Mês da Mulher: “Se você não inclui no seu feminismo todas as minorias, volte três casinhas e recomece de novo”, diz a transpóloga Renata Carvalho

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

A  transpóloga, atriz, diretora e roteirista reflete sobre a naturalização dos corpos transfemininos durante o mês da mulher nas artes, na publicidade e em todos os espaços sociais

Renata Carvalho — A mulher Jesus Cristo | by Guia Maria Firmina | guiamariafirmina | Medium

Em 2016,  a transpóloga, atriz, diretora e roteirista Renata Carvalho estreou a peça “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, em que interpretava Jesus Cristo como uma mulher trans. Embora a obra tenha sido sucesso de bilheteria no país inteiro, também sofreu fortes ataques de grupos conservadores da sociedade brasileira, que pressionaram o poder público e privado a censurá-la. A atriz foi linchada virtualmente, além de sofrer ataques físicos que a obrigaram a utilizar colete a prova de balas durante um período até que cessassem as ameaças de morte. Isso lhe custou o adoecimento mental, somado aos desafios que já a acompanhavam por anos por ser um corpo trans habitando um mundo programado para a cisgeneridade. 

Nascida em Santos, cidade que abriga o maior porto do país, Renata chegou a se prostituir durante um período, até que o serviço social como agente de prevenção a resgatou e apresentou uma empregabilidade tão cara às mulheres trans. Atualmente, roda o país e o mundo com o espetáculo autoral “Manifesto Transpofágico” e falou à Agência de Notícias da Aids como convidada especial para o mês da mulher. “Se você não inclui no seu feminismo todas as suas minorias, volte três casinhas e recomece de novo”, afirma.

Confira a entrevista.

Agência Aids: No mês das mulheres, em março, muitas empresas e marcas fazem ações e campanhas, mas ainda vemos poucas mulheres trans sendo representadas. Você acha que tivemos algum tipo de avanço nos últimos anos?

Renata Carvalho: Como uma das fundadoras do movimento de representatividade trans, vejo uma mudança de artistas trans que foram incluídas nas artes, e consequentemente, trazendo essa representatividade para a sociedade. Eu acho que ainda falta a naturalização das nossas presenças, pois a representatividade é isso: estar de corpo presente. Agora, vemos corpos trans na arte, política, música, literatura, na academia, na educação, no judiciário, etc. Estamos no caminho, mas os processos precisam de tempo, porque não se muda uma estrutura do dia pra noite. Como diz o feminismo negro, são águas se infiltrando nas estruturas e leva tempo até essa água encharcar para que a estrutura, de fato, rua. Eu acho que ainda falta essa naturalização com a presença do corpo trans no convívio diário, pois é o que traz a nítida percepção da igualdade. E quando se torna natural, ele se torna humano. A gente está buscando o caminho da humanidade dos corpos negros e LGBTQIAP+ e isso acontece quanto mais a gente estiver presente nos espaços, inclusive nas campanhas publicitárias, nas discussões feministas e transfeministas.

Como você acredita que as pautas feministas podem ser mais inclusivas com as mulheres trans? Onde as feministas cis podem olhar com mais cuidado?

Eu acho que se você é feminista, você está na causa trans. Se você não inclui no seu feminismo todas as minorias, volte três casinhas e recomece de novo. 

Como você acredita que a arte pode ajudar a romper o preconceito e a discriminação contra corpos trans?

A arte traz consigo a possibilidade de abrir mentes e corações, de colocar luz em determinados assuntos ainda obscuros e não discutidos em sociedade. A arte tem esse poder de denunciar, de focar ou de levantar uma discussão, é um poder político. Quando a gente está falando de representatividade, não é somente na frente das telas ou dos palcos, mas também atrás dele e na plateia. O teatro é um lugar opressivo para os corpos trans. Acho que agora, com a gente presente nos locais de criação artística, não só nos locais de atuação, a gente começa a ter um olhar mais humanizado e começamos a repensar as narrativas.  Eu quero falar de amor, de afeto, de vida, de sucesso, de envelhecimento, de família… Quando a gente coloca um personagem trans num lugar, por exemplo, como uma juíza, quando a gente coloca nesse lugar de positividade, nós abalamos esse imagético social do que é ser uma pessoa trans. Porque, é o que eu sempre falo, quando você escuta a palavra travesti, qual é a imagem que se forma na sua cabeça? Acontece uma construção social, criminal, patológica, carnavalesca, hipersexual, religiosa e principalmente moral em cima dos nossos corpos, da identidade, da vivência e do corpo travesti, do corpo trans.

Renata na peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu – Foto Divulgação

Como se preparar emocionalmente, psicologicamente, enquanto artista, para o lançamento de cada trabalho? Afinal, a exposição pública muitas vezes pode gerar ataques virtuais e até físicos aos corpos que ousam romper com esse imagético social?

A transfobia vem e essa peça (“O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”) foi censurada cinco vezes. Eu já usei colete à prova de balas. Eu conhecia a transfobia no Brasil, porque eu sou uma travesti, mas eu não sabia que o ódio era tanto assim, tão extremo assim. Não foi uma proposição minha, mas quando eu li o texto eu me apaixonei. Acho que uma das coisas mais lindas que eu já li na vida. E olha que eu amo o “Grande Sertão Veredas”… É estranho quando você faz essa pergunta, porque eu não me preparo psicologicamente para fazer teatro. Eu nunca tinha visto uma obra de arte mexer ao mesmo tempo com o judiciário, com a arte, a educação, a política e a religião e com debates bem acalorados. Mas eu posso dizer que isso me fez ter uma depressão acentuada, profunda. Eu tive síndrome do pânico. Eu tive problemas de alimentação. Ainda estou me curando, por isso resolvi parar o espetáculo, quando o Bolsonaro ganha. Mas eu também sofri ataques quando lancei o Movimento Nacional de Artistas Trans (Monart) e crio representatividade trans, lutando contra a prática do transfake. Eu sou atacada pela arte brasileira, inclusive por artistas trans, porque não se espera intelectualidade de um corpo travesti. Decidi encerrar o Monart no ano passado porque não aguentei mais a pressão. Tudo o que tem prejudicado a minha saúde mental, como o espetáculo de Jesus e o Monart, eu parei. Porque é fácil criminalizar um corpo trans, não é? As pessoas ficaram com uma imagem de uma Renata muito combativa, muito violenta, muito incisiva, mas será que foi porque as pessoas não conseguiam escutar uma travesti? Ou entender? Ou aceitar que eu também entenda de teatro, como eles. Inclusive, estou dando um tempo dos palcos, porque o teatro tem me custado muito. Estou me dedicando mais ao audiovisual e à escrita. 

Como a utilização de transfake pode ser nociva para a comunidade trans e para a sociedade em geral?

Transfake é quando artistas cisgêneros interpretam pessoas trans. Temos a denúncia da exclusão dos corpos trans e travestis, que você está tirando do mercado de trabalho. Além de você borrar o que é ser trans, dificulta a empregabilidade das pessoas trans e afeta a naturalização da nossa presença, que eu acho que é o principal ponto. Eu não sou uma juíza pra dizer quem pode e quem não pode, mas eu estou dizendo que nesse dado momento nós estamos pedindo uma pausa na prática do transfake pelos próximos 30 anos. Tenho certeza que daqui a 30 anos, a vida média de uma pessoa trans vai aumentar se a gente incluir corpos trans nas artes como estamos começando a fazer. Nós mudamos a Globo e, hoje, em quase toda novela tem uma personagem trans ou falando sobre transgeneridade. Isso vai forçar a nossa naturalização Então, a gente denuncia a prática do transfake porque ela dificulta a nossa profissionalização. Além disso, as narrativas ainda têm conteúdo transfóbico, mesmo quando é um drama, você ri de algumas coisas. Há uma construção social da imagem do que é ser uma pessoa trans. E não somente na arte, mas em toda a sociedade, na medicina e no judiciário, com o encarceramento em massa das travestis. As pessoas acham que nós não temos talento, não temos aptidões de interpretar, de chorar, de emocionar, de fazer rir. Então, a gente pede uma pausa na utilização de transfake e também que se coloque pessoas trans no espaço de criação, para que a gente possa parar de reproduzir narrativas estereotipadas. Precisamos de narrativas do sonho, narrativas do futuro em que eu possa ver uma pessoa travesti com afeto. Eu não preciso mais ver pessoas travestis sendo mortas em filmes, nem mais a “narrativa do ridículo”, que nos coloca no lugar de chacota: a vestimenta, a maquiagem, o andar, tudo é feito para rir. O problema dos estereótipos é que eles não são mentira, mas são incompletos. Eles fazem com que uma história se torne a única história.

Os Primeiros Soldados', filme sobre início da aids no Brasil, estará no Festival do Rio - Casa 1

No filme “Os Primeiros Soldados” você interpreta Rose, uma personagem que vive com HIV e está adoecendo por aids. Como foi a preparação para essa personagem e como isso te afetou, afinal as mulheres trans ainda são muito associadas à doença e são dos grupos que mais morrem por aids no Brasil, apesar dos tratamentos eficazes e gratuitos pelo SUS?

Eu fui agente preventiva de HIV/aids durante 11 anos. Eu também trabalhei com travestis e mulheres trans na prostituição. Eu fui da prostituta à agente de prevenção, fiz todo o percurso. E a Rose era um pouco de todas as travestis que eu conheci na minha vida, que tiveram HIV ou não, que enfrentam essa realidade para que hoje a gente possa ser indetectável. Eu nasci em Santos, a capital mundial da aids. Muitas travestis saem da prostituição como agente de prevenção, portanto a aids tem um papel fundamental no percurso travesti. Foi um filme muito especial no sentido de ser uma homenagem a todas as traviarcas que vieram antes e lutaram e continuam lutando bravamente.

Marina Vergueiro (marina@agenciaaids.com.br)

Dica de entrevista

Renata Carvalho

E-mail: renatacarvalhoteatro@gmail.com

Apoios