Mês da Mulher: Dra. Valdilea Veloso, ciência e políticas públicas que ajudaram a transformar a resposta ao HIV/aids no Brasil

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A história da resposta brasileira ao HIV/aids passa pelo trabalho de muitas mulheres que ajudaram a construir políticas públicas, produzir conhecimento científico e ampliar o acesso ao cuidado. Entre elas está Valdilea Gonçalves Veloso, médica infectologista e pesquisadora que há quatro décadas se dedica ao enfrentamento da epidemia.

Ex-diretora do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), dra. Valdilea Veloso é pesquisadora titular da Fundação Oswaldo Cruz e uma das principais referências brasileiras em estudos sobre HIV, prevenção da transmissão vertical e políticas públicas de saúde.

Sua trajetória combina três frentes que marcaram a resposta brasileira à epidemia: assistência, gestão pública e pesquisa científica.

Quatro décadas dedicadas ao HIV

Formada em medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) em 1985, Valdilea iniciou sua atuação justamente nos primeiros anos da epidemia de HIV no Brasil, quando o país ainda estruturava suas respostas de saúde pública para enfrentar a doença.

Ao longo dos anos, construiu uma carreira acadêmica sólida. Em 2008, concluiu o doutorado em Saúde Pública na Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz), com pesquisa voltada para um dos temas centrais da resposta ao HIV: a prevenção da transmissão vertical.

Sua tese — “A Testagem Anti-HIV na Prevenção da Transmissão Vertical: Avaliação do Pré-Natal e no Momento do Parto” — analisou como o diagnóstico oportuno durante o pré-natal pode evitar a transmissão do vírus da mãe para o bebê, uma das estratégias mais eficazes para eliminar novos casos de HIV em crianças.

Hoje, além da atuação como pesquisadora, ela também é docente permanente da pós-graduação em Pesquisa Clínica em Doenças Infecciosas e Parasitárias do INI/Fiocruz e do Mestrado Profissional em Pesquisa Clínica, contribuindo para formar novas gerações de especialistas na área.

Atuação decisiva nas políticas públicas

Antes de assumir a direção do INI, Valdilea teve papel importante na formulação e implementação de políticas públicas relacionadas ao HIV no Brasil.

Entre 1997 e 2000, chefiou a Unidade de Assistência do Programa Nacional de DST e AIDS do Ministério da Saúde. Nesse período, participou de uma das decisões mais emblemáticas da resposta brasileira à epidemia: a implementação do **acesso universal ao tratamento antirretroviral** no país.

A política transformou o Brasil em referência internacional ao garantir tratamento gratuito para pessoas vivendo com HIV no Sistema Único de Saúde.

Posteriormente, entre 2000 e 2003, atuou como gerente do Programa de DST e Aids da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro, ampliando sua experiência na gestão pública da saúde.

Pesquisa e cooperação internacional

A carreira de Valdilea também é marcada pela participação em importantes redes internacionais de pesquisa e cooperação científica.

Ela foi consultora do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) e integrou o Scientific and Technical Treatment Advisory Committee (STAC), contribuindo para discussões estratégicas sobre tratamento e políticas globais relacionadas ao HIV.

Entre 2014 e 2016, atuou como pesquisadora visitante sênior da Fundação de Amparo à Pesquisa do Amazonas na Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado, em Manaus, fortalecendo pesquisas na região amazônica.

Hoje, segue à frente de importantes estudos clínicos. Ela é pesquisadora principal do projeto **ImPrEP**, iniciativa de implementação da profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP) na América Latina que reúne instituições do Brasil, México e Peru.

Também participa da pesquisa HPTN 095, que investiga respostas imunológicas e virológicas em participantes infectados pelo HIV durante estudos clínicos, contribuindo para ampliar o conhecimento científico sobre a infecção e novas estratégias de prevenção.

Reconhecimento e impacto

O trabalho de Valdilea Veloso recebeu diversos reconhecimentos ao longo da carreira. Em 2024, ela foi nomeada Professora Extraordinária Honorária da Universidad Peruana Cayetano Heredia, no Peru.

Entre outras homenagens, recebeu também o prêmio de Aplausos, Louvor e Reconhecimento pelos Relevantes Serviços Prestados à População do Estado do Rio de Janeiro, concedido pela Câmara Legislativa fluminense, além da Medalha Comemorativa da IV Jornada Científica da Fiocruz pelos 70 anos do Hospital Evandro Chagas.

Seu impacto também foi destacado em estudo da Agência Bori que identificou pesquisadores brasileiros cujos trabalhos influenciam documentos estratégicos utilizados por governos, organismos internacionais e organizações da sociedade civil. Na lista, Valdilea aparece na 51ª posição entre os cientistas brasileiros mais citados em relatórios e pareceres que orientam políticas públicas.

Ciência a serviço da vida

Ao longo de quase quarenta anos, Valdilea Veloso ajudou a construir parte fundamental da resposta brasileira ao HIV — da formulação de políticas públicas à produção científica que orienta decisões de saúde.

Sua trajetória mostra como a combinação entre pesquisa, gestão e compromisso social pode transformar a maneira como países enfrentam epidemias.

No Mês da Mulher, sua história reafirma o papel essencial das mulheres na construção da ciência e das políticas que salvam vidas.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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