Medicina, ciência e prevenção para enfrentar desafios da saúde – por Ludhmila Hajjar

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A ciência que aprovou a vacina da dengue é a mesma que agora a protege; A suspensão da produção do imunizante da Butantan faz parte dos mecanismos da ciência em ação

Na última segunda-feira, o Ministério da Saúde e a Anvisa anunciaram a suspensão temporária da Butantan-DV, a vacina brasileira de dose única contra a dengue, após 42 eventos adversos raros em cerca de 501 mil doses aplicadas. A manchete soou como derrota para muitos. É o contrário: a pausa é a prova de que o sistema que cuida da saúde do brasileiro está funcionando, e não muda o fato de que estamos diante de uma das vacinas mais notáveis já desenvolvidas no país.

Vale relembrar o que a ciência demonstrou sobre ela. A Butantan-DV nasceu de um ensaio clínico de fase 3 com 16.235 voluntários de 2 a 59 anos, em 14 estados, acompanhados por cinco anos, um dos maiores estudos de vacina já conduzidos em solo brasileiro. Os resultados foram publicados nas revistas científicas mais respeitadas do mundo, como o New England Journal of Medicine e a Nature. Não se trata de promessa de bula, mas de evidência de alto nível, escrutinada pela comunidade internacional.

E os números de proteção impressionam. Onde mais importa, nas formas graves da doença, aquelas que matam, a vacina foi quase um escudo. Ao longo dos cinco anos, não houve um único caso de dengue grave entre os vacinados, contra registros consistentes no grupo placebo. A eficácia contra quadros graves e com sinais de alarme se manteve em torno de 80%, e a proteção contra hospitalizações foi total: nenhuma internação no grupo que recebeu o imunizante. Para uma doença que lotou hospitais e levou milhares de brasileiros à morte em 2024, isso é extraordinário.

Há um detalhe que distingue a Butantan-DV de outras vacinas contra a dengue: ela protege independentemente de a pessoa já ter tido a doença antes. Imunizantes anteriores eram indicados preferencialmente a quem já havia sido infectado, o que limitava muito seu uso. A vacina brasileira funcionou tanto em quem já tinha anticorpos (proteção em torno de 77%) quanto em quem nunca teve contato com o vírus (cerca de 59%), com o mesmo perfil de segurança nos dois grupos. É uma vantagem real, de saúde pública, que amplia quem pode ser protegido.

Soma-se a isso o fato de ser a primeira vacina de dose única contra a dengue no mundo, fruto de tecnologia 100% nacional. Dose única significa logística mais simples, maior adesão e proteção mais rápida da população; algo que muda o jogo num país de dimensões continentais.

Nada disso desaparece por causa de uma investigação. Pelo contrário: os 42 eventos, que são cerca de 0,008% das doses, só vieram à tona porque existe um monitoramento ativo e permanente sobre tudo o que é aplicado no SUS. A farmacovigilância é o sistema nervoso da vacinação: registra, cruza dados e dispara alertas. Quando um sinal aparece, comitês independentes são acionados para investigar se há, de fato, relação causal. Foi exatamente o que aconteceu. Há dois óbitos em apuração, sem causalidade comprovada até o momento, e cada um merece rigor absoluto.

Confiar na ciência não é confiar cegamente. É confiar no método: testar, monitorar, revisar, corrigir. Uma autoridade sanitária que jamais suspendesse nada seria muito mais assustadora do que uma que pausa diante de uma dúvida. A transparência da Anvisa, do Instituto Butantan e do Ministério, ao comunicar abertamente os casos em vez de escondê-los, é o oposto do obscurantismo que alimenta o movimento antivacina, e que já tenta transformar a pausa em pânico.

A dengue segue real: foram 6,5 milhões de casos prováveis em 2024. O Brasil precisa dessa vacina, e tudo indica que voltaremos a usá-la assim que a investigação se concluir. Até lá, o melhor que podemos fazer é confiar não em slogans, mas no processo. A mesma ciência que produziu números tão sólidos é a que agora, com cautela, os verifica. Essa pausa não enfraquece a vacina. Ela mostra exatamente por que podemos confiar nela.

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