Mesmo após quase quatro décadas de avanços no tratamento e na informação sobre o HIV, o estigma ainda tem peso nas relações de trabalho.
No Brasil, leis como a nº 12.984/2014 — que criminaliza a discriminação contra pessoas vivendo com HIV ou aids — e a nº 9.029/1995 — que proíbe práticas discriminatórias em contratações e demissões — oferecem proteção legal. A Lei nº 14.289/2022 garante o sigilo e proíbe a divulgação da condição sorológica, enquanto a Lei Geral de Proteção de Dados (nº 13.709/2018) classifica informações sobre o HIV como dados sensíveis, reforçando a obrigação de confidencialidade. Mas, na prática, as garantias nem sempre se cumprem.
A história de Djair Gomes, de Aracaju (SE), revela como o preconceito disfarçado segue afastando pessoas de seus direitos, de seus empregos e de suas vidas
Há sete anos, Djair Gomes vive com HIV. Jovem, gay e nordestino, ele já enfrentou mais rejeições do que a maioria das pessoas poderia imaginar. Em 2017, o diagnóstico que deveria vir acompanhado de cuidado e acolhimento se transformou no ponto de virada mais doloroso da sua trajetória.
“Eu fui diagnosticado enquanto trabalhava num restaurante. Assim que saí do CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento), fui direto pro trabalho. Eu era muito próximo dos colegas, então contei pra uma amiga de confiança.”, começa contando.
Mas a confiança virou exposição. No dia seguinte, perguntas invasivas começaram a circular:
“As pessoas começaram a me perguntar sobre minha saúde, se eu tomava remédio, como eu me relacionava.” Logo, toda a empresa sabia.
Pouco tempo depois, uma situação banal — um corte no dedo — se tornou o estopim do preconceito: “A dona do restaurante olhou e falou para eu lavar a mão na privada.”
Djair ainda tentou questionar o comentário, mas foi tratado como se estivesse “ouvindo coisas”. Cinco dias depois, foi demitido: “Disseram que era porque eu estava indisposto. Mas eu tinha acabado de receber o diagnóstico, tinha sido expulso de casa pelos meus pais e ainda fui exposto no trabalho. É óbvio que eu estava abalado.”

A situação piorou quando a empresa entrou em contato com a família de Djair: “Eles ligaram pros meus pais e disseram que estavam me demitindo por cuidado, que eu ia me aposentar e não precisaria mais trabalhar.”
O golpe final veio quando a empresa conseguiu acesso, sem autorização, a um atestado médico do CTA para justificar a demissão.
Sem casa e sem renda, Djair perdeu também a bolsa do FIES que mantinha seus estudos em Enfermagem: “Minha vida parou. Eu fiquei em situação de rua, sem receber a rescisão, sem apoio de ninguém.”
O acolhimento que deveria vir do serviço de saúde também falhou: “A assistente social do CTA olhou pra mim e disse: ‘Nossa, tão novo, cursando enfermagem e com HIV?’”
A frase, que deveria ser acolhimento, virou julgamento. “Se eu tivesse sido recebido da forma certa, talvez tivesse conseguido acionar a Justiça, ou encontrar algum apoio jurídico.”, lamenta Djair.

O vazio da lei e o preconceito disfarçado
Djair tentou buscar ajuda. Procurou advogados, mas foi ignorado. Sem testemunhas e com o tempo passando, perdeu o prazo para mover uma ação trabalhista.
“Eu sabia que o que fizeram era crime, mas não tinha como provar. Todo mundo no trabalho era parente entre si. Não tinha quem depusesse por mim.”
Ele acredita que as leis brasileiras ainda deixam brechas que permitem o preconceito:
“Existem muitas brechas. Recentemente, teve o caso de um homem que matou o companheiro com HIV e foi absolvido, dizendo que fez isso pra se proteger. Isso mostra como a Justiça ainda trata a gente como ameaça, e não como cidadão.”
O preconceito, diz ele, hoje é mais sutil: “Antes era explícito. Agora é camuflado. As pessoas dizem que é ‘por cuidado’, ‘por zelo’, mas é o mesmo preconceito, só que disfarçado.”
A tentativa de recomeço e o medo constante
Depois de perder o emprego, Djair ainda passou por outros trabalhos — nenhum durou muito tempo. “Eu ficava com a pulga atrás da orelha. Será que me demitiram porque viram meu Instagram e descobriram meu diagnóstico?”
Durante a pandemia, começou a empreender. Vendeu camisetas, depois comidas, ramo em que mais se encontrou até o momento e que o ajudou a alcançar mais pessoas nas redes sociais. Redes essas que ele usa para conscientizar sobre o HIV e também foram espaço de ataques: “Teve gente dizendo que podia pegar HIV pela comida. Me fez lembrar tudo o que vivi no restaurante.”
Mesmo assim, seguiu falando: “Transformei minha revolta em informação. Comecei a explicar o que é ser indetectável, intransmissível, a mostrar que pessoas vivendo com HIV têm vida normal, têm direitos, têm dignidade.”
Entre o medo e a esperança
Hoje, aos 28 anos, Djair reconstrói sua estabilidade. “Depois do diagnóstico, aprendi a me cuidar mais. Antes eu tinha medo de faltar no trabalho pra ir ao médico. Agora não. Eu sei que é meu direito.”, afirma.
Ele também encontrou apoio em uma ONG local, anos depois do trauma. Lá, recebeu orientação jurídica e um benefício social temporário que o ajudou a se reerguer: “Foi o primeiro acolhimento de verdade que eu tive. Pena que demorou três anos pra acontecer.”
Hoje, Djair divide a rotina entre o trabalho com publicidade nas redes sociais e a venda de comidas caseiras por delivery em Aracaju. O empreendedorismo, que nasceu da necessidade, virou também ferramenta de conexão e resistência:
“A comida me aproximou das pessoas e me ajudou a curar o preconceito. Enquanto cozinho, aproveito pra falar sobre o HIV, explicar que não existe risco e que a gente pode viver normalmente.”
Sete anos após o episódio que mudou sua vida, ele conta que também reconstruiu parte da relação com a família: “Minha mãe sofreu um acidente e fraturou a coluna. Eu precisei ficar com ela no hospital. Depois minha avó faleceu, e nesses momentos difíceis a gente foi se reaproximando. Ela entendeu que errou, me pediu desculpas, e hoje se sente muito orgulhosa das coisas que eu faço.”
Djair também voltou a sonhar. Quer continuar empreendendo para gerar emprego e acolhimento a outras pessoas LGBT+ que vivem com HIV, concluir o curso de Enfermagem e, um dia, trabalhar como profissional de saúde. “Quero poder cuidar e acolher outras pessoas como eu. E continuar criando conteúdo, porque é uma forma de transformar dor em aprendizado e preconceito em diálogo.”
Informação é acolhimento
No fim, Djair deixa uma mensagem que serve tanto para quem vive com HIV quanto para quem convive com o preconceito. “A gente precisa se informar. O HIV pode estar na vida de qualquer pessoa — um amigo, um parente, um colega de trabalho. E só quem tem informação está preparado pra acolher.”
Ele lembra que ser demitido por viver com HIV é crime, mas muitas pessoas não sabem disso: “Nós temos leis que nos protegem, mas elas só funcionam quando são usadas. E só serão usadas quando a gente se movimentar, quando parar de ter medo.”
A voz dele é firme, mas não há amargura. Há cansaço, e também coragem:
“A sociedade trata a gente como criminoso, mas não é isso. Nós não temos culpa de nada. O crime é o preconceito. O crime é tirar de alguém o direito de viver e trabalhar.”, deixa a mensagem.
Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)
- Estagiário em Jornalismo na Agência Aids
- Edição: Talita Martins
- Dica de entrevista: Djair Gomes
- Instagram: soudjair



