
A eliminação de doenças determinadas socialmente se tornou um objetivo central para os países das Américas, com progressos significativos, mas também com desafios a serem superados até 2030. Durante uma recente palestra promovida pela Organização Panamericana de Saúde (OPAS) no 59º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (Medtrop 2024), a dra. Martha Saboya, epidemiologista e assessora regional da Iniciativa de Eliminação, apresentou um panorama atual dos esforços conjuntos na região.
De acordo com a especialista, as Américas possuem uma “longa história” de sucesso na erradicação de doenças transmissíveis. Desde o início do século XX, a região conseguiu eliminar enfermidades preveníveis por vacinação, como sarampo, rubéola e tétano neonatal. Mais recentemente, houve avanços na eliminação de doenças negligenciadas, como filariose linfática, oncocercose e raiva humana transmitida por cães. Esses resultados positivos refletem a capacidade da região de utilizar as ferramentas científicas e tecnológicas disponíveis para alcançar suas metas.
A Dra. Saboiya enfatizou a importância de uma abordagem intersetorial que priorize as populações vulneráveis. “Fazemos um chamado para que os países considerem esses componentes sistemáticos na eliminação de enfermidades, abordando as populações ao longo do curso da vida e enfocando temas transversais como os direitos humanos e a igualdade de gênero”, destacou.
Entre as doenças com potencial de eliminação até 2030, a especialista mencionou o câncer cervical, associado ao vírus do papiloma humano (HPV), e outras enfermidades infecciosas como Chagas, esquistossomose e hanseníase. Além disso, ela ressaltou os avanços nas infecções sexualmente transmissíveis, como HIV e sífilis, especialmente no que diz respeito à transmissão mãe-filho em várias partes da América Latina.
Apesar dos avanços, a dra. Saboya destacou que existem grandes desafios, especialmente em áreas de alta vulnerabilidade. “É crucial manter as intervenções para evitar que essas doenças ressurjam e se reintroduzam nos países”, afirmou. Ela também sublinhou a importância de focar nos determinantes sociais e ambientais que perpetuam essas enfermidades, com especial atenção às desigualdades locais e às mudanças climáticas, que afetam diretamente a distribuição das doenças.

Além disso, a especialista apontou como as condições de moradia e saneamento impactam a proliferação de doenças negligenciadas. “Se não enfrentarmos problemas como o saneamento inadequado, as más condições habitacionais e a falta de acesso a cuidados de saúde de qualidade, será muito difícil alcançar uma eliminação sustentável dessas doenças.”
Nesse contexto, ela enfatizou a importância do papel das comunidades locais e da implementação de políticas públicas que atendam às suas necessidades. “A implementação em nível local requer uma liderança eficaz dos governos locais e, acima de tudo, a capacidade de responder às necessidades e contextos específicos das populações, o que será fundamental para acelerar a eliminação de muitas dessas enfermidades”, concluiu.
A Dra. Saboya ressaltou que a força de trabalho na saúde é um componente crucial para o sucesso das iniciativas de eliminação de doenças. “Precisamos garantir que os profissionais de saúde, especialmente aqueles em áreas remotas e vulneráveis, tenham o treinamento e os recursos necessários para identificar e tratar essas enfermidades, assegurando a eficácia dos programas de eliminação”, destacou.
O Brasil tem se destacado nesse contexto, lançando em 2024 o Programa “Brasil Saudável”, voltado para a eliminação de múltiplas doenças. Esse esforço foi seguido por outros países, como El Salvador e Colômbia, que também desenvolveram estratégias nacionais robustas. A OPAS tem colaborado com esses governos para traçar roteiros que aceleram a eliminação, promovendo a integração de esforços em níveis nacional e subnacional.
A especialista mencionou ainda que a colaboração entre países é essencial para enfrentar problemas comuns, como a malária na região amazônica e a oncocercose na fronteira entre Brasil e Venezuela. Essas questões impactam diretamente o progresso das metas de eliminação. “A cooperação transfronteiriça é fundamental para controlar doenças que não conhecem fronteiras, como a malária. Países como Brasil, Peru e Bolívia têm trabalhado em conjunto para enfrentar surtos de maneira coordenada, o que tem sido eficaz na redução da transmissão.”
Ela também enfatizou a importância dos grupos de pacientes, que desempenham um papel vital em campanhas de conscientização, educação e mobilização social. Sua participação é essencial para garantir que as estratégias de eliminação sejam efetivas e sustentáveis.
Quanto ao futuro, apresentou uma visão otimista, prevendo que vários países da América Latina estejam próximos de eliminar doenças significativas até 2030. “Esse é o panorama que vislumbramos para a eliminação de enfermidades até 2030”, afirmou. Entre as doenças com maior potencial de erradicação, destacou o HIV, a sífilis, a raiva humana e a hepatite viral, todas na mira dos programas de saúde pública.
Com uma abordagem integrada e o apoio de plataformas como os fundos estratégicos e rotatórios da OPAS, que facilitam o acesso a tecnologias e medicamentos a preços acessíveis, a especialista acredita que a região possui diversas ferramentas para avançar. No entanto, ela enfatizou que o sucesso depende do comprometimento contínuo dos governos, da academia e das comunidades, trabalhando em conjunto para enfrentar as desigualdades e acelerar os esforços rumo à eliminação.
Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
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