Diretamente de Paris, onde acontece a 20ª Conferência Europeia de Aids (EACS 2025), a infectologista Maria Felipe (Mafê) enviou o primeiro boletim à Agência de Notícias da Aids com um panorama das discussões iniciais do encontro. Médica observadora na conferência, Mafê destacou que o evento começou abordando um tema urgente: a possibilidade de novas pandemias globais.
“A gente sabe que infelizmente não estamos livres dessa possibilidade, muito porque as condições climáticas adversas e as novas epidemias continuam acontecendo”, explicou Mafê.
Segundo ela, a plenária de abertura da EACS se debruçou sobre estratégias de prevenção de futuras pandemias. Um dos anúncios foi a criação de um fundo europeu de pesquisa destinado a estudar vírus emergentes e desenvolver mecanismos de resposta rápida.
“É fundamental que a gente aprenda com o que vivemos durante a Covid-19. Outra pandemia como aquela, ninguém quer enfrentar”, afirmou a médica.
Do AZT às terapias injetáveis de longa duração
Após o debate sobre pandemias, a conferência voltou o olhar para a história da terapia antirretroviral, revisitando desde o lançamento do AZT, em 1987, até os avanços atuais com os medicamentos de longa duração, como o lenacapavir e o cabotegravir, que vêm revolucionando o tratamento e a prevenção do HIV.
“Essas terapias mudam completamente a adesão e o desfecho de quem vive com HIV”, observou Mafê. “Cada pessoa é única — nem todo mundo consegue ou gosta de tomar comprimidos todos os dias. Ter várias opções é essencial para garantir qualidade de vida e sucesso no tratamento.”
Acesso, equidade e o desafio das metas globais
Durante as sessões da tarde, o foco se voltou para acesso à PrEP e iniquidades no cuidado com populações minoritárias, incluindo pessoas trans, travestis, não binárias, migrantes e negras.
De acordo com Mafê, a discussão ressaltou que essas populações ainda enfrentam barreiras no acesso à prevenção e ao tratamento, o que compromete o alcance das metas 95-95-95 das Nações Unidas — ou seja, 95% das pessoas vivendo com HIV diagnosticadas, 95% delas em tratamento e 95% com carga viral indetectável.
“Se deixarmos pessoas para trás, não vamos chegar onde queremos”, alertou Mafê. “É preciso garantir que todas as populações estejam incluídas e tenham olhares específicos nas políticas de saúde.”
Expectativa para os próximos dias
Encerrando o primeiro dia de atividades, Mafê destacou o caráter intenso e diverso das discussões, que devem se aprofundar nos próximos dias da EACS.
“Hoje o primeiro dia foi muito rico. Espero que o segundo e o terceiro sejam tão produtivos quanto. Continuem acompanhando nas redes sociais — a gente vai trazer muitos temas importantes diretamente daqui de Paris”, concluiu.
A Conferência Europeia de Aids (EACS 2025) reúne especialistas de todo o mundo para discutir avanços científicos, políticas públicas e estratégias de equidade no enfrentamento ao HIV. A Agência de Notícias da Aids acompanha o evento com boletins especiais direto da França.
Redação da Agência de Notícias da Aids




