Modelo brasileiro de acesso a medicamentos, atenção especializada e saúde digital está entre as referências analisadas pelo governo mexicano
A experiência brasileira com o Sistema Único de Saúde (SUS) entrou no centro das discussões do México para a construção de um novo Serviço Universal de Saúde. Modelos adotados no Brasil para ampliar o acesso a medicamentos, reduzir filas por especialistas e integrar informações de saúde por meio de plataformas digitais estão entre as referências avaliadas pelo governo mexicano.
O tema foi discutido nesta quarta-feira (2), durante reunião entre o secretário-executivo do Ministério da Saúde, Adriano Massuda, e o diretor-geral do Instituto Mexicano de Seguridade Social para o Bem-Estar (IMSS-Bienestar), Alejandro Svarch Pérez.
O encontro dá continuidade ao Memorando de Entendimento firmado entre Brasil e México em 8 de abril de 2026, que prevê cooperação e intercâmbio de experiências na área da saúde.
Desde a assinatura do acordo, equipes técnicas dos dois países já realizaram quatro reuniões sobre temas como financiamento dos sistemas de saúde, assistência farmacêutica, acesso a medicamentos e avaliação de tecnologias.
A cooperação também incluiu uma missão técnica brasileira ao México voltada à preparação para emergências em grandes eventos, com atenção à Copa do Mundo Feminina de Futebol de 2027, que será realizada no Brasil.
Medicamentos e atendimento especializado
Entre as políticas brasileiras que despertaram interesse do governo mexicano estão o Farmácia Popular e o programa Agora Tem Especialistas.
No caso da assistência farmacêutica, a experiência brasileira está sendo observada no processo de ampliação da estratégia mexicana Farmacias del Bienestar, que utiliza módulos de dispensação e pontos automatizados para a oferta de medicamentos.
O interesse está especialmente na forma como o Brasil organiza a oferta, define quais medicamentos serão disponibilizados e estabelece os mecanismos de acesso da população.
Para Adriano Massuda, a experiência acumulada pelo Brasil pode contribuir para acelerar a implementação de iniciativas semelhantes no México.
“O desenho dessa política, como ele foi montado, o elenco de medicamentos ofertados, o mecanismo de autorização e o impacto são experiências que a gente construiu ao longo de anos, e apresentar a experiência pode acelerar [para] que eles implementem no México.”, disse o secretário-executivo.
Na atenção especializada, as conversas envolvem estratégias para ampliar a oferta de consultas, exames e procedimentos, além de melhorar a organização do fluxo dos pacientes entre os diferentes níveis de atendimento.
O programa Agora Tem Especialistas também está sendo considerado como referência para a estruturação da iniciativa mexicana Mais Especialistas, Mais Enfermeiros, Mais Bem-Estar.
Segundo Alejandro Svarch Pérez, o SUS ocupa posição central nas referências analisadas pelo México.
“O Brasil é a principal referência global em sistemas universais de saúde e o México está estruturando um modelo inspirado na experiência brasileira. O SUS também nos interessa pela forma como organiza a governança regionalizada.”, afirmou.
Saúde digital também entra na cooperação
Outro eixo das discussões envolve a digitalização dos serviços de saúde. A delegação mexicana demonstrou interesse na Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), no aplicativo Meu SUS Digital e nos serviços de Telessaúde utilizados pelo Brasil.
As experiências envolvem a integração de informações entre diferentes serviços, o acesso digital a dados de saúde e a oferta de atendimento a distância, especialmente em regiões onde há dificuldade de acesso presencial a profissionais e especialistas.
A expectativa é que o intercâmbio ajude o México a avaliar soluções capazes de ampliar a cobertura de serviços em territórios remotos e aperfeiçoar a circulação de informações dentro da rede de atendimento.
Brasil também busca referências mexicanas
A cooperação, no entanto, não ocorre em uma única direção. O Brasil também pretende conhecer experiências desenvolvidas pelo México, principalmente na área da saúde indígena.
Durante a reunião, Massuda destacou o interesse brasileiro em políticas que incorporam conhecimentos tradicionais e práticas locais de cuidado.
“Ao mesmo tempo, para o Brasil é muito importante também aprender com a experiência mexicana, sobretudo no que diz respeito à saúde indígena, na experiência que eles têm de valorizar os saberes locais, a farmacopeia local e outras.”
A proposta é que as equipes técnicas dos dois países utilizem o intercâmbio para avaliar políticas já implementadas e identificar estratégias que possam ser adaptadas às características de cada sistema de saúde.
Cooperação terá nova etapa em setembro
A agenda bilateral continuará nos dias 21 e 22 de setembro, quando uma delegação brasileira deverá viajar à Cidade do México.
A programação prevê reuniões com autoridades mexicanas e visitas à Comissão Federal para a Proteção contra Riscos Sanitários (Cofepris), responsável pela regulação sanitária no país, e à Birmex, empresa estatal mexicana do setor farmacêutico.
A visita deverá aprofundar as discussões iniciadas após a assinatura do Memorando de Entendimento e avançar no intercâmbio sobre gestão, financiamento, acesso a medicamentos, atenção especializada e organização de sistemas universais de saúde.
Redação da Agência de Notícias da Aids



