Mês da Mulher: Carol Iara e Duda Salabert, vozes trans na política e na defesa dos direitos humanos

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A presença de mulheres na política brasileira ainda é um desafio histórico — e quando se trata de mulheres trans, negras ou vindas das periferias, o caminho costuma ser ainda mais difícil. Mesmo assim, novas lideranças têm surgido e ocupado espaços institucionais antes inacessíveis, trazendo para o debate público temas como direitos humanos, diversidade, saúde e justiça social.

Entre essas vozes estão Carol Iara, co-deputada da Bancada Feminista do PSOL na Assembleia Legislativa de São Paulo, e Duda Salabert, deputada federal por Minas Gerais. Em trajetórias diferentes, ambas representam uma geração de mulheres que transformaram experiências pessoais de resistência em ação política.

Carol Iara: da periferia ao Parlamento

Nascida e criada em Sapopemba, na zona leste de São Paulo, Carol Iara construiu sua trajetória a partir da periferia. Mulher negra, travesti, intersexo e trabalhadora da saúde, ela atuou no atendimento a vítimas de violência no Hospital Tatuapé antes de ingressar na política institucional.

Mestra em Ciências Humanas e Sociais pela Universidade Federal do ABC, Carol também é escritora e poeta. Sua atuação política está profundamente ligada à defesa da população LGBTQIA+, da periferia e das pessoas que vivem com HIV — experiência que também atravessa sua própria história.

Carol foi uma das integrantes da Bancada Feminista do PSOL, um projeto político coletivo que surgiu em São Paulo com a proposta de ampliar a presença das mulheres na política. Em 2022, o grupo foi eleito para a Assembleia Legislativa paulista com mais de 259 mil votos, tornando-se uma das candidaturas mais votadas do país.

Sua presença no Parlamento também carrega um significado simbólico para movimentos sociais e para a luta contra o estigma relacionado ao HIV. Em uma sessão solene na Assembleia Legislativa dedicada à resposta à epidemia, Carol destacou que sua própria vida está ligada à história do movimento de HIV/aids no Brasil.

“Quando recebi o diagnóstico de HIV, eu não sabia se iria viver muito”, afirmou na ocasião, relacionando sua trajetória à rede de solidariedade construída por ativistas e profissionais da saúde.

Duda Salabert: educação, política e direitos humanos

A trajetória de Duda Salabert também nasceu fora dos espaços tradicionais da política. Professora de literatura por mais de duas décadas, ela construiu sua carreira inicialmente na educação antes de se tornar uma das vozes mais conhecidas da política brasileira contemporânea.

Em 2018, tornou-se a primeira pessoa trans a disputar uma vaga no Senado no Brasil. Dois anos depois, foi eleita vereadora de Belo Horizonte com a maior votação da história da cidade. Em 2022, alcançou outro marco: tornou-se a deputada federal mais votada da história de Minas Gerais, com mais de 200 mil votos.

Além da política institucional, Duda também fundou a ONG Transvest, iniciativa voltada ao acolhimento e apoio social de travestis e pessoas trans em Belo Horizonte.

Sua atuação parlamentar reúne temas diversos, mas conectados por um eixo comum: direitos humanos e justiça social. Educação, combate à violência, proteção ambiental e inclusão social fazem parte das agendas que defende no Congresso Nacional.

Mulheres que transformam a política

Em comum, Carol Iara e Duda Salabert representam um movimento mais amplo de renovação da política brasileira, marcado pela presença de mulheres que trazem para o debate público experiências historicamente marginalizadas.

Suas trajetórias mostram que a política também pode nascer das periferias, das salas de aula, dos serviços de saúde e das lutas cotidianas por dignidade.

No Mês da Mulher, reconhecer histórias como as delas é também reconhecer que a democracia se fortalece quando novos rostos e novas vozes passam a ocupar os espaços de decisão — ampliando o debate público e trazendo para o centro temas que antes permaneciam à margem.

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