“Menos comprimidos significam mais pessoas concluindo o tratamento”: terapias de longa duração e pesquisas de cura redesenham o futuro da resposta ao HIV

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Sessão da AIDS 2026 mostra que ciência já projeta um cenário em que viver com HIV poderá significar menos comprimidos, menos estigma e, para alguns, até a possibilidade de controle da infecção sem antirretrovirais — mas especialistas alertam que o maior desafio continua sendo garantir acesso global às inovações.

O futuro do tratamento do HIV já não cabe mais em um comprimido diário. Na sessão “Além dos comprimidos: o futuro das terapias curativas e de longa duração”, realizada durante a AIDS 2026, pesquisadores apresentaram um panorama das tecnologias que prometem transformar o cuidado das pessoas vivendo com HIV: antirretrovirais de longa duração, medicamentos injetáveis para tuberculose, anticorpos capazes de manter o vírus sob controle sem terapia contínua e os avanços rumo à cura funcional da hepatite B.

A mensagem foi clara desde a abertura: a ciência vive uma mudança de paradigma. O desafio agora não é apenas desenvolver tratamentos mais eficazes, mas construir sistemas capazes de garantir que essas inovações cheguem às populações que mais precisam delas.

O co-moderador Dr. Adam Ward, da Weill Cornell Medicine, resumiu o dilema que atravessou toda a discussão ao propor três perguntas ao público: para quem essas inovações estão sendo desenvolvidas, em quais condições elas funcionarão no mundo real e como garantir que as comunidades participem das decisões que moldarão esse futuro. Segundo ele, o sucesso dessas tecnologias será medido não apenas pelos resultados dos ensaios clínicos, mas pela capacidade de serem acessíveis, aceitáveis e sustentáveis.

Terapias de longa duração: uma revolução que ainda não chegou a todos

A infectologista Dra. Monica Gandhi, da Universidade da Califórnia em San Francisco (UCSF), lembrou que o HIV já conta com três décadas de tratamentos altamente eficazes, mas que a supressão viral global continua distante do ideal.

De acordo com a infectologista, fatores como estigma, insegurança habitacional, uso de substâncias e problemas de saúde mental tornam extremamente difícil a adesão ao tratamento diário para milhões de pessoas.

“As terapias de longa duração existem justamente para enfrentar esse problema”, destacou.

Dra. Gandhi apresentou resultados de estudos clínicos e da experiência da clínica Ward 86, em San Francisco, mostrando que antirretrovirais injetáveis conseguiram manter altas taxas de supressão viral inclusive entre pessoas que apresentavam dificuldades históricas de adesão e até mesmo entre pacientes que iniciaram o tratamento com carga viral detectável. Ela ressaltou que as diretrizes norte-americanas já recomendam essa estratégia também para pessoas com viremia, por representar uma alternativa capaz de salvar vidas.

Ao relembrar a história da terapia antirretroviral, Dra. Gandhi fez um paralelo com o início dos anos 2000, quando os medicamentos estavam restritos aos países ricos.

“Estamos vivendo novamente esse momento”, afirmou, destacando que as terapias de longa duração permanecem inacessíveis para grande parte dos países de baixa e média renda, cinco anos após sua aprovação.

Ela encerrou sua apresentação classificando a ampliação do acesso como um novo chamado ao ativismo internacional, defendendo que governos, indústria farmacêutica e sociedade civil atuem para evitar que a inovação amplie ainda mais as desigualdades no enfrentamento do HIV.

Tuberculose: uma única injeção pode mudar o tratamento

Na sequência, Dr. Marco Vitoria, da Organização Mundial da Saúde (OMS), apresentou o cenário das formulações de longa duração para tuberculose.

Hoje, lembrou o especialista, a prevenção e o tratamento da doença dependem da ingestão diária de comprimidos durante meses. A proposta dos medicamentos de longa duração é substituir esse modelo por aplicações capazes de manter níveis terapêuticos por períodos prolongados.

Segundo Dr. Marco Vitoria, os medicamentos de longa duração têm potencial para transformar a resposta à tuberculose. “Menos doses e menor carga de comprimidos significam que mais pessoas conseguem concluir o tratamento. Isso reduz a transmissão, diminui o risco de surgimento de resistência aos medicamentos e torna os serviços de saúde mais escaláveis e sustentáveis”, afirmou.

O especialista ressaltou, no entanto, que a ciência ainda está nos primeiros passos. Atualmente, apenas um candidato chegou aos estudos clínicos: a bedaquilina de longa duração, que concluiu a fase 1 e está sendo desenvolvida para a prevenção da tuberculose. Outros candidatos permanecem em estágios pré-clínicos, e um dos principais desafios é desenvolver esquemas de longa duração que combinem vários medicamentos com farmacocinética sincronizada, condição essencial para o tratamento eficaz da doença.

Dr. Vitoria explicou ainda que a OMS não pretende esperar a conclusão dos estudos para começar a discutir a implementação dessas tecnologias. “Estamos definindo os perfis-alvo de saúde pública antes que esses produtos cheguem ao mercado. O objetivo é moldar os medicamentos antes que seu desenvolvimento esteja consolidado, e não depois”, afirmou. Segundo ele, esses perfis estabelecerão critérios relacionados à eficácia, segurança, forma de administração, custo, aceitabilidade e viabilidade de implementação, para garantir que as futuras terapias atendam às necessidades da saúde pública mundial.

Cura do HIV: anticorpos oferecem esperança, mas ainda enfrentam obstáculos

A terceira apresentação trouxe um dos temas mais aguardados da sessão: a busca pela cura do HIV.

Dr. Thumbi Ndung’u, do Africa Health Research Institute, defendeu que, embora os antirretrovirais atuais sejam extremamente eficazes, ainda é necessário desenvolver alternativas capazes de permitir controle duradouro da infecção sem tratamento contínuo.

Segundo o especialista, em regiões como KwaZulu-Natal, na África do Sul, onde até 60% das mulheres entre 25 e 44 anos vivem com HIV, é difícil imaginar que milhões de pessoas permaneçam em tratamento pelo resto da vida. Estigma, possíveis efeitos de décadas de terapia, dificuldades no abastecimento de medicamentos e a necessidade de oferecer diferentes opções terapêuticas reforçam a importância da pesquisa por estratégias curativas.

Dr. Thumbi Ndung’u apresentou resultados de um estudo que combinou anticorpos amplamente neutralizantes (bNAbs) com um agonista do receptor Toll-like 7 em mulheres diagnosticadas precocemente e tratadas logo após a infecção pelo HIV. Segundo o pesquisador, embora os antirretrovirais de longa duração representem um enorme avanço, ainda é fundamental desenvolver alternativas que permitam o controle do vírus sem tratamento contínuo. “Será muito difícil competir com os excelentes antirretrovirais que temos hoje, inclusive os de longa duração. No entanto, haverá pessoas que poderão precisar de anticorpos amplamente neutralizantes para alcançar um controle do HIV livre de antirretrovirais por um longo período”, afirmou.

Os resultados mostraram que 20% das participantes alcançaram controle duradouro do HIV sem terapia antirretroviral, enquanto outros grupos apresentaram diferentes padrões de rebote viral, indicando que ainda existem mecanismos biológicos que precisam ser melhor compreendidos. Para Dr. Ndung’u, os anticorpos representam uma estratégia promissora para o controle prolongado do HIV, especialmente entre crianças, adolescentes e populações com alta prevalência da infecção. “Estamos fazendo progressos em direção ao controle do HIV sem antirretrovirais, mas ainda precisamos aperfeiçoar esses anticorpos e os sistemas de administração para otimizar essa abordagem”, concluiu.

Para o pesquisador, os anticorpos representam uma estratégia promissora para alcançar controle prolongado sem antirretrovirais, especialmente entre crianças, adolescentes e populações com alta prevalência de HIV. Contudo, ele reconheceu que ainda existem desafios importantes relacionados à duração do efeito, aos sistemas de administração e ao desenvolvimento de anticorpos mais potentes.

Hepatite B: a cura funcional deixa de ser um sonho distante

Encerrando as apresentações, Dr. Arthur Kim, do Massachusetts General Hospital, afirmou que a cura funcional da hepatite B está deixando de ser apenas uma hipótese científica para se tornar um objetivo terapêutico real.

Ele lembrou que mais de cinco vezes mais pessoas vivem com hepatite B crônica do que com HIV no mundo e que cerca de 7% a 8% das pessoas vivendo com HIV também apresentam coinfecção pelo vírus da hepatite B, especialmente na África Subsaariana e em partes da Ásia. “Temos bons tratamentos antivirais, mas ainda não temos uma cura. A maioria dos pacientes precisa de terapia por toda a vida e, mesmo com a supressão viral, o risco de câncer de fígado continua existindo. Por isso, precisamos de uma cura para a hepatite B”, afirmou.

Dr. Kim destacou ainda que a busca por uma cura funcional ganha importância adicional para as pessoas que vivem com HIV e hepatite B. “Uma cura funcional reduziria o risco de câncer hepático, eliminaria parte do estigma associado à infecção e permitiria a transição para esquemas antirretrovirais que dispensam o tenofovir. Por isso, é fundamental que as pessoas vivendo com HIV e hepatite B sejam intencionalmente incluídas nos estudos de cura”, ressaltou.

Entre as estratégias em desenvolvimento estão antivirais capazes de agir em diferentes etapas do ciclo viral, terapias imunológicas e técnicas de edição genética direcionadas ao reservatório viral.

Um dos resultados mais animadores apresentados foi o de um estudo com o oligonucleotídeo antissenso bepirovirsen, que alcançou taxas próximas de 20% de cura funcional, um resultado inexistente no grupo placebo.

Embora ainda distante da cura definitiva observada para a hepatite C, o pesquisador avaliou que o avanço representa uma mudança histórica no campo da hepatite B e reforçou a necessidade de incluir intencionalmente pessoas vivendo com HIV e hepatite B nos ensaios clínicos das novas terapias.

Ciência avança; acesso continua sendo o maior desafio

Durante o debate, especialistas e participantes reforçaram que as terapias de longa duração não substituirão completamente os comprimidos diários. O cenário mais provável será um modelo híbrido, no qual diferentes opções estarão disponíveis conforme as necessidades de cada pessoa.

Também houve consenso de que o principal obstáculo não é mais apenas científico, mas político e econômico. Questões como custo, disponibilidade, infraestrutura, resistência aos medicamentos e equidade de acesso determinarão quem poderá realmente se beneficiar dessa nova geração de tratamentos.

Ao final da sessão, ficou evidente que o futuro da resposta ao HIV está sendo redesenhado. A pergunta que permanece aberta não é apenas quando essas tecnologias estarão disponíveis, mas para quem elas estarão disponíveis. Afinal, como lembraram os palestrantes, uma inovação só transforma vidas quando consegue chegar a todas as pessoas que dela necessitam.

Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)

Estagiária em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.

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