
As mulheres desempenham um papel fundamental na resposta ao HIV/aids no Brasil, liderando iniciativas com coragem, compromisso e defesa dos direitos humanos. Sejam ativistas, profissionais da saúde ou pesquisadoras, elas desafiam barreiras, promovem o cuidado e inspiram novas gerações. Durante o mês de março, a Agência Aids destaca histórias de mulheres protagonistas dessa luta, reafirmando a importância de sua atuação na construção de uma sociedade mais justa e inclusiva.
Sabrina Luz

Mulher trans e vivendo com HIV há mais de 15 anos, Sabrina Luz é uma voz obstinada na luta contra a transfobia, a sorofobia e todas as formas de preconceito. Nascida no Ceará, em uma cidade próxima a Fortaleza, Sabrina é uma ativista cristã que superou não apenas a aids, mas também um câncer de pele. Nas redes sociais, tem se dedicado a comunicar sobre prevenção, combater o estigma relacionado ao HIV e compartilhar reflexões sobre seu ativismo e ações sociais para ajudar quem mais precisa.
O HIV chegou em sua vida já em estágio de aids e, assim como a maioria esmagadora das pessoas que vivem com o vírus, ela teve dificuldade em aceitar seu diagnóstico devido ao estigma. Entretanto, conseguiu aderir cedo ao tratamento, o que lhe garantiu qualidade de vida. Sabrina faz questão de reforçar que a adesão ao tratamento é essencial para garantir a longevidade das pessoas vivendo com HIV. Por viver com o vírus e por ser uma pessoa trans, enfrentou muitos desafios, mas sua vontade de viver sempre falou mais alto.
Por um período, Sabrina precisou viver em uma casa de acolhida para pessoas que vivem com HIV/aids, onde recebeu cuidado e apoio integral, incluindo assistência nutricional, pois a aids fragilizou seu corpo a ponto de não conseguir se alimentar adequadamente. Com suporte e determinação, superou essa fase, recuperando sua saúde física, psicológica e emocional. Hoje, em sua terra natal, Sabrina Luz desenvolve o projeto social “Ser Feliz e Saudável” e, ao lado de seu companheiro, Bernardo Luz, desfruta o melhor da vida.
Priscila Obaci

Multiartista e educadora, Priscila Obaci é fundadora do Instituto Poesias Pós-Parto. Mãe dos pequenos Melik Rudá e Bakari Mairê, transita entre teatro, dança e poesia. É formada em Comunicação das Artes do Corpo e pós-graduanda em musicalização infantil. Sobre seu diagnóstico de HIV, Priscila descobriu quando ainda estava casada e, cerca de um ano depois, se divorciou. Logo, soube que seu ex-companheiro estava se relacionando com outra pessoa e, refletindo sobre como seguiria sua vida, decidiu que viveria a partir da verdade, para que as pessoas que estejam perto de si saibam quem ela é e conheçam todas as identidades que carrega: mulher preta, candomblecista, periférica, vivendo com HIV e mãe solo.
Priscila se ancora na força de sua ancestralidade para superar desafios. No entanto, sua trajetória mostra que pessoas como ela não são definidas apenas pelas dores que acompanham suas histórias. Amor, arte e resistência também compõem suas vidas, e é justamente nessa perspectiva que ela se fortalece por si e pelos seus pares.
Priscila Obaci fala abertamente sobre sua sorologia no teatro, na vida e nas redes sociais. A multiartista inspira por onde passa, compartilhando sua trajetória com afeto e acolhimento, elementos capazes de transformar qualquer experiência humana, inclusive a de viver com HIV.
Marinella Della Negra

A médica infectologista Marinella Della Negra é uma das grandes referências nacionais na luta contra o HIV/aids. Formada pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (1971), possui mestrado em Medicina (Gastroenterologia) pelo Instituto Brasileiro de Estudos e Pesquisas de Gastroenterologia (1995) e doutorado em Ciências da Saúde pela mesma instituição (2004). Acompanhou de perto os primeiros casos da epidemia no país, dedicando-se especialmente a casos pediátricos.
Atualmente, é professora adjunta da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Sua vasta experiência na Medicina, com ênfase em doenças infecciosas e parasitárias, tem sido essencial para o avanço no tratamento e na prevenção do HIV/aids no Brasil. Isso a levou a fundar uma ONG de apoio a crianças e adolescentes impactados pela aids, oferecendo suporte médico, psicológico e social para jovens que enfrentam desafios desde a infância.
Em 1989, dentro do Emílio Ribas, surgiu a Associação de Auxílio à Criança Portadora de HIV, criada por Marinella junto a colegas médicos infectologistas e profissionais de saúde da chamada “Equipe do 2º Andar”. Com recursos de doações e parcerias, os voluntários custeiam medicamentos, aluguéis, transporte e alimentos, além de oferecer apoio educacional e psicológico. Hoje, a associação segue ativa, ajudando jovens a ingressar no ensino superior e construir um futuro digno.
Damiana Netto

Sanitarista e epidemiologista, Damiana Netto tem uma trajetória de intensa luta pela equidade racial e de gênero na saúde pública. Graduada em Administração Hospitalar pela União Educacional de Brasília (1991), é mestre em Saúde Coletiva pela Universidade de Brasília (2015) e doutoranda no Programa de Medicina da Universidade de Valência, na Espanha, em cotutela com o Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade de Brasília.
Ativista e pesquisadora, Damiana Netto trabalha com prevenção do HIV, políticas de saúde para a população negra e quilombola, feminismo e justiça reprodutiva.
Incansavelmente, ela luta por uma perspectiva decolonial na ciência e nos Direitos Humanos, garantindo que pessoas vivendo com HIV/aids, especialmente as mulheres, tenham o direito de viver com dignidade.
Cleonice Araújo

Mulher trans e de ascendência indígena, Cleonice Araújo é presidenta da Rede Nacional de Travestis e Transsexuais que Vivem e Convivem com HIV/Aids (RNTTHP). Bacharel em Direito e pós-graduada em Direito Público, é ativista pelos direitos da população trans e travesti, promovendo ações para o acesso integral à saúde e o combate às ISTs/aids. Em Caxias do Sul (RS), tornou-se a primeira suplente trans eleita como vereadora, assumindo o mandato por um período.
Há muitos anos, Cleonice dedica sua vida à luta pelo direito à saúde de pessoas trans, combatendo preconceitos históricos e promovendo a visibilidade travesti nas políticas públicas.


