Tratamento nas UBSs A ideia de começar a atender alguns casos de HIV e aids nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) é uma proposta do Ministério da Saúde por meio do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais. Segundo a pasta, pacientes com HIV assintomáticos poderiam ser atendidos nas unidades mais próximas das suas residências, diminuindo assim a demanda dos Serviços de Atenção Especializada (SAE), que passariam a dar prioridade aos casos mais complexas. No entanto, vários representantes das pessoas vivendo com HIV e aids criticam esta iniciativa, temendo uma queda na qualidade do atendimento. |
22/01/2015 – 16h
A incerteza sobre o futuro do atendimento às pessoas que vivem com HIV e aids em São Paulo está entre as principais preocupações de ativistas que lutam contra a doença no município. A proposta federal de expandir o tratamento antirretroviral às unidades básicas de saúde preocupa militantes ouvidos pela Agência de Notícias da Aids, que temem o fim dos serviços especializados na cidade. Eles criticam o atendimento na atenção básica, a escassez de profissionais da saúde e a falta de campanhas preventivas focadas nas populações mais vulneráveis.
Leia a seguir o que alguns dos principais ativistas com atuação em São Paulo consideram como desafios para a resposta à aids no município:
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Américo Nunes, coordenador do Movimento Paulistano de Luta contra a Aids (Mopaids): O que mais me preocupa é o atendimento nas unidades básicas de saúde, que não é bom. Se, de fato, pacientes com HIV passarem a ser atendidos na atenção básica ocorrerá uma grande queda na qualidade da assistência. Precisamos, primeiro, qualificar esses serviços, pensando na humanização do atendimento e na contratação de profissionais qualificados, para depois pensar na transferência de alguns pacientes com HIV. Como seria o sigilo na atenção básica em relação às pessoas infectadas? Isto também é preocupante, pois as pessoas passariam a ser atendidas mais próximas das suas casas. Também vejo na cidade problemas na área da prevenção. Faltam informações à população, como sobre as novas estratégias de prevenção e sobre a importância do diagnóstico precoce do vírus.
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Mário Scheffer, integrante do Grupo Pela Vidda de São Paulo e professor da Faculdade de Medicina da USP: Há uma omissão de sucessivas gestões do Programa Municipal diante das evidências do ressurgimento da epidemia e da elevadíssima prevalência do HIV entre homossexuais masculinos na capital. A insistência em ações pontuais ultrapassadas e de baixo alcance é uma das causas dessa tragédia consentida de saúde pública na cidade.
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Nair Brito, integrante do Movimento Nacional das Cidadãs PositHIVas: Existe uma insegurança sobre como ficará o atendimento das pessoas com HIV e aids na cidade. Não sabemos se São Paulo adotará ou não o atendimento na atenção básica, que ainda não tem uma boa qualidade. Vivemos com medo de que haja um desmonte. Não sou contra o atendimento nas unidades básicas, mas temos de ter a segurança que as pessoas serão atendidas no mínimo como são hoje nos serviços especializados.

Margarete Preto, gestora da ONG Bem Me Quer: Muitos dos serviços de saúde da cidade estão sucateados. Faltam médicos, enfermeiros e estrutura para atender os pacientes. Recebemos sempre reclamações dos usuários. Sem profissionais de saúde, várias ações são afetadas. Às vezes há propostas para se fazer alguma ação de aconselhamento e testagem, por exemplo, mas não há profissional capacitado para participar da ação. Outro ponto que me preocupa é a sustentabilidade das ONGs. Muitas delas já fecharam ou estão prestes a fechar as portas.

Áurea Abbade, presidente do Grupo de Apoio à Prevenção à Aids (GAPA) de São Paulo: Ainda há muitos problemas na atenção básica à saúde. Faltam profissionais , medicamentos para doenças oportunistas e até antirretrovirais em alguns postos. Ouvimos sempre reclamações sobre isso, além de outros problemas sociais que também são bem graves na cidade, como a segurança pública.

Rodrigo Pinheiro, presidente do Fórum de ONG/Aids do estado de São Paulo: Minha maior preocupação é com o fechamento de serviços especializados. Os casos de HIV aumentam na cidade e não conseguimos responder às novas demandas. Não vejo progressos neste sentido, assim como na área da prevenção. A política de prevenção voltada às populações vulneráveis ainda é muito falha no município.

Lucas Soler, diretor-executivo da Phoenix Webtv, do Instituto Espaço Saúde; e integrante da RNP+ do Estado de São Paulo: O trabalho da Secretaria de Educação é péssimo. É um problema grave a falta de compromisso desse órgâo com o tema aids. A má vontade de abraçar o assunto atinge desde o professor até os gestores. Acontece por questões absurdas, como a religiosidade. A secretaria ergueu um muro entre os estudantes e a aids que está difícil transpor.

Claudio Pereira, presidente do Grupo de Incentivo à Vida (GIV): O maior problema da cidade, hoje, é a prevenção. Temos inúmeras dificuldades nesta área, especialmente entre as populações mais vulneráveis. De maneira geral, a prevenção não funciona. Recebemos muitas denúncias na área da assistência, como falta de leitos, de médicos. Mesmo assim, nem se compara com as falhas da prevenção, que precisa melhorar urgentemente.
Redação da Agência de Notícias da Aids



