A epidemia de HIV/aids persiste — e, com ela, o estigma, as desigualdades e os silêncios que atravessam corpos e territórios. No Brasil, onde os avanços biomédicos convivem com barreiras sociais profundas, parte fundamental da resposta segue sendo construída fora dos serviços de saúde. São mulheres que transformam vivência em luta, cultura em mobilização e arte em denúncia, tensionando invisibilidades históricas e ampliando o debate público.
No Mês da Mulher, as trajetórias de Maria Elisa, Micaela Cyrino e Adriana Bertini revelam como diferentes linguagens — da militância de base à produção cultural e à criação artística — seguem sustentando, reinventando e politizando o enfrentamento ao HIV/Aids.
Maria Elisa: da experiência à mobilização coletiva

Integrante do Movimento Nacional das Cidadãs Positivas em São Paulo, Maria Elisa construiu sua trajetória a partir da vivência direta com o HIV. Há quase 40 anos vivendo com o vírus, tornou-se uma das vozes que articulam o protagonismo das mulheres na resposta à epidemia, especialmente na defesa do direito à saúde reprodutiva e ao cuidado digno.
Sua atuação se concentra na formação política, na incidência e na ampliação do acesso a direitos, sobretudo para mulheres em situação de maior vulnerabilidade. No movimento, fortalece espaços de escuta e troca, onde mulheres vivendo com HIV compartilham experiências, constroem estratégias e pressionam o poder público por políticas que considerem os determinantes sociais da epidemia.
Sua trajetória traduz o espírito do ativismo histórico no campo do HIV/aids: transformar vivências individuais em mobilização coletiva. Parte de uma geração marcada por estigma, perdas e silenciamentos, Maria Elisa segue afirmando que viver com HIV é também reivindicar dignidade.
Micaela Cyrino: cultura, juventude e disputa de narrativas

Artista, educadora, produtora cultural e graduada em Artes Visuais, Micaela Cyrino representa uma geração que amplia a resposta ao HIV/aids por meio da cultura e da construção de narrativas — atravessadas também pela luta antirracista.
Mulher negra, Micaela explicita em sua trajetória como o racismo estrutura desigualdades no acesso à saúde, à informação e aos direitos, aprofundando vulnerabilidades históricas no contexto da epidemia.
Nascida com HIV por transmissão vertical, nunca conheceu uma vida sem o diagnóstico. Desde cedo, compreendeu que o maior desafio não era o vírus em si, mas o estigma que o atravessa — frequentemente agravado por marcadores como raça, gênero e geração.
Ainda jovem, participou da fundação da Rede Nacional de Jovens e Adolescentes Vivendo com HIV/Aids, consolidando uma trajetória de militância voltada à juventude, ao enfrentamento da sorofobia e à denúncia das desigualdades raciais.
Sua atuação aposta na cultura como ferramenta de mobilização social. Por meio da articulação de projetos, eventos e iniciativas, coloca em evidência temas como diversidade, direitos humanos, memória e justiça racial — ampliando o debate público e tensionando invisibilidades históricas.
Ao lado de outras mulheres que vieram antes, Micaela simboliza uma virada na resposta à epidemia: da sobrevivência à afirmação da existência plena, com direito à voz, à história e ao futuro.
Adriana Bertini: arte como prevenção, denúncia e memória

Há mais de três décadas, Adriana Bertini transforma a arte em ferramenta de saúde pública. Desde os anos 1990, em meio à emergência da epidemia, utiliza materiais como preservativos descartados, resíduos da área da saúde e objetos do cotidiano para criar obras que tensionam temas como sexualidade, estigma e direitos humanos.
Seu trabalho ultrapassou fronteiras e hoje integra acervos de museus ao redor do mundo, além de ser utilizado como dispositivo educativo em diferentes contextos — de comunidades a universidades internacionais.
Criadora do projeto Condom Couture, Bertini ganhou reconhecimento ao transformar preservativos em peças de moda, deslocando o objeto do tabu para o diálogo. Mais do que estética, sua proposta provoca reflexão sobre prevenção, comportamento e relação com o próprio corpo.
Ao longo da carreira, também se consolidou como articuladora política, participando de iniciativas com organizações internacionais e desenvolvendo metodologias educativas que conectam arte, ativismo e direitos humanos — incluindo debates sobre financiamento da resposta ao HIV e justiça ambiental.
Pontes que sustentam a resposta
A resposta ao HIV/Aids não se sustenta apenas em avanços biomédicos. Ela depende da capacidade de enfrentar desigualdades, romper silêncios e disputar narrativas.
De Maria Elisa, que transforma a experiência em mobilização coletiva, a Micaela Cyrino, que articula cultura, juventude e justiça racial, até a obra de Adriana Bertini, as três trajetórias mostram que o enfrentamento à epidemia se constrói de forma plural — entre vivências, linguagens e formas de incidência.
Redação da Agência de Notícias da Aids




