Mês da Mulher: Dra. Beatriz Grinsztejn, da pesquisa no Brasil à liderança global na resposta ao HIV/aids

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No cenário internacional da luta contra o HIV/aids, poucos nomes brasileiros alcançaram tanta projeção científica e política quanto o de Beatriz Grinsztejn. Médica infectologista, pesquisadora e defensora histórica da ampliação do acesso à prevenção e ao tratamento, ela assumiu em 2024 a presidência da International Aids Society (IAS), a maior associação mundial de profissionais que atuam na resposta ao HIV.

A eleição marcou não apenas um reconhecimento internacional de sua trajetória de mais de três décadas dedicadas à epidemia, mas também destacou o protagonismo da ciência brasileira no enfrentamento do vírus.

Uma trajetória construída na ciência e no SUS

Formada em medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em 1985, Grinsztejn iniciou sua carreira em um momento crítico da epidemia de HIV, quando ainda havia poucas opções terapêuticas e muito estigma. A partir dali, construiu uma carreira profundamente ligada à pesquisa clínica e à saúde pública.

Hoje, ela é chefe do Laboratório de Pesquisa Clínica em IST e HIV/Aids do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), cargo que ocupa desde 1999. O instituto integra a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), uma das principais instituições científicas da América Latina.

Seu doutorado, concluído em 2001 na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), já apontava para uma linha de pesquisa que se tornaria central em sua carreira: a interseção entre HIV, outras infecções sexualmente transmissíveis e desigualdades de gênero. A tese investigou a prevalência de ISTs e fatores de risco para infecção pelo HPV em mulheres vivendo com HIV no Rio de Janeiro.

Desde 2005, Grinsztejn também atua como docente no Programa de Pós-Graduação em Pesquisa Clínica em Doenças Infecciosas do INI-Fiocruz, contribuindo para formar novas gerações de pesquisadores.

Contribuições decisivas para a prevenção

Com mais de 300 publicações científicas, a pesquisadora teve papel central em estudos que mudaram a forma como o mundo pensa a prevenção do HIV.

Ela foi investigadora principal do estudo PrEP Brasil, pesquisa que avaliou a implementação da profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP) no país. Os resultados ajudaram a embasar a decisão do Ministério da Saúde de incorporar a estratégia no Sistema Único de Saúde (SUS), transformando o Brasil em uma das primeiras nações a oferecer a prevenção de forma pública e gratuita.

Grinsztejn também liderou o estudo PrEParadas, o primeiro projeto de demonstração de PrEP no Brasil voltado especificamente para mulheres trans — população historicamente excluída de pesquisas clínicas e das políticas de saúde.

Outro marco foi sua atuação como co-presidente do estudo HPTN 083, ensaio internacional que avaliou o uso do cabotegravir injetável como estratégia de PrEP para homens que fazem sexo com homens e mulheres trans. O estudo demonstrou que a estratégia injetável pode ser mais eficaz do que a PrEP oral em determinadas populações, abrindo caminho para novas ferramentas de prevenção.

Redes globais de pesquisa

Dra. Beatriz Grinnsztejn, Fiocruz

A atuação de Grinsztejn vai muito além do Brasil. Ela desempenha funções técnicas e de liderança em algumas das principais redes científicas do mundo dedicadas ao HIV.

Entre elas estão o National Institute of Allergy and Infectious Diseases (NIAID), a HIV Prevention Trials Network (HPTN), o AIDS Clinical Trials Group (ACTG) e a HIV Vaccine Trials Network (HVTN).

Também participa de iniciativas internacionais como a Covid-19 Prevention Network (CoVPN), a Caribbean, Central and South America Network for HIV Epidemiology (CCASAnet) e a Canadian HIV Trials Network, além de colaborar com o Kirby Institute, da Austrália, e o grupo de modelagem econômica Cost-Effectiveness of Preventing AIDS Complications (CEPAC).

Essa atuação em redes internacionais permite que pesquisas conduzidas no Brasil tenham impacto global — e que evidências produzidas no exterior também cheguem rapidamente ao país.

Ciência com compromisso social

Além da produção científica, Grinsztejn também se destaca pela defesa de uma resposta ao HIV baseada em direitos humanos e inclusão.

Ela dirige a primeira clínica de saúde transexual estabelecida no Rio de Janeiro, que oferece cuidados integrados e serviços de prevenção do HIV com abordagem afirmativa de gênero. A iniciativa é considerada um marco no atendimento de pessoas trans no sistema de saúde brasileiro.

Ao longo da carreira, a médica tem defendido que a resposta à epidemia precisa enfrentar desigualdades estruturais — incluindo gênero, pobreza, racismo e estigma.

Uma liderança global brasileira

Ao assumir a presidência da International Aids Society, Grinsztejn passou a liderar uma organização que reúne milhares de pesquisadores, profissionais de saúde e ativistas de todo o mundo.

A IAS é responsável por organizar alguns dos mais importantes encontros científicos globais sobre HIV, como a International Aids Conference e a IAS Conference on HIV Science, além de influenciar agendas de pesquisa, financiamento e políticas públicas.

Sua eleição simboliza o reconhecimento internacional da contribuição da ciência brasileira para o enfrentamento da epidemia — e também reforça o papel das mulheres na liderança da resposta global ao HIV.

No mês em que se celebram as conquistas femininas, a trajetória de Beatriz Grinsztejn mostra como ciência, compromisso social e liderança podem caminhar juntos. Em um mundo que ainda enfrenta mais de um milhão de novas infecções por HIV todos os anos, seu trabalho continua ajudando a construir caminhos para controlar a epidemia e ampliar o acesso à prevenção e ao tratamento.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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