O enfrentamento ao HIV no Brasil não acontece apenas nas conferências científicas ou nas decisões institucionais. Ele também nasce nos territórios, nas organizações comunitárias e nas trajetórias de mulheres que transformam suas próprias experiências em mobilização social, cuidado coletivo e defesa de direitos.
É nesse espaço de atuação que se destacam Fabiana Mesquita e Evalcilene Santos. Em diferentes regiões do país e com caminhos distintos dentro do ativismo, as duas lideranças ajudam a fortalecer redes comunitárias, ampliar o acesso à informação e defender políticas públicas voltadas às populações mais afetadas pela epidemia.
Suas histórias mostram que, mesmo após mais de quatro décadas de resposta ao HIV, o protagonismo das mulheres segue sendo fundamental para sustentar a prevenção, o cuidado e a luta contra o estigma.
Fabiana Mesquita: diversidade, comunicação e mobilização social

Ativista e liderança do Instituto Multiverso, Fabiana Mesquita construiu sua trajetória na defesa dos direitos humanos, da diversidade e da promoção da saúde.
Ao longo dos anos, seu trabalho tem se concentrado na criação de espaços de diálogo e acolhimento voltados especialmente às populações mais vulnerabilizadas pela epidemia de HIV, incluindo pessoas LGBTQIA+, jovens e comunidades que enfrentam barreiras históricas de acesso à informação e aos serviços de saúde.
No Instituto Multiverso, Fabiana participa da construção de projetos de prevenção combinada, educação em saúde e mobilização comunitária. As iniciativas da organização buscam ampliar o acesso à informação qualificada sobre HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis, além de promover debates sobre direitos, cidadania e enfrentamento ao estigma.
Seu trabalho também destaca o papel da comunicação como ferramenta estratégica no combate à desinformação e na construção de narrativas que valorizem a diversidade e a dignidade das pessoas vivendo com HIV.
Evalcilene Santos: da experiência com o HIV à defesa coletiva de direitos

No Amazonas, a trajetória de Evalcilene Santos mostra como a experiência pessoal pode se transformar em ativismo e mobilização política.
Professora, militante e redutora de danos, Evalcilene vive com HIV há mais de duas décadas. Ao longo desse período, transformou sua própria história em uma atuação constante na defesa das pessoas vivendo com HIV — especialmente das mulheres.
Para ela, o diagnóstico nunca foi apenas uma questão de saúde, mas também um ponto de partida para enfrentar o estigma e as desigualdades que ainda marcam a vida de muitas pessoas soropositivas no Brasil.
Em um artigo publicado em 2023, ela escreveu: “Viver com HIV/aids não era só ter uma patologia. Era lutar pela minha sobrevivência e de outras pessoas, principalmente mulheres.”
A partir dessa experiência, passou a atuar no movimento social e na defesa de políticas públicas voltadas à prevenção, ao tratamento e à garantia de direitos.
Evalcilene é presidente da Associação de Redução de Danos do Amazonas, cofundadora e articuladora do Movimento Brasileiro de Redução de Danos e integrante do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas.
Sua atuação também dialoga com uma agenda mais ampla de direitos humanos, incluindo a defesa da saúde sexual e reprodutiva, do sigilo da sorologia e da ampliação do acesso a novas tecnologias de prevenção para mulheres.
Do ativismo à política
Em 2022, Evalcilene decidiu dar um passo além na militância e entrou na disputa eleitoral após convite do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Inicialmente convidada para concorrer a uma vaga na Assembleia Legislativa do Amazonas, acabou sendo lançada como candidata à Câmara Federal.
A experiência marcou sua entrada na política partidária — um espaço que, segundo ela, ainda apresenta muitas barreiras para lideranças vindas dos territórios e dos movimentos sociais. “Não foi fácil por eu ser mulher, pobre, periférica e sem experiência em política partidária”, escreveu.
Embora não tenha sido eleita, Evalcilene afirma que a experiência reforçou sua convicção sobre a importância de ocupar espaços institucionais para transformar demandas históricas do movimento social em políticas públicas concretas.
Mulheres que sustentam a resposta à epidemia
As trajetórias de Fabiana Mesquita e Evalcilene Santos revelam como o ativismo comunitário continua sendo uma das bases da resposta brasileira ao HIV.
Em diferentes territórios, mulheres lideranças seguem construindo pontes entre comunidades, serviços de saúde e políticas públicas — ampliando o alcance da prevenção, fortalecendo redes de apoio e defendendo o direito à vida com dignidade para pessoas vivendo com HIV.
No Mês da Mulher, reconhecer essas histórias é também reconhecer o papel fundamental do ativismo feminino na construção de uma resposta à epidemia baseada em ciência, solidariedade e justiça social.
Redação da Agência de Notícias da Aids



