A história da resposta brasileira ao HIV/aids também é feita por mulheres que transformaram a ciência e a saúde pública em ferramentas de justiça social. Entre elas está Adele Benzaken, médica e pesquisadora amazonense que, ao longo de mais de quatro décadas, ajudou a construir políticas públicas, ampliar o acesso ao diagnóstico e fortalecer estratégias de prevenção que impactaram não apenas o Brasil, mas também o cenário internacional de enfrentamento das infecções sexualmente transmissíveis.
Da Amazônia aos espaços globais de formulação de políticas de saúde, Benzaken construiu uma trajetória marcada pelo compromisso com populações historicamente invisibilizadas e pela defesa de uma resposta ao HIV baseada em ciência, direitos humanos e acesso universal à saúde.
Atualmente diretora médica do programa global da Aids Healthcare Foundation (AHF), sua carreira reúne pesquisa científica, atuação clínica e gestão pública, consolidando-a como uma das vozes mais respeitadas da saúde pública brasileira no campo das ISTs e do HIV/Aids.
Raízes amazônicas e compromisso com a saúde pública
Formada em Medicina pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) em 1978, Adele Benzaken iniciou sua trajetória profissional no campo das doenças infecciosas, desenvolvendo uma carreira profundamente conectada aos desafios da saúde pública na região amazônica.
Seu doutorado em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz) investigou a detecção da sífilis adquirida em comunidades de difícil acesso da Amazônia, destacando as dificuldades enfrentadas por populações que vivem longe dos grandes centros urbanos e dos serviços laboratoriais. A pesquisa contribuiu para fortalecer o debate sobre o uso de testes rápidos como estratégia para ampliar o diagnóstico e reduzir barreiras de acesso à saúde.
Entre 2007 e 2010, Benzaken também dirigiu a Fundação de Dermatologia Tropical e Venereologia Alfredo da Matta, em Manaus, instituição histórica no estudo e tratamento de doenças infecciosas na região e referência nacional no campo das infecções sexualmente transmissíveis.
Liderança na resposta brasileira ao HIV
Entre 2016 e 2019, Benzaken assumiu a direção do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, HIV/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, cargo estratégico para a formulação de políticas públicas no enfrentamento da epidemia no país.
Durante sua gestão, o Brasil avançou na ampliação da testagem para HIV, na expansão do acesso à profilaxia pré-exposição (PrEP) e na redução de casos de transmissão vertical. O período também foi marcado pelo fortalecimento das estratégias de prevenção combinada e pela ampliação do diálogo com populações-chave mais afetadas pela epidemia.
Em 2019, Benzaken foi exonerada do cargo após a divulgação de uma cartilha de prevenção voltada a homens trans, intitulada “Homens Trans: vamos falar sobre prevenção de infecções sexualmente transmissíveis?”. O episódio teve repercussão nacional e internacional e foi interpretado por especialistas e organizações da sociedade civil como um sinal das tensões políticas envolvendo políticas de prevenção baseadas em evidências científicas e na garantia de direitos.
Contribuição para a resposta global
Além de sua atuação no Brasil, Adele Benzaken também desempenhou um papel relevante em organismos internacionais ligados à saúde pública.
Ela integrou o comitê de especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS), participou do comitê de certificação para eliminação da sífilis e do HIV da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e atuou como diretora regional para a América Latina da International Union Against Sexually Transmitted Infections (IUSTI). Também foi membro da diretoria da International Society for Sexually Transmitted Diseases Research (ISSTDR).
Nesses espaços, contribuiu para a formulação de estratégias globais de controle das ISTs e para o fortalecimento da cooperação internacional em saúde, levando a experiência brasileira para o debate internacional sobre prevenção, diagnóstico e acesso ao cuidado.
Reconhecimento e legado
Ao longo de sua trajetória, Benzaken recebeu diversos reconhecimentos por sua contribuição à ciência e à saúde pública. Entre eles está a Ordem Nacional do Mérito Científico, uma das mais importantes honrarias concedidas a pesquisadores no Brasil.
A medalha foi entregue em 2023 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pela ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação Luciana Santos. A homenagem havia sido negada anteriormente durante o governo de Jair Bolsonaro, em 2021.
Benzaken também foi a primeira amazonense a receber o Prêmio Cláudia, concedido pela Editora Abril a mulheres que se destacam em diferentes áreas de atuação.
Ciência, direitos e transformação social
Com uma carreira construída entre a pesquisa científica, a gestão pública e a defesa do direito à saúde, Adele Benzaken permanece como uma das vozes mais influentes da resposta ao HIV/Aids no Brasil e no cenário internacional.
Seu trabalho ajudou a fortalecer políticas de prevenção, ampliar o acesso ao diagnóstico e consolidar o Brasil como uma referência global no enfrentamento da epidemia.
Mais do que uma pesquisadora, Benzaken representa uma tradição da saúde pública brasileira que entende a ciência como instrumento de transformação social. Uma trajetória que reafirma um dos princípios centrais do Sistema Único de Saúde: o conhecimento científico só cumpre seu papel quando chega a quem mais precisa.
Redação da Agência de Notícias da Aids




