Mensagens de luta e fortalecimento rumo à cura do HIV e homenagem aos 20 anos da Agência Aids marcam a abertura do 10º Encontro do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, em São Paulo

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Com muita emoção e mensagens de reconhecimento e fortalecimento à luta de mulheres vivendo com HIV/aids no Brasil, o Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas (MNCP) abriu, na noite dessa quinta-feira (9), em São Paulo, seu 10º Encontro – “Juntas, Livres e Vivas: Rumo à Cura”. Empenhadas na reconstrução da política de aids no país e com um pacto de lutar pela cura do HIV, elas começaram o evento lembrando que é urgente a retomada do plano nacional de enfrentamento à feminização da aids. “No Brasil, morrem 4 mil mulheres em decorrência da aids todos os anos, sendo a maioria delas negras, pobres e periféricas. Nos queremos vivas, esse é o nosso alvo. Juntas, livres e vivas!”, disse a ativista e professora Nair Brito, uma das fundadoras do MNCP, ao destacar que mais de 350 mil mulheres cis vivem com HIV/aids no país.

Ao ler a mensagem de boas-vindas as participantes, Nair relembrou que a bandeira do MNCP é pelo direito à liberdade de existir e acessar direitos. “Organizadas desde 2003, lutamos juntas por esta e tantas outras bandeiras necessárias ao viver no Brasil, sendo mulher e vivendo com HIV/aids. Temos um nome, CPF, RG. Somos cidadãs e não um número nas estatísticas… Visibilizar o protagonismo das mulheres vivendo com HIV/aids na luta pelos nossos direitos é necessário, uma vez que a invisibilidade só reforça as desigualdades de gênero existente em nossa sociedade”, reforço, relembrando das Cidadãs que se foram por falta de atendimento médico, insegurança alimentar e preconceito.

Juntas somos mais fortes

“A conquista dos medicamentos para o tratamento do HIV/aids, que, em 1996, revolucionou a aids no Brasil, foi protagonizado por uma ativista do MNCP, Nair Brito. Temos também as Renatas, Fátimas, Marias, Joanas, Jenices, Fabianas… são tantas mulheres dando a cara tapa e ocupando instâncias de decisões, executando projetos… O tratamento é uma conquista, a produção e a distribuição de novas drogas ainda requerem o nosso advocacy, contudo, a cura é o principal alvo das nossas ações. Ela é possível e real. Sobrevivemos a um vírus, aos descasos, aos medos, as dores, as perdas, à invisibilidade, mas sabemos que a arte de viver com ou sem o vírus da aids no Brasil é um ato de coragem. Nada vai conter a nossa crença de que juntas somos mais fortes, a liberdade é um direito a vida um presente valioso.”

Além dela, mulheres representantes do MNCP em todas as regiões do país aproveitaram a mesa de abertura para relembrar a história e a importância deste movimento na luta contra aids. “Temos aqui mulheres de todos os cantos do Brasil e poderíamos ter muito mais. Então, fica o nosso repúdio aos gestores que não apoiaram a vinda de tantas ativistas e que esqueceram qual é o papel deles. Não há política de aids sem nós, pessoas vivendo com HIV e aids”, disse Jenice Pizão, Secretário Nacional de Articulação Política do MNCP.

Na mesma linha, Fabiana Oliveira, representante do MNCP na região Sudeste, afirmou: “estamos vivas, tentaram invisibilizar o movimento aids, mas estamos aqui.”

Emocionada e com um tom de sensação de dever cumprido, Silvia Aloia, responsável pela mobilização de recursos no MNCP, lembrou das dificuldades que o coletivo enfrentou para realizar o encontro. “Era um momento muito esperado por nós. Eventos como este fortalecem cada vez mais o nosso movimento. Somos mulheres plurais e queremos estar juntas para construir e reconstruir políticas públicas.”

Solenidade

Diferentes representantes da luta contra aids no Brasil, além de apoiadores, agências da ONU e representantes do governo participaram da abertura.

Da Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids, a maranhense Katiana Rodrigues, disse que os jovens querem continuar somando na luta contra aids. “Vivo com HIV a minha vida inteira e quero estar junto com vocês fazendo a coisa acontecer.” Da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids (RNP+Brasil), Vanessa Campos, destacou que a RNP+ também é lugar de mulheres com HIV. “Vivo com HIV há mais de 30 anos, essa é a minha primeira vez em um encontro das Cidadãs. Espero que o MNCP continue sendo essa fortaleza.”

Do Fórum de ONGs/Aids de São Paulo, Margarete Preto, comemorou a luta das mulheres contra a aids. “Sabemos o quanto temos lutado para estar aqui, vivas. Ainda temos que conquistar muitas coisas, não podemos nos esquecer que o tratamento tem salvado as nossas vidas, mas nossos ossos estão enfraquecidos e nossos corpos modificados.”

Aranai Garabyra, da Opas, Daniela Florio, do Unfpa, Renata Souza, do Conselho Nacional de Saúde, Amália Fischer, do Fundo Elas e Thainá Mamede, do Fundo Brasil de Direitos Humanos também estiveram na abertura. “Seguimos acreditando e apoiando iniciativas no campo da saúde, pois sabemos que juntos seremos mais fortes”, disse Anarai. “A Unfpa trabalha muito com adolescentes e jovens e defendemos a garantia dos direitos sexuais e reprodutivos de pessoas que vivem com HIV”, acrescentou Daniela.

A emoção também ficou evidente na fala da ativista Renata Souza. Representando o presidente do Conselho Nacional de Saúde, Fernando Pigatto, ela relembrou a importante luta do controle social em defesa do SUS e da política de aids. “Neste momento, estou representando o Conselho de Saúde na Conitec.”

Gestão

Representantes dos governos municipal, estadual e federal reafirmaram no evento a importância da sociedade civil na construção da política nacional de aids.

A médica sanitarista Maria Clara Gianna, do Departamento de HIV, Aids, Tuberlose, Hepatites Virais e ISTs, do Ministério da Saúde, destacou que nos últimos anos ficou claro o processo de invisibilização da resposta governamental à aids, principalmente entre pessoas pobres, pretas, pardas e periféricas. “A aids sumiu nos últimos anos, o laço vermelho e as campanhas desapareceram. Agora, estamos no momento de reconstrução, inclusive da política intersetorial, com a retomada de espaços de participação da sociedade civil, de incorporação de novos medicamentos, com a publicação e atualização dos protocolos clínicos. Quando a gente está junto da sociedade civil, nos sentimos mais fortes.”

“Em São Paulo, não conseguimos pensar a política de aids sem a presença da sociedade civil. Claro que temos problemas e há muito o que ser feito, mas trabalhar junto ao movimento de aids diminui a nossa carga nas costas. Vocês nos trazem novas ideias e desafios a todo instante”, disse o farmacêutico Alexandre Gonçalves, coordenador do Programa Estadual de IST/Aids de São Paulo.

Ao dar as boas-vindas, o gestor assegurou que São Paulo está no caminho para eliminar a aids como problema de saúde pública até 2030.

Assim como Alexandre, Marcus Blum, da Coordenadora Municipal de IST/Aids de São Paulo, disse que seria impossível ter tantos avanços nesta luta sem a presença da sociedade civil. “Eliminamos a transmissão vertical do HIV na cidade, com muito trabalho e controle social.”

Homenagem aos 20 anos da Agência Aids

Em reconhecimento a luta pessoal da jornalista Roseli Tardelli, que perdeu seu irmão em decorrência da aids, e ao trabalho que ela criou e vem desenvolvendo na luta contra aids há mais duas décadas, as Cidadãs homenagearam a Agência de Notícias da Aids, que completou 20 anos em maio de 2023. Confira:

O encontro segue até domingo (12), com a participação de quase 100 mulheres vivendo com HIV e aids vinculadas ao MNCP em todo o Brasil.

Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)

 

Dica de entrevista

MNCP

Site: www.mncp.org.br

E-mail: secretarianacionalmncp@gmail.com

Instagram: @mncp_brasil

Apoios