
Há séculos são as mulheres negras quem sustentam grande parte da força de trabalho do país. No entanto, são elas quem mais sofre discriminação em todos os espaços, sempre atravessadas pelas múltiplas opressões. No SUS, se percebe essa resistência se traduzindo em conhecimento sobre saúde, contrariando a visão ocidental que separa medicina e saúde do cuidado.
As médicas Dra. Ana Elisa Xavier, Dra Jurema Werneck, a assistente social doutora em estudos feministas negros, Carla Akotirene, a enfermeira e pesquisadora Lucilene Freitas; e a deputada estadual, Carolina Iara, são exemplos de que as meninas e mulheres pretas podem chegar aonde quiserem. Seus saberes, trajetórias e lutas servem para nos inspirar a pensar sobre as desigualdades e combater as iniquidades que atravessam a vida, especialmente, de pessoas racializadas.
Dra Ana Elisa

Microbióloga e médica infectologista, Dra. Ana Elisa Santos é uma baiana que vem de um lar de origens humildes. Tem uma irmã gêmea e é filha de pais professores. Com grandes referências dentro de casa, isso lhe trouxe a certeza de que a educação realmente pode transformar a vida de uma pessoa e de toda uma família.
Embora seu avô materno fosse analfabeto e sua avó materna tivesse apenas o ensino fundamental incompleto, o incentivo deles ao estudo também foi um pilar, o que impulsionou mais ainda Ana a ingressar no curso de medicina, em um país onde apenas 1 em cada 5 brasileiros consegue chegar ao ensino superior.
Os aprendizados que recebeu e hoje compartilha não são apenas técnicos, mas também — e principalmente — lições de vida. É por isso que ela reconhece o valor de cada oportunidade que teve, sempre levando isto para sua prática profissional diária.
Dra Ana Elisa também seguiu o caminho da docência, pois compartilha conhecimentos sobre infectologia por meio da comunidade Papo Infectado, onde já formou mais de 180 alunos.
Graduada em Medicina pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (EBMSP), fez residência em Infectologia no Complexo Hospitalar Universitário Prof. Edgar Santos/ UFBa. É mestre em Microbiologia pelo Instituto de Microbiologia Paulo de Góes/ UFRJ e infectologista do Hospital Central da Polícia Militar (HCPM-RJ). Também professora e empreendedora Digital, já concluiu o mestrado e pretende seguir no doutorado.
Nas redes, tem se dedicado a divulgar conhecimento, compartilhando dicas de estudo e leitura, curiosidades da microbiologia, desmistificando casos médicos, promovendo debates, entre outros conteúdos, com o objetivo de tornar a comunicação sobre HIV/aids, infecções, saúde e ciência mais acessível.
Ela encara como uma missão transformar a medicina em um espaço menos racista e cada vez mais inclusivo para pessoas negras.
Inspirada por seu pai, em memória, que cursou Matemática, Psicologia e Teologia, sua vontade de ajudar o próximo se fortaleceu. Seu pai foi um dos fundadores da APAE de Cachoeira-BA e colaborava com projetos voluntários, deixando um legado de solidariedade.
Carolina Iara

Carolina Iara é uma ativista intersexo, travesti e política brasileira, que ganhou destaque como co-vereadora da cidade de São Paulo pelo mandato coletivo da Bancada Feminista do PSOL. Carol Iara é também uma defensora dos direitos das pessoas LGBTQIAPN+, além de atuar em pautas ligadas à saúde pública e HIV/aids.
Defensora do SUS, ela vive com HIV e é considerada a primeira parlamentar a falar abertamente sobre sua sorologia. Com um longo histórico de militância, Carolina Iara luta incansavelmente contra a sorofobia e a favor de políticas públicas que realmente atendam quem mais precisa, com equidade.
Com ela também vem uma história de resistência. Em 2021, foi vítima de um atentado a tiros em sua casa. O episódio evidenciou, mais uma vez, os riscos enfrentados por pessoas trans e ativistas políticos no Brasil, reforçando a urgência da luta por direitos humanos e segurança.
Atualmente, a política continua sua atuação na ALESP, sendo uma das vozes mais importantes dentro do movimento negro, trans, de luta contra a aids e intersexo no Brasil.

Carolina Iara também é uma pessoa de fé, adepta de religiões de matriz africana, e acredita que sua espiritualidade tem sido uma das principais forças para continuar se fortalecendo nas batalhas diárias. Carol nasceu na Zona Leste de São Paulo, vendo de perto as desigualdades que a periferia enfrenta todos os dias. A infância no bairro da Vila Matilde e a juventude na Fazenda da Juta, em Sapopemba, também na Zona Leste, marcaram seu início na militância em movimentos sociais e culturais.
Ela carrega consigo muitas revoluções. Em razão de sua trajetória, que se entrelaça com a luta pelos direitos humanos, a política institucional e a academia, não é exagero dizer que Carol é um símbolo de resistência. Seu ativismo é mais que discurso: é corpo, é enfrentamento e é construção coletiva.
Nos últimos anos, vem ocupando a cena política com força, mostrando que é possível transformar espaços historicamente hostis, possíveis e mais inclusivos para os seus.
Lucilene Freitas
Lucilene Freitas foi mais uma menina negra cheia de sonhos que veio a se tornar referência dentro da academia. Servidora pública da Fundação Oswaldo Cruz, é graduada em Enfermagem e Licenciatura pela Universidade Federal Fluminense (2002). Doutora pelo Programa de Pós graduação em Pesquisa Clínica em Doenças Infecciosas pelo INI-Fundação Oswaldo Cruz (2024), possui mestrado em Pesquisa Clínica em Doenças Infecciosas pelo INI-Fundação Oswaldo Cruz (2013).
Atualmente, Lucilene também é coordenadora de Pesquisa Clínica, onde atua na implementação de novos estudos e realiza o controle ético regulatorial dos estudos em andamento no Laboratório de Pesquisa Clínica em DST/Aids do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Fundação Oswaldo Cruz (INI/Fiocruz).

Está a frente de temas como prevenção Combinada ao HIV/aids, especialmente PrEP e PEP, co-infecções por Hepatites virais, protocolos de Covid-19 e Mpox.
A pesquisadora é preceptora dos Cursos de Residência Multiprofissional em Doenças Infecciosas e Parasitárias (INI/Fiocruz), além de orientadora credenciada para os Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC) do Programa de Pós-Graduação Lato sensu do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz) (2018) e membro da Câmara Técnica de Doenças Transmissíveis COREN-RJ (2023).

É ainda autora da pesquisa intitulada Intersecções de Iniquidades: Experiências de Discriminação e Barreiras Estruturais no Acesso à Prevenção ao HIV entre Minorias Sexuais e de Gênero Negras no Brasil.
Carla Akotirene
Com vasta experiência atendendo mulheres negras, Carla Akotirene presenciou de perto o adoecimento mental de profissionais de saúde, especialmente durante seu trabalho no SUS em meio a pandemia de Covid-19.
Mestra e doutoranda em Estudos sobre Mulheres, Gênero e Feminismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), ela também atua como assistente social no SUS em Salvador, sua cidade.
É Autora do livro Interseccionalidade, da coleção Feminismos Plurais, coordenada por Djamila Ribeiro, Akotirene lança um olhar interseccional às questões sociais.

Primeira mulher de sua família a chegar à universidade, enfrentou racismo dentro da academia e conta que não se vincula à luta feminista apenas por uma opção teórica, mas que conjuga o lado acadêmico com as vivências dos temas que estuda. Filha de pais semialfabetizados, menciona publicamente que não tem tradição intelectual na família. Carla ingressou na faculdade aos 24 anos, utilizando a nota do Enem.
A intelectual tem aprofundado os temas que propõe em diferentes encontros, debates e conferências, como quando apresentou Reparação histórica, desigualdades e a construção do comum, mote do aniversário de 70 anos da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz).
Além da produção acadêmica, ela atua em espaços de mobilização política e social, contribuindo para a formulação de políticas públicas voltadas, especialmente, para mulheres negras e periféricas. Sua abordagem crítica e afiada tem influenciado debates sobre feminismo negro, encarceramento em massa e a estrutura racista do Brasil.

Carla Akotirene luta contra a criminalização das mulheres negras, estuda o encarceramento como uma questão de saúde pública, aborda temas como saúde mental, violências obstétricas, saúde sexual e reprodutiva. Ela denuncia a falta de acompanhamento adequado enfrentado por mulheres negras no pré-natal, além da negligência do sistema prisional em lidar com doenças infecciosas, como tuberculose, HIV/aids e sífilis. A pesquisadora e militante também alerta sobre a ausência de insumos básicos de prevenção, como preservativos e absorventes, que agravam a vulnerabilidade dessas mulheres.
Jurema Werneck

Jurema Pinto Werneck é uma médica, ativista e uma das principais lideranças do movimento de mulheres negras no Brasil. Sua atuação, especialmente nas áreas de saúde e direitos humanos, é amplamente reconhecida. Fundadora da ONG Criola, Jurema também se destacou na Anistia Internacional, trazendo à tona questões relacionadas ao racismo, saúde e direitos da população negra, com ênfase no acesso à saúde, que considera um direito inegociável.
Formada em medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF), enfrentou desafios como a falta de apoio financeiro, o racismo e a morte precoce de sua mãe, vítima de negligência médica. No entanto, com o apoio da família, seguiu em frente, tornando-se referência no movimento social. Sua trajetória inclui a coordenação da 14ª Conferência Nacional de Saúde, atuação no Comitê Técnico de Saúde da População Negra e seu envolvimento com a ONU Mulheres.
Além de sua trajetória acadêmica, Jurema se destacou na militância defendendo políticas públicas que visem reduzir as desigualdades enfrentadas pelas mulheres negras, especialmente na saúde. Sua luta se intensificou durante a pandemia de Covid-19. Esteve intensamente defendendo a proteção das populações vulneráveis e alertando sobre a discriminação histórica que agrava a situação de saúde entre pretos e pardos.

A médica também ganhou notoriedade quando foi ouvida na CPI da Covid, no Senado, onde apresentou dados sobre como a pandemia afetou de maneira desigual a população negra, denunciando falhas nas políticas públicas de saúde.
Figura central na luta contra o racismo, é fonte de inspiração para outras mulheres e meninas pretas.
Redação da Agência de Notícias da Aids com informações


