Mês da Mulher: Especialistas alertam que o machismo e os tabus sobre sexualidade na terceira idade têm tornado as mulheres vulneráveis às IST/aids

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

A população vivendo com HIV está envelhecendo como parte natural do ciclo da vida. O estigma obscureceu muitas percepções sobre o futuro dessas pessoas. No entanto, à medida que a ciência avançou, aumentou também a expectativa de vida de quem vive com HIV. Esta população segue viva e ativa, inclusive as mulheres.

Cada uma, à sua maneira, vem envelhecendo, algo que antes era impensável. Entretanto, com o envelhecimento vem também desafios comuns, como questões relacionadas à saúde, além de questões específicas que estão surgindo de forma precoce significativamente nestas mulheres, como por exemplo a menopausa precoce, diabetes, doenças cardiovasculares, entre outras comorbidades.

Para além disso, temos testemunhado o aumento significativo no número de novos casos de HIV e outras ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis) na terceira idade. 

Principais duvidas sobre o coronavirusEm entrevista à Agência Aids, o infectologista Caio Rosenthal, do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo, compartilha dicas de saúde para as mulheres HIV+ que estão na terceira idade.

Segundo o doutor, o envelhecimento das pessoas vivendo com HIV é sim um fato que se evidencia com o passar dos anos. Ele esclarece que não há uma diferença muito importante em relação ao gênero nesse processo, mas destaca que já sabe-se que a menopausa costuma ocorrer mais cedo nas mulheres que vivem com o vírus da imunodeficiência humana, em comparação com as mulheres HIV negativas. O médico também menciona que “as comorbidades têm se tornado mais frequentes à medida que se conhece melhor o caráter inflamatório da doença. Então, é fato que as pessoas têm, no decorrer dos anos, tanto o homem quanto a mulher, o aparecimento de doenças cardiovasculares mais frequentemente, ou seja, coronariopatias e acidentes vasculares cerebrais, químicos ou transitórios”.

Em sua experiência clínica, dr. Caio Rosenthal têm notado que as pessoas vivendo com HIV após a terceira idade, o que inclui as mulheres, já estão convencidas e aceitam sua condição. Nesse estágio, elas já não têm grandes questionamentos sobre a presença do vírus e assumem sua positividade de forma mais natural. No entanto, ressalta aspectos que afetam a saúde mental e a importância daqueles cuidados rotineiros, nutricionais e complementares para manter a saúde e bem-estar integral.

“Eu vejo que todas as pessoas, depois de uma certa idade, têm que cuidar da sua saúde nutricional igualmente, com HIV ou sem HIV. Mas, claro, as pessoas que vivem com HIV têm que tomar certos cuidados, como, por exemplo, evitar que haja o aumento do colesterol, pois hoje em dia, o [excesso de] colesterol é um marcador muito forte e [bastante determinante]. A paciente tem que sempre estar atenta a este aumento do colesterol, evitando alimentos industrializados, embutidos, lanches, alimentos com creme de leite, alimentos gordurosos e também tomar cuidado com a saúde física.”

Ele continua: “Tanto as mulheres quanto os homens têm que ser cuidadosos com a saúde física, têm que se exercitar, fazer exercício pelo menos 3 vezes por semana durante 60 minutos para cuidar da sua saúde e performance física, muscular e cardiovascular.”

Machismo estrutural

O médico, que atende pacientes HIV+ desde o começo da epidemia, no anos 1980, não deixou de reconhecer que o machismo estrutural tem limitado o direito das mulheres à saúde, tanto aquelas com mais de 60 anos que vivem ou convivem com o HIV, quanto aquelas que estão se aproximando da terceira idade e mantêm uma vida sexual ativa. “O rastreio é uma obrigação que todos os médicos têm. Todos os médicos de qualquer especialidade devem se atentar ao risco de HIV, independentemente da queixa que a paciente tenha. É obrigação do profissional sugerir o rastreio, pedindo permissão para realizá-lo. Isso inclui o rastreamento para HIV, sífilis, hepatites A, B e C. É obrigação médica em qualquer especialidade, seja na clínica privada ou no SUS (Sistema Único de Saúde), realizar essa abordagem e solicitar os exames.”

“O que acontece é que, geralmente, as mulheres enfrentam um maior nível de julgamento e preconceito. [Além de que], muitos homens simplesmente não aceitam viver com uma mulher HIV positiva, o que leva muitas mulheres a ficarem sozinhas ou serem abandonadas por seus parceiros, tendo que lidar com a responsabilidade de cuidar de si e de seus filhos, garantir o sustento.… Em uma sociedade machista, a mulher com HIV enfrenta um estigma muito maior!”.

Sistema imunológico 

Também em entrevista, a médica geriatra Cinthia Souza, de Belém do Pará, explica que “o envelhecimento ocorre como uma senescência do nosso sistema imune.”

De acordo com a especialista no cuidado à saúde da pessoa idosa, “o sistema imune não responde a partir dos 60 anos como ele respondia anteriormente. Então, isso já acende um alerta que, a partir do momento que se suspeita de uma infecção por HIV, é necessário iniciar a terapia antirretroviral o mais cedo possível, porque a resposta no idoso [com diagnóstico recente] não é a mesma que a do paciente mais jovem.”

“Sem contar que o declínio dos linfócitos TCD4 ocorre de forma muito mais abrupta no idoso devido a senescência do sistema imune.”

Cinthia destaca que ainda existe o estigma de que “o idoso não transa mais”, porém afirma que, mesmo com o corpo requerendo uma estabilidade física, muitas vezes só o ato da masturbação é sinal de uma sexualidade ativa. “E a gente sabe que com as mulheres, após a menopausa, a parede vaginal fica mais frágil. Então, o simples ato da masturbação ou do sexo oral deixar sua saúde sexual mais vulnerável […]. Aí está a importância da gente abordar o sexo com essa população.”

A geriatra compartilha que muitos pacientes ou até mesmo suas parceiras, inclusive aqueles com alguma alteração cognitiva, procuram remédios de estimulação sexual, e ressalta a importância de campanhas de cuidados e prevenção das infecções sexualmente transmissíveis, especialmente de prevenção ao HIV/aids, também para os idosos, levando em consideração o maior preconceito ou resistência com o uso da camisinha que uma camada expressiva da população idosa tem.

Segundo ela, é fundamental estabelecer um vínculo de confiança entre o médico geriatra e paciente, permitindo uma abordagem natural e respeitosa sobre a sexualidade. “A partir do momento que você pergunta, já é uma ponte de confiança”, diz.

A especialista continua falando da importância de os profissionais geriatras estarem informados e atualizados sobre questões relacionadas ao HIV/aids e à sexualidade na terceira idade, e lamenta que faltam campanhas de saúde pública por parte das entidades oficiais que possam convocar os profissionais para atenção e capacitação contínua. A comunicação aberta e sem tabus sobre sexualidade na terceira idade é essencial, pois, “o sexo é parte da vida e sendo consensual e saudável, sempre faz bem.”

Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)

Dica de entrevista

Geriatra Cinthia Souza

cinthia.souza.consult@gmail.com

Hospital do Servidor Público Estadual

imprensa@iamspe.sp.gov.br

Apoios