Em um mundo onde a epidemia de HIV/aids ainda revela — de forma contundente — as desigualdades sociais, econômicas e de acesso à saúde, a resposta global depende cada vez mais de lideranças capazes de articular política, ciência e justiça social.
Nesse cenário, duas mulheres ocupam posições centrais nessa construção: Winnie Byanyima, diretora executiva do Unaids, e Andrea Lilian Boccardi Vidarte, representante da agência no Brasil.
De escalas diferentes — uma global, outra nacional — suas trajetórias se encontram em um ponto comum: a defesa do direito à saúde como princípio inegociável.
Winnie Byanyima: desigualdade no centro da resposta global ao HIV

À frente do Unaids e como subsecretária-geral das Nações Unidas, Winnie Byanyima lidera os esforços internacionais para acabar com a epidemia de aids até 2030.
Sua atuação, no entanto, vai além das metas sanitárias. Ao longo de sua trajetória, consolidou uma visão que reposiciona o HIV não apenas como uma questão de saúde, mas como expressão direta das desigualdades estruturais.
Engenheira de formação — com estudos na University of Manchester e na Cranfield University —, Byanyima construiu uma carreira que transita entre política, desenvolvimento e direitos humanos.
Foi parlamentar em Uganda por três mandatos e teve papel decisivo na inclusão de avanços em igualdade de gênero na Constituição pós-conflito de 1995. Também liderou a criação da Diretoria de Gênero e Desenvolvimento da União Africana e ocupou posições estratégicas no United Nations Development Programme.
Antes de assumir o Unaids, esteve à frente da Oxfam International, onde aprofundou sua atuação no combate às desigualdades econômicas globais.
Essa trajetória ajuda a explicar sua principal marca como liderança: a defesa de que não é possível acabar com a aids sem enfrentar desigualdades de renda, gênero e acesso a tecnologias de saúde.
Co-fundadora da People’s Medicines Alliance, Byanyima também tem sido uma das vozes mais contundentes na defesa do acesso equitativo a medicamentos — pauta central em um mundo ainda marcado por assimetrias profundas entre países.
Sua atuação em espaços como o World Economic Forum, conselhos globais e iniciativas ligadas ao G20 reforça essa agenda: saúde como direito, não como privilégio.
Andrea Boccardi: a resposta no território e o desafio das desigualdades no Brasil
Se no plano global a resposta passa por diretrizes e articulações internacionais, é no território que essas estratégias se materializam.
Desde 2024, Andrea Lilian Boccardi Vidarte assumiu a representação do Unaids no Brasil, trazendo consigo mais de duas décadas de experiência dentro da própria agência.
Médica formada pela Universidad de la Republica Oriental del Uruguay, com especialização em ginecologia e obstetrícia, Andrea iniciou sua trajetória no campo da saúde pública ainda nos anos 1990, atuando no Ministério da Defesa do Uruguai.
Sua chegada ao Unaids, em 2003, marcou o início de um percurso internacional voltado à resposta ao HIV em contextos complexos. Ao longo dos anos, ocupou funções estratégicas na América Latina e no Caribe, incluindo áreas de segurança regional, resposta humanitária e intervenção estratégica.
Na sede da organização, em Genebra, aprofundou sua atuação em prevenção e apoio comunitário — áreas fundamentais para enfrentar o HIV para além da dimensão clínica.
Mais recentemente, liderou o escritório multipaís da região andina, coordenando ações em países como Colômbia, Bolívia, Peru e Equador. Nesse contexto, foi responsável por articular esforços de diferentes agências da ONU para reduzir desigualdades e ampliar o acesso à saúde para populações vulneráveis.
No Brasil, seu desafio dialoga diretamente com a complexidade do país: manter avanços históricos na resposta ao HIV, ao mesmo tempo em que enfrenta desigualdades persistentes que afetam, de forma desproporcional, populações-chave.
Sua atuação reforça uma dimensão essencial da resposta contemporânea: a centralidade das comunidades, da escuta e da construção de políticas que dialoguem com a realidade de quem vive com HIV.
Entre o global e o local: uma mesma agenda
As trajetórias de Winnie Byanyima e Andrea Boccardi se cruzam em uma mesma lógica de atuação: a compreensão de que o fim da epidemia de aids depende de muito mais do que medicamentos.
Depende de enfrentar desigualdades, garantir acesso, combater o estigma e construir políticas públicas que alcancem quem mais precisa.
De um lado, a articulação global que define caminhos, mobiliza recursos e pressiona por equidade. De outro, a implementação nos territórios, onde essas diretrizes ganham forma concreta na vida das pessoas.
No Mês da Mulher, reconhecer lideranças como Byanyima e Boccardi é reconhecer também a força de mulheres que atuam em diferentes níveis de decisão — e que têm sido fundamentais para sustentar a resposta global ao HIV.
São trajetórias que combinam técnica, política e compromisso social. E que reforçam uma mensagem central: acabar com a aids não é apenas um objetivo sanitário. É um projeto de justiça social.
Redação da Agência de Notícias da Aids




