Mês da Mulher: Empoderamento, liberdade e emancipação feminina são destaques em roda de conversa promovida pelo Instituto Vida Nova para mulheres vivendo com HIV/aids

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Ser mulher em um mundo onde o machismo, a misoginia e a desigualdade de gênero descredibiliza e oprime, não é tarefa fácil. Por isso, no dia 8 de março, em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, o Instituto Vida Nova promoveu um evento especial, que reuniu quase 30 mulheres que vivem com HIV/aids para um momento de celebração, cuidado, fortalecimento e empoderamento. O destaque foi uma roda de conversa, que contou com uma série de serviços dedicados à beleza e ao bem-estar, além de palestra inspiradora e um almoço de confraternização.

Ancorado sob o tema da força da mulher, o encontro abordou os desafios enfrentados diariamente por elas e a importância de se sentirem belas, livres e com seus direitos garantidos.

A colaboradora técnica do Instituto, Gislaine Nunes, foi uma das líderes que esteve à frente do evento. De acordo com ela, a escuta atenta e o diálogo aberto foram pilares fundamentais que garantiram que as participantes pudessem livremente compartilhar suas experiências, suas dores, vulnerabilidades, medos e anseios, conectando-se umas com as outras. “O Chá Delas para Elas se resume em um grito de socorro, é o que eu posso observar. Nós enquanto técnicas, percebemos ali naquelas falas o quanto aquelas mulheres necessitam ser escutadas e também de ter um encaminhamento. E eu quero dizer com isso que a partir do momento que a gente deixa elas à vontade para abordar um assunto e elas falam sobre as suas vivências, a gente consegue identificar vulnerabilidades e fazer os encaminhamentos”, divide.

Segundo Gislaine, após identificar as necessidades, a equipe do Vida Nova está encaminhando aquelas que precisam de suporte para atender alguma demanda específica para os serviços apropriados, como por exemplo, assistência psicológica e casa de acolhida. 

Gislaine pontua que durante o momento, dentre os temas debatidos, destacou-se o tema ‘relacionamento’, e dentro deste assunto foram identificadas diversas formas de violência doméstica, tanto física quanto moral. 

“Eu acredito que entre as violências, a principal delas é a moral, essa é a maior forma de agressão que as mulheres acabam sofrendo dentro de seus lares, dentro de seus relacionamentos sofrem críticas, abusos, discursos como ‘eu sou homem, você é mulher, então o dever de cuidar de tudo é seu’ […]. Observamos que há uma sobrecarga dessas mulheres que precisam dar conta de tudo quando em seus lares, enquanto esperam os seus esposos. E quando chegam, são maltratadas. É bem triste! […] A gente vê o empoderamento auxiliar umas às outras que estão passando por essa fase. Isso mostra como é importante a junção desse grupo de diversas mulheres vivendo várias vidas, porque uma se fortalece na outra, dizendo coisas do tipo: ‘eu já passei por isso, está tudo bem, não se sinta culpada’, porque a culpa existe”, diz.

“Cada uma ali pede socorro de alguma forma e o intuito do grupo é que a gente possa fazer essa mulher realmente buscar meios de enxergar o problema e enxergar soluções para aquilo que está vivendo e não se conformar”, complementa trazendo a história de uma moça que compartilhou como o trabalho do cuidado tem tomado os seus dias. “Ela está com um problema no seio e precisa ser fortalecida para primeiramente cuidar de si mesma, e então depois conseguir cuidar dos filhos. Uma outra mãe também, muito emocionada, relatou a importância do Instituto Vida Nova, pois a sua filha, muito nova, chegou com sequelas já da aids. Agora está fazendo acompanhamento com fisioterapeuta e já vem melhorando grandemente sua saúde e ganhou mais autonomia […]. Essa mãe, no último momento, levantou, agradeceu muito a mim e a Eliane pelo acolhimento que o Instituto Vida Nova prestou. Ela chorou muito porque achou que a filha ia falecer. Aqui, contou que é muito importante essas rodas de conversa, porque assim compartilha das dores e consegue enxergar que não está sozinha.”

Gislaine explica que o encontro foi aberto para as mulheres que já são vinculadas às atividades do Instituto Vida Nova, mas destaca: “Queremos falar sobre a vida para além do HIV. Essa gente sabe que tem questões que envolvem HIV no cotidiano, porém são mulheres que muitas vezes são responsáveis total pelo seu lar, são mulheres que têm parceiros abusivos, que têm outras demandas familiares, então a gente tenta abordar as demandas fora do HIV que sobrecarregam aquela mulher. E o que me chamou a atenção é que muitas delas, 70% quase, vivem sozinhas. Quando relatei o porquê dessa escolha, elas falaram que já sofreram demais, que já passaram por relacionamentos abusivos, e isso não está ligado diretamente ao HIV, mas está ligado à forma que as pessoas se tratam, se relacionam. Muitas relatam que foram/são desrespeitadas, sobrecarregadas, agredidas, e muito mais. E hoje, escolhem viver uma vida sozinha.”

Emancipação feminina

Ela ainda conta que no encontro do ano passado, uma das mulheres compartilhou que teve um momento de insight durante as conversas, percebendo melhor a dinâmica de sua vida familiar enquanto ouvia outras mulheres falarem. “Ela vivia um relacionamento abusivo, o rapaz só estava usufruindo das coisas dela, mas não tinha aquela troca afetiva, não havia respeito entre os dois. E naquele momento, com a troca de falas de vivências e superações no encontro [do Vida Nova], decidiu colocar um ponto final [na relação] e pediu o divórcio. Esse divórcio já aconteceu, e agora nesse último encontro, ela chegou agradecendo o apoio que teve, todo o suporte que recebeu… essa mulher tomou uma decisão que julgou ter sido a melhor escolha da sua vida. Hoje ela está trabalhando, cuidando da sua própria vida e não tem ninguém fazendo mal para si.” 

“Esse é o nosso pontapé, perguntar: o que você está passando? Você é vítima disso? Você quer sair disso? Você enxerga que não é bom? O que você quer pra você? E aí elas vão falando, falando, e vão surgindo muitas histórias emocionantes, muitas de superação. O intuito do grupo é que a mulher que já está resolvida não aponte aquele momento que a outra está vivendo”, disse destacando que o processo de se desvencilhar de uma relação tóxica é complexo e desafiador. 

Oficina de beleza

O agente de prevenção da ONG e profissional da beleza, Sidney Freitas, ficou responsável pela parte dos cuidados em beleza que as meninas e mulheres presentes no encontro receberam.

Segundo o profissional, os serviços prestados no dia foram: limpeza de pele, designer de sobrancelha, spa de pés, maquiagem, e penteados, entre escova, prancha e tranças.

As 26 mulheres participantes também puderam acompanhar uma palestra de incentivo a sororidade, amor próprio e autoestima, além de desfrutarem de um almoço realizado especialmente para elas. “No encontro, mostramos que todos temos problemas, mas as mulheres como sempre os enfrentam ainda mais, independente de sua sorologia. No caso das meninas que são atendidas pelo Instituto Vida Nova, mostramos a elas que uma boa maquiagem torna-se sua armadura, podendo ajudar a enfrentar ainda mais o seu dia. O fato de poder colaborar com sua estima, melhorar a forma de se ver, se portar, dar dicas, e óbvio, comemorar o Dia Internacional das Mulheres foi ímpar para alegrar, suavizar e também para poder contribuir mais [na vida destas mulheres]”, conta Sidney, que finaliza: “Cuidar de si mesmo é essencial para manter uma autoestima elevada, independentemente das circunstâncias.

Para aquelas que vivem com HIV, o autocuidado não apenas fortalece a saúde física e mental, mas também promove uma sensação de controle e bem-estar. Isso pode incluir seguir um plano de tratamento, praticar hábitos saudáveis, como exercícios e uma dieta balanceada, buscar apoio emocional e social, como encontrar atividades que tragam alegria e satisfação. Priorizar o autocuidado pode ajudar a enfrentar os desafios com mais resiliência e viver uma vida plena e satisfatória. Todas se comprometeram bastante! Inúmeros relatos foram emanados, dentro um coro de choro de alívio, realizações e também de amarras sendo soltas”.

Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)

Dica de entrevista

Instituto Vida Nova

E-mail: ividanova2@gmail.com

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