Em carta publicada na revista científica BJSTD, o médico e professor Mauro Romero Leal Passos revisita a trajetória da vacinação contra o HPV no país, relembra a campanha que ajudou a impulsionar a incorporação do imunizante ao SUS e defende mudanças nas regras de acesso e a substituição da vacina quadrivalente pela nonavalente.
Treze anos após o início da vacinação contra o Papilomavírus Humano (HPV) no Brasil, o médico, professor e pesquisador Mauro Romero Leal Passos publicou uma carta-manifesto em que faz um balanço dos avanços conquistados no país e lança um novo apelo às autoridades de saúde: ampliar o acesso à vacinação para grupos vulneráveis e substituir a vacina quadrivalente (HPV4v) pela nonavalente (HPV9v) no Sistema Único de Saúde (SUS).
O texto, intitulado “Vacinas contra o Papilomavírus Humano (HPV): 13 anos depois”, foi publicado como carta do editor na revista científica DST – Jornal Brasileiro de Doenças Sexualmente Transmissíveis e reúne memórias pessoais, evidências científicas recentes e argumentos de saúde pública para defender uma atualização da política nacional de imunização contra o HPV.
Passos relembra que, quando as primeiras vacinas contra o HPV chegaram ao mercado brasileiro em 2012, a comunicação era concentrada quase exclusivamente na prevenção do câncer do colo do útero. Como especialista em infecções sexualmente transmissíveis e com ampla experiência no atendimento de pacientes com verrugas anogenitais, ele afirma ter enxergado desde o início um potencial mais amplo para a vacinação.
Segundo o autor, a defesa da vacinação universal ultrapassou a prescrição individual e se transformou em uma mobilização pública. Em 2013, ele participou da organização da chamada “Marcha da Vacina”, realizada na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, em defesa da incorporação do imunizante ao SUS. O movimento ganhou repercussão nacional e internacional e antecedeu a decisão do Ministério da Saúde de incluir a vacina quadrivalente contra o HPV no calendário público de vacinação, em novembro daquele ano.
Avanços reconhecidos, mas com lacunas
Na avaliação de Passos, a ampliação gradual dos grupos elegíveis à vacinação ao longo da última década representa um avanço importante da política pública. Atualmente, o SUS oferece a vacina para meninos e meninas de 9 a 14 anos, além de grupos específicos considerados mais vulneráveis.
Apesar disso, o pesquisador argumenta que persistem desigualdades que precisam ser corrigidas. Um dos principais pontos levantados na carta é o limite etário de 45 anos imposto para alguns grupos de maior risco, como pessoas vivendo com HIV, usuários de profilaxia pré-exposição (PrEP), pacientes oncológicos e transplantados.
Segundo ele, a regra gera situações consideradas incoerentes: enquanto pessoas com determinadas condições clínicas podem receber a vacina independentemente da idade, indivíduos vivendo com HIV ou utilizando PrEP perdem o direito à imunização ao completarem 46 anos.
Para sustentar sua argumentação, o autor cita estudos recentes realizados com populações brasileiras. Um deles encontrou elevada prevalência de HPV oral entre homens vivendo com HIV na América Latina, incluindo brasileiros, enquanto outro identificou taxas expressivas de infecção por HPV em mulheres cisgênero vivendo com HIV, inclusive entre aquelas com mais de 46 anos. Os resultados, segundo Passos, demonstram que o risco permanece significativo após a faixa etária atualmente contemplada pelo SUS.
Propostas de mudança
Na carta, o médico defende a eliminação do limite máximo de idade para vacinação em grupos considerados vulneráveis. Entre eles estão pessoas vivendo com HIV, usuários de PrEP, pacientes em tratamento de câncer, transplantados, profissionais do sexo e indivíduos com infecções ou alterações celulares associadas ao HPV.
O documento também propõe que pessoas com HPV de alto risco identificado em qualquer região anatômica e pacientes com alterações celulares precursoras de câncer possam ser incluídos entre os grupos prioritários para vacinação.
Outro ponto central da manifestação é a defesa da substituição da vacina quadrivalente pela nonavalente no SUS. Enquanto a versão atualmente utilizada protege contra quatro tipos do vírus, a HPV9v amplia a cobertura para nove variantes, incluindo tipos oncogênicos associados ao desenvolvimento de diferentes tipos de câncer.
Para Passos, a adoção da vacina mais abrangente reduziria a carga de doenças relacionadas ao HPV e contribuiria para diminuir desigualdades de acesso, uma vez que a HPV9v já está disponível na rede privada, mas não integra o calendário público.
O peso dos números
Ao final da carta, o pesquisador recorre a indicadores epidemiológicos para dimensionar os impactos da infecção pelo HPV no Brasil. Dados citados por ele apontam que, em 2024, cerca de 7.500 mulheres morreram em decorrência do câncer do colo do útero no país, o equivalente a mais de 20 mortes por dia.
O texto também chama atenção para o câncer de pênis, igualmente associado ao HPV. Segundo os números apresentados, o Brasil registra centenas de amputações penianas por ano em decorrência da doença, além de centenas de mortes anuais relacionadas ao câncer.
“Não se trata de estatísticas abstratas. São vidas e mutilações evitáveis”, afirma o autor ao defender mudanças na política de vacinação.
Um manifesto por uma nova etapa da vacinação
Embora reconheça os avanços alcançados desde 2013, Mauro Romero Leal Passos sustenta que o atual modelo de vacinação contra o HPV ainda deixa desprotegidas populações identificáveis de alto risco. Em sua avaliação, as evidências científicas, os argumentos éticos e os potenciais ganhos econômicos já justificam uma nova atualização da política pública.
A carta termina com um chamado à mobilização de gestores, sociedades científicas e organizações da sociedade civil para ampliar a proteção contra o HPV no Brasil. Treze anos após a incorporação da vacina ao SUS, o médico afirma que o desafio agora é garantir que a evolução da política de imunização acompanhe o avanço do conhecimento científico e alcance quem ainda permanece fora da cobertura vacinal.
Redação da Agência de Notícias da Aids




