Mesa no Encontro Brasileiro de Organizações de Paradas LGBT+ destacou potencial revolucionário do lenacapavir, mas alertou para barreiras comerciais e desafios para garantir acesso universal pelo SUS
A chegada de medicamentos injetáveis de longa duração para prevenção do HIV pode representar uma das maiores transformações na resposta à epidemia desde a introdução dos antirretrovirais. Mas para especialistas, ativistas e representantes do movimento LGBT+, o sucesso dessa inovação dependerá menos da ciência e mais da capacidade de garantir acesso universal e equitativo à tecnologia.
O tema foi debatido durante a mesa “Acesso a medicamentos injetáveis de longa duração”, realizada no dia 5 de junho, durante o Encontro Brasileiro de Organizações de Paradas LGBT+, reunindo Gustavo Passos, oficial de Igualdade e Direitos do UNAIDS Brasil; Susana van der Ploeg, coordenadora de projetos da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA); e Thiago Coacci, assessor parlamentar da deputada federal Duda Salabert.
A discussão integrou os debates sobre prevenção combinada, enfrentamento ao estigma e fortalecimento das políticas públicas de HIV/aids, reforçando o papel das Paradas LGBT+ como espaços estratégicos de mobilização social, promoção da saúde e defesa de direitos.
Um medicamento com potencial histórico

Durante sua apresentação, Gustavo Passos explicou que o lenacapavir é um medicamento de longa duração capaz de oferecer proteção contra o HIV com apenas duas aplicações por ano. “O lenacapavir é um medicamento que, com duas doses anuais, oferece uma proteção de praticamente 100% contra o HIV”, destacou.
Segundo Gustavo, a nova tecnologia pode ajudar a superar barreiras enfrentadas por muitas pessoas para aderir à PrEP oral diária, ampliando as possibilidades da prevenção combinada.
Gustavo lembrou que, apesar dos avanços alcançados pelo Brasil na ampliação da PrEP, ainda existem obstáculos importantes relacionados à informação, ao acesso e ao estigma.
Dados apresentados pelo representante do UNAIDS mostram que mais da metade das pessoas entre 18 e 19 anos entrevistadas durante a Feira da Diversidade da Parada de São Paulo nunca haviam ouvido falar sobre PrEP. Ao mesmo tempo, pesquisas recentes indicam que muitas pessoas trans deixam de procurar serviços de saúde por medo de sofrer discriminação.
“Ter uma opção de longa duração significa reduzir barreiras para quem enfrenta dificuldades de acesso aos serviços de saúde ou não consegue manter uma rotina diária de medicação”, afirmou.
O desafio das patentes

Se por um lado a eficácia do medicamento gera entusiasmo, por outro o debate evidenciou uma preocupação central: o preço. A advogada Susana van der Ploeg destacou que o principal obstáculo para o acesso ao lenacapavir não é tecnológico, mas comercial.
De acordo com Susana, o medicamento está protegido por patentes que garantem exclusividade à fabricante e impedem a produção de versões genéricas mais baratas.
“O acesso à medicação é um direito. Quando um medicamento essencial à vida está sob monopólio, quem passa a decidir quem terá acesso não é mais o governo, mas uma empresa privada”, afirmou.
Susana lembrou que o Brasil participou dos estudos clínicos que ajudaram a comprovar a eficácia do lenacapavir, mas ficou de fora dos acordos internacionais que permitem a fabricação de versões genéricas do medicamento em outros países.
A representante da ABIA também alertou para o impacto que os monopólios farmacêuticos exercem sobre o orçamento público, reduzindo recursos que poderiam ser destinados a outras ações de prevenção, assistência e fortalecimento do SUS.
“Os medicamentos existem. O que mata é a negligência, o abandono e a exclusão das populações mais vulnerabilizadas”, ressaltou.
Acesso para quem mais precisa

Para Thiago Coacci, o potencial transformador do lenacapavir está justamente na possibilidade de alcançar populações que atualmente enfrentam maiores dificuldades para aderir à prevenção.
Ele citou como exemplo pessoas LGBT+ em situação de rua, privadas de liberdade ou que enfrentam condições sociais que dificultam o uso diário da PrEP oral.
“Para muitas pessoas, manter um comprimido diário não é uma tarefa simples. O lenacapavir pode mudar a realidade da prevenção para populações que ainda não estamos conseguindo alcançar”, afirmou.
Segundo o assessor parlamentar, o mandato da deputada Duda Salabert acompanha há mais de dois anos as negociações relacionadas ao medicamento, dialogando com o Ministério da Saúde, a indústria farmacêutica e instituições públicas de pesquisa.
Entre as iniciativas em andamento está um projeto de lei que declara interesse público sobre o medicamento, abrindo caminho para medidas que possam ampliar o acesso caso as negociações comerciais não avancem.
HIV segue sendo pauta urgente
Além do debate sobre o lenacapavir, a mesa também trouxe reflexões sobre o lugar do HIV na agenda política do movimento LGBT+.
Participantes destacaram que, apesar dos avanços conquistados ao longo das últimas décadas, a epidemia continua afetando de forma desproporcional populações LGBT+, especialmente jovens, pessoas trans e pessoas negras.
Representantes de organizações de Paradas LGBT+ presentes no encontro defenderam que a pauta do HIV volte a ocupar posição central nas mobilizações do movimento, reforçando ações de prevenção, testagem, combate ao estigma e defesa do SUS.
Para Gustavo Passos, as organizações de Paradas possuem um papel estratégico nesse processo por sua enorme capacidade de mobilização e diálogo direto com as populações mais impactadas pela epidemia.
“Vocês alcançam justamente as pessoas que serão beneficiadas por essas novas tecnologias. Por isso, a participação das Paradas nessa luta é fundamental”, afirmou.
Paradas como espaços de cidadania e saúde
Ao final do debate, os participantes reforçaram que a prevenção ao HIV não pode ser reduzida apenas à distribuição de medicamentos. O fortalecimento das políticas públicas, o combate à discriminação, o acolhimento nos serviços de saúde e a garantia de direitos seguem sendo elementos centrais para o enfrentamento da epidemia.
Em um momento marcado por retrocessos em diferentes partes do mundo e pelo avanço de discursos conservadores, os palestrantes defenderam que as Paradas LGBT+ continuem atuando como espaços de resistência, educação comunitária e defesa da vida.
As Paradas LGBT+ têm o papel de garantir que as novas tecnologias de prevenção cheguem a todas as pessoas que delas necessitam, sem exclusões, sem barreiras e sem deixar ninguém para trás.
Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)



