“Máscaras de Oxigênio” uma narrativa histórica profundamente humana e politicamente urgente – por Ramon Nunes Mello

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Ontem assisti ao lançamento de “Máscaras de oxigênio não cairão automaticamente” — série que estreia em 31 de agosto na HBO, idealizada por Thiago Pimentel, que assina a produção em parceria com Mariza Leão e Tiago Rezende. Saí do cinema tomado por emoção, reflexões e a certeza de que estamos finalmente aprendendo a contar histórias sobre o hiv/aids sem recorrer ao vitimismo ou ao didatismo.

Essa obra transborda tesão, indignação e sensibilidade. Vai além do drama: é memória, é política, é resistência. Ao lado de títulos internacionais como Pose e It’s a Sin, esta produção brasileira — já premiada em diversos festivais — tem tudo para se tornar referência na abordagem contemporânea de um tema tão sensível quanto urgente.

A série é inspirada em uma história real e heroica da década de 1980: a ação arriscada de um grupo de comissários de bordo que contrabandeou AZT — primeiro medicamento eficaz contra o hiv/aids — para salvar vidas em um Brasil ainda negligente com o acesso ao tratamento. Mais do que contrabando, formou-se ali uma rede de solidariedade diante da omissão estatal e do preconceito institucionalizado.

Nos anos 80, quando “a maldita” (como Cazuza chamava a aids) se espalhava de forma brutal, especialmente entre as populações mais marginalizadas, o medo era alimentado não só pelo vírus, mas pelo estigma. O acesso ao tratamento era escasso e elitizado. Enquanto isso, corpos morriam em silêncio.

É nesse cenário que surge a narrativa da série: comissários de bordo transformam o desespero em ação coletiva. Mas como diz o personagem Fernando, vivido por Johnny Massaro, com humor ácido e dolorido:

“Em filme de terror não há heróis, só sobreviventes.”

Estética e direção que respiram a urgência da época

Sob a direção precisa de Marcelo Gomes, com episódios assinados por Carol Minêm, a série adota um estilo visual que reforça a opressão da época: planos fechados, ambientes claustrofóbicos, fotografia granulada, tons quentes — tudo nos coloca dentro do sufoco. A tensão é constante, o silêncio fala tanto quanto os diálogos.

Assinado por Patricia Corso e Leonardo Moreira, o roteiro é certeiro ao explorar metáforas — a “máscara” como proteção física e social — e discutir temas como solidariedade, resistência, invisibilidade e desigualdade. A classe social, aliás, é um fator central: enquanto a elite acessava tratamento, a maioria seguia à margem, entre o abandono e a morte.

Elenco em estado de entrega

Crédito: @marinhofoto

Johnny Massaro brilha ao dar vida a Fernando, um comissário que, ao ser diagnosticado com hiv, mergulha em uma crise existencial que o leva à ação. Sua performance carrega a dor e a dignidade de quem não quer apenas sobreviver, mas fazer a diferença.

Ícaro Silva, como Raul, traz potência militante e um senso de urgência política que ecoa nas lutas por justiça e igualdade. Já Bruna Linzmeyer entrega uma atuação comovente como Léa, símbolo da empatia e do afeto como força transformadora.

Com sensibilidade e firmeza, a série também se destaca ao colocar travestis e pessoas pretas no centro da narrativa — não como coadjuvantes estereotipadas, mas como figuras ativas na luta pela vida, pela dignidade e pela autonomia. Suas histórias são tratadas com profundidade e respeito, revelando as múltiplas camadas de violência estrutural que essas identidades enfrentaram (e ainda enfrentam) no contexto da epidemia. A presença de atrizes e atores trans e pretos, como Kika Sena, Aretha Sadick, Eli Ferreira e Igor Fernandez, contribui para romper com os apagamentos históricos e amplia o alcance político da obra. Ao dar visibilidade real a esses corpos, a série reafirma que qualquer narrativa sobre hiv/aids que se pretenda honesta precisa incluir — de forma central — as vozes historicamente marginalizadas.

Completam o elenco, em atuações igualmente marcantes: Luciana Magalhães, Verônica Valenttino, Andréia Horta, Eli Ferreira, Hermila Guedes, Kika Sena, Igor Fernandez, Duda Matte, Matheus Costa, Wayne Marinho, Carla Ribas, entre outros.

Um grito coletivo por memória, saúde e dignidade

Mais do que uma produção audiovisual, a série se consolida como um importante instrumento de educação e memória social. A obra toca em feridas ainda abertas, dá rosto e voz a quem foi silenciado, e reposiciona hiv/aids não como uma sentença, mas como um tema que exige responsabilidade pública, empatia e compromisso político.

A presença da médica infectologista Dra. Márcia Rachid como consultora técnica confere ainda mais autenticidade à narrativa, ampliando sua relevância para a saúde pública. Ao reviver uma história de resistência quase esquecida, a série não apenas honra o passado — ela convoca o presente. Porque ainda hoje, em 2025, as máscaras não caem automaticamente. E há muitas vidas que ainda precisam de ar.

“Máscaras de oxigênio não cairão automaticamente” é mais do que uma série sobre hiv/aids. É um resgate histórico, um manifesto pela vida, um lembrete de que as grandes mudanças vêm da coragem coletiva. Em tempos de apagamentos e revisionismos, essa obra nos obriga a lembrar — e a seguir lutando.

* Ramon Nunes Mello (Araruama/RJ, 1984) é poeta, escritor e jornalista. Desde 2012, vive com hiv e é ativista de direitos humanos. Mestre em Poesia Brasileira (Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, 2017). Doutorando em Ciência da Literatura na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Autor dos livros Vinis mofados (Língua Geral, 2009), Poemas tirados de notícias de jornal (Móbile, 2011), Há um mar no fundo de cada sonho (Verso Brasil, 2016) e A menina que queria ser árvore (Quase Oito, 2018). Organizou Escolhas: Uma autobiografia intelectual, de Heloisa Buarque de Hollanda (Língua Geral/Carpe Diem, 2010); Tente entender o que tento dizer: Poesia + hiv/aids (Bazar do Tempo, 2018); Ney Matogrosso: Vira-lata de raça – memórias (Tordesilhas, 2018); Do fim ao princípio – Adalgisa Nery – poesia completa (José Olympio, 2022); e Meu lance é poesia – Cazuza (Martins Fontes, 2024); Protegi teu nome por amor – Cazuza – fotobiografia (Martins Fontes, 2024, com Lucinha Araujo). É curador da exposição “Cazuza – Exagerado” (Shopping Leblon, Rio de Janeiro, 2025).

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