É uma estratégia que muitos especialistas enxergam como potencialmente transformadora para o futuro da epidemia.

Dois países, dois cenários, uma mesma partida

México e África do Sul chegam à abertura da Copa com histórias diferentes. O México sonha em aproveitar a força de jogar em casa. A África do Sul busca superar pela primeira vez a barreira da fase de grupos.

Mas, fora dos gramados, ambos participam de uma disputa comum. Uma disputa que envolve acesso à prevenção. Diagnóstico precoce. Tratamento. Combate ao estigma. Financiamento de políticas públicas. Pesquisa científica. E direitos humanos. A diferença é que essa partida não termina aos 90 minutos.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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