
Em busca de consolidar conquistas e enfrentar os desafios persistentes na luta contra o HIV/aids, médicos, gestores, pesquisadores e educadores compartilham suas expectativas para 2025. Com atuações que abrangem prevenção, redução do estigma e melhoria da qualidade de vida das pessoas vivendo com HIV/aids, eles reforçam a importância de priorizar ações intersetoriais, inovação tecnológica e o fortalecimento do SUS. Confira as perspectivas de especialistas que continuam dedicados a transformar a realidade da epidemia no Brasil.

Dra Rosa Alencar, diretora adjunta do CRT DST/Aids: “O ano de 2024 foi mais um ano desafiador. Fortalecer o trabalho intersetorial, em especial com a Secretaria de desenvolvimento social, ampliar as ofertas de testagem e da PrEP por meio da identificação e implantação de estratégias inovadoras nos territórios em todo o estado foi crítico para avançar na prevenção de novas infecções pelo HIV.
Outro importante desafio foi manter as equipes de multiplicadores de capacitação de TR mobilizadas e atuantes para enfrentar a necessidade de capacitar os profissionais de toda a rede de saúde envolvendo as unidades básicas e especializadas frente a rotatividade dos profissionais e a necessidade de preparação para a campanha fique sabendo. É importante destacar que todo esse esforço resultou numa conquista inédita a “17ª edição da Campanha Fique Sabendo teve 100% da adesão dos municípios”.
Um destaque para dois momentos especiais desse ano, a cerimônia de certificação no “Programa de Certificação de Boas Práticas em IST/HIV/Aids de municípios com serviços ambulatoriais para PVHA” em 26/06/2024 – Dos 169 serviços elegíveis que fizeram adesão, foram premiados 160 municípios, sendo: 12 municípios Ouro; 66 municípios Prata; 55 municípios Bronze; 27 municípios a melhorar avançaram, mas não atingiram pontuação para premiação, enquanto na avaliação inicial no final de 2022 eram 1 prata, 29 bronze e 130 a melhorar mostrando o impacto positivo que as ações desenvolvidas no programa tiveram. Outro destaque foi a entrega do prêmio “Luiza Matida” para 294 municípios que alcançaram indicadores rumo a eliminação da TV de HIV e Sífilis Congênita, sendo 35 para HIV e Sífilis, 59 HIV e 200 para Sífilis. Na certificação Nacional foram 21 municípios certificados na concessão de selos de Boas Práticas ou para eliminação da TV HIV e Sífilis Congênita.
Para 2025 devemos intensificar esforços para ampliação da PrEP com foco na diversificação das modalidades como teleatendimento e ações extramuros e a expansão estratégica aliando mapeamento das populações vulnerabilizadas e envolvimento de serviços da AB.
Ampliação da implantação do circuito rápido para aids avançada e das atividades de “monitoramento e melhoria da qualidade dos serviços que prestam assistência ambulatorial a pessoas vivendo com HIV e/ou aids.”
Implementar a atenção para PVHA 50+ e construir diretrizes estaduais em parceria com o movimento social e outras parcerias com os equipamentos de saúde e intersetores são atividades de destaque para 2025.
O enfrentamento ao estigma, preconceito e discriminação se constitui numa pauta contínua para os programas de IST/Aids. Nesse sentido a ampliação dos serviços de saúde integral para pessoas trans e travestis e o lançamento de um EAD para formação de profissionais na promoção dos direitos Humanos e qualificação do cuidado em saúde LGBT+ são ações entre outras que vão acontecer em 2025.
Continuar reduzindo novas infecções, enfrentar estigma e discriminação, proteger direitos, avançar na garantia de qualidade de vida das PVHA, ampliar a comunicação/informação para prevenção das IST e do HIV e a redução contínua da mortalidade por aids são compromissos do Programa Estadual de IST/Aids para 2025.”

Cristina Abbate, coordenadora da Coordenadoria de IST/Aids de SP: “O ano de 2024 foi marcado por inovações importantes, como a expansão do acesso aos serviços especializados em HIV/Aids por meio do projeto “PrEP na Rua” e o lançamento das máquinas automáticas de entrega de métodos de prevenção ao HIV, uma iniciativa inédita na saúde pública. Com um histórico de iniciativas semelhantes, como a Estação Prevenção e o canal SPrEP, que colocam a prevenção no cotidiano das pessoas, o resultado é que o número de novas infecções por HIV caiu 55% nos últimos 7 anos e 22% de 2022 para 2023.
Além das máquinas automáticas, que já contam com mais de 1.200 retiradas, foi neste ano que a Estação Prevenção ultrapassou a marca de 16 mil atendimentos e o canal SPrEP ultrapassou 2,5 milhões de acessos. Em 2024, uma pessoa diagnosticada com HIV inicia seu tratamento de forma imediata, motivo pelo qual 92% das mais de 55 mil pessoas em Terapia Antirretroviral (TARV) na Rede Municipal Especializada em IST/Aids estão indetectáveis (ou seja, não transmitem o HIV por via sexual).
Também neste ano, a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo deu sequência ao apoio, por meio da Coordenadoria de IST/Aids, a coletivos culturais e ONGs que atuam na prevenção combinada, na ampliação do acesso à informação e na redução do estigma por meio de Editais de Seleção Pública. Essa parceria com a sociedade civil é fundamental para continuar derrubando barreiras de forma descentralizada.
Com isso, o ano está se encerrando com avanços fundamentais para o caminho que a capital tem trilhado em busca de eliminar a epidemia de HIV como um agravo de saúde pública.”

Paola Alves, pesquisadora e coordenadora da Educação Comunitária da Casa da Pesquisa CRT DST/Aids: “Sou pesquisadora, que atualmente realiza, em fase final, uma tese de doutorado no IP, na USP, onde a pesquisa produzida se dedica ao campo teórico produzido sobre as transexualidades e travestilidades. Essa tese é orientada por analíticas pós-estruturais francesas, pela interseccionalidade brasileira, o feminismo, o transfeminismo e o feminismo negro. Assim como pelo trabalho educativo na educação comunitária da Casa de Pesquisa, no CRT, abordando a permanência em estudos clínicos de mulheres trans, homens trans, pessoas transmasculinas, travestis e pessoas não-binárias. Esse trabalho envolve uma analítica educativa para manter boas práticas e garantir a segurança das pessoas trans nos espaços de estudo clínico. Digo tudo isso para situar minha mensagem sobre o combate à epidemia de HIV/aids em 2025. Não podemos deixar de nos implicar profundamente com o mundo que habitamos, com o desejo de mudar as coisas. É fundamental não naturalizar as estatísticas, sejam elas qualitativas ou quantitativas. Por exemplo, o boletim que indica que São Paulo reduziu novas infecções por HIV em 55% em sete anos. Precisamos comemorar, porque isso reflete o esforço de uma coletividade de profissionais comprometidos.
Ainda assim, não podemos perder de vista as análises mencionadas, que são essenciais para seguirmos em frente nessa luta. É vital que, nessa marcha civilizatória de acessos, sejam incluídas travestis, mulheres trans, pessoas cis e trans racializadas, que continuam profundamente afetadas pela epidemia de HIV e aids.
Durante as palestras que realizei e assisti este ano, assim como nos artigos que publiquei e li, não encontrei análises que apontassem um cenário significativamente melhor. Isso reforça a necessidade de elaborarmos nossa indignação com as ferramentas analíticas que já possuímos e com aquelas desenvolvidas por outras pesquisadoras.
Precisamos entender e valorizar o que a comunidade diz, pois ela pode ser a chave para salvar populações de difícil acesso. Mesmo com tantas tecnologias farmacêuticas disponíveis, essas populações ainda não conseguem acessá-las. Devemos olhar para os estudos e dados já existentes, como os mapeamentos realizados na Baixada Santista, no estado de São Paulo e em nível nacional. Esses dados nos permitem formular análises conjunturais que orientem nossas ações.
É fundamental que a indignação deixe de ser percebida como algo apenas pessoal e seja vista como parte de um esforço coletivo. Temos que combater, de uma vez por todas, o estigma, para que as populações que mais precisam tenham acesso a todas as tecnologias disponíveis. Para isso, precisamos utilizar as ferramentas que já foram e continuam sendo desenvolvidas. Essa é a minha mensagem para 2025.

Dra Ana Elisa, criadora de conteúdo digital, médica infectologista e microbióloga: “Eu tenho criado conteúdo para as redes sociais e acabou que nesse mês de dezembro eu fiz muito conteúdo sobre HIV, por conta do dezembro vermelho e tal. Quando eu falo redes sociais nem tanto Instagram, porque sendo bem sério eu não estou fazendo tanto lá porque cansei de Instagram, mas fazendo mais no TikTok e YouTube. E eu tenho percebido que há ainda muita desinformação em relação a HIV, pessoas perguntando coisas assim básicas, como perguntas se HIV se passa por xixi. Eu vejo também muito medo de. Então eu estou contextualizando isso porque, para 2025, na luta contra aids, eu acredito que a gente precisa fortalecer a informação, divulgar mais, acho que a gente precisa fortalecer campanhas de prevenção do HIV e de conhecimento mesmo. Acho que o Ministério da Saúde, nesse novo governo, tem feito um trabalho interessante nas redes sociais, mas acho que a gente precisa ampliar mais. Então, parcerias com influenciadores, com pessoas que realmente chegam na casa do público, com emissoras, etc. Acho que a gente precisa estar trazendo mais essa informação, desmistificando muita coisa e divulgando também. Sobre prevenção, fortalecer o que já temos acesso no SUS, como a PrEP, como a PEP, para além da camisinha. Acho que é principalmente fortalecer a informação e a prevenção, e garantir que isso tudo chegue à população. São coisas teoricamente óbvias e básicas, mas que eu percebi que para muita gente ainda não é.”

Dr Fábio Mesquita, médico epidemiologista, professor da UNIFESP ex-diretor do DATHI: “ O que nós esperamos para o ano de 2025 é que a aids volte a ser prioridade na pauta do governo federal e também da sociedade civil, que consigamos manter uma mobilização intensa para que a gente possa impactar, sobretudo o crescimento de novos casos, uma vez que com medidas que foram tomadas anos atrás, sobretudo o tratamento como prevenção, extensão da PEP, PrEP, a gente tem conseguido diminuir a mortalidade. No entanto, precisamos retomar, sem dúvida nenhuma, a aids como pauta prioritária na saúde do país. Além disso, nós precisamos incorporar inovações. Não faz sentido que não se tenha PrEP injetável, que a gente não tenha tratamento injetável, que a gente não tenha medicamentos novos, que hoje estão sendo incorporados em outros países do mundo, que eles não sejam incorporados no Brasil. Isso tem que estar como uma prioridade importante na pauta também do próximo ano. Ademais, acabamos de sair de um seminário internacional de redução de danos e precisamos colocar de novo uma prioridade grande na pauta de redução de danos como uma das estratégias fundamentais na prevenção combinada, sobretudo com o crescimento do sexo químico no Brasil em vários lugares. Então, essas medidas são fundamentais para que a gente possa melhorar muito em 2025 aquilo que historicamente se fez, mas que precisa fazer mais. A gente não pode se conformar com as conquistas até o momento, e a gente tem que realmente lutar para conquistar mais, ir mais longe, impactar a epidemia de HIV/aids, de uma forma que a gente cumpra as metas do desenvolvimento sustentável para 2030.”

Dr Maiky Prata, médico infectologista no CRT DST/Aids e do Ambulatório Trans de Diadema: “2024 é um ano para ser comemorado: Os indicadores de saúde apresentam uma tendência de redução na taxa de novos casos de HIV, fruto de esforços contínuos na implementação e distribuição da profilaxia do HIV (PrEP). Além disso, novas tecnologias estão sendo incorporadas ao SUS para tratamento, como o fostemsavir, um medicamento indicado para o tratamento de casos de multirresistência viral, oferecendo mais opções terapêuticas para pessoas que enfrentam dificuldades com tratamentos tradicionais. Outro grande avanço foi a aprovação do cabotegravir pela ANVISA, que oferece uma opção de prevenção do HIV por meio de uma injeção bimenstrall. Destaca-se também os resultados promissores do estudo do lenacapavir, de fase 3, que evidenciou-se como um medicamento injetável para profilaxia pré-exposição (PrEP) com administração a cada seis meses. Embora muitas foram as conquistas, para 2025 ainda temos muitos desafios, principalmente no que se refere a equidade. Travestis, transexuais, pessoas negras, indígenas e moradores de periferias enfrentam barreiras significativas no acesso à saúde e cuidados adequados. Para essas populações, é necessário um modelo de gestão de cuidado que seja resolutivo, integrado e que promova uma relação estreita entre assistência e sociedade civil.”

Dra Claudia Mello, médica infectologista no Hospital Emílio Ribas: “Espero para 2025 que a PrEP fique mais acessível para população periférica e negra. Espero que haja investimentos e fortalecimento do papel do estado no SUS e que não ocorra a terceirização do Emílio Ribas, um hospital chave para prevenção e tratamento do HIV e da aids.”
Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)



