Marie Clarie: ‘Tive um sangramento vaginal que não passava e acharam que era leucemia ou púrpura, mas era HIV’

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Jéssica Mattar convive com HIV há três anos e é mãe de Isadora, de 15 anos, Isabella, de 13 anos, Maria Eduarda, de um ano, e André Luis, de dez meses

A criadora de conteúdo Jéssica Mattar, de 33 anos, tornou-se indetectável com apenas um mês de tratamento com antirretrovirais e assim permanece, tendo uma vida normal. Ela chegou até mesmo a engravidar e ter dois filhos após o diagnóstico e os bebês nasceram sem HIV, uma vez que a transmissão é praticamente zero com a intervenção adequada do quadro

A criadora de conteúdo Jéssica Mattar, de 33 anos, foi diagnosticada com o vírus da imunodeficiência humana há três anos. Embora o Brasil seja um país em que há cinco novos casos de HIV por hora, o reconhecimento do quadro ainda é desafiador e negligenciado pela comunidade médica. Como aconteceu com Mattar, mesmo com os sintomas associados à doença, suspeitam-se de outras condições antes de realizar o simples teste para o HIV.

O quadro de Mattar começou com um sangramento vaginal por mais de um mês, que a levou a ficar com 15.000 de plaquetas, sendo que o valor ideal é a partir de 150 mil. “Eu achava que era menstruação que não parava por eu ser desregulada”, lembra.

Além da hemorragia, a criadora de conteúdo também teve sudorese noturna, pintinhas avermelhadas e manchas roxas pelo corpo. No entanto, ela só associou os sintomas ao diagnóstico posteriormente a ele.

“Os sintomas do HIV são bastante inespecíficos. Geralmente, eles acontecem após a infecção retroviral aguda e podem ser semelhantes a de um quadro gripal e/ou dengue”, explica a infectologista Roberta Schiavon Nogueira, consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Ainda segundo a especialista, estes sinais associados ao vírus de imunodeficiência humana surgem em até seis semanas após o contágio. Posteriormente a esse período, o paciente fica assintomático e pode permanecer assim por anos. Não por acaso, a testagem mostra-se tão necessária diante de qualquer suspeita.

A luta em busca do diagnóstico correto

Quando Mattar foi internada devido ao hemograma com índices negativos, as suspeitas médicas eram de doenças como leucemia e púrpura, mas nunca HIV. Quem descartou as condições foi uma hematologista enquanto a criadora de conteúdo ainda estava hospitalizada.

A jovem começou a procurar pelos sintomas nas redes sociais e sempre surgia a opção de HIV, mas pensava que havia sido testada uma vez que ficou internada por um mês. Só que, antes de receber alta, ela indagou uma médica sobre o exame e foi informada que o teste do vírus da imunodeficiência humana não tinha sido realizado. “Eu tirava quatro tubinhos de sangue praticamente todos os dias”, lembra.

Mesmo com medo, Mattar pediu para que fosse testada em relação a todas as infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e, então, veio o resultado positivo para HIV no dia 6 de maio de 2021. “Foi um choque ao saber, achei que minha vida tinha acabado. Mas depois eu pesquisei a respeito e entendi que existe vida após o diagnóstico”, reflete.

O contágio da jovem foi por meio do contato com sangue não testado. Ela usou o mesmo canudo de cocaína de uma pessoa que, posteriormente, veio a falecer em decorrência da Aids.

Segundo o Ministério da Saúde, o HIV também pode ser transmitido por meio de sexos vaginal, anal e oral desprotegidos, compartilhamento de objetos perfuro cortantes contaminados, e através da transmissão vertical de mãe infectada para o filho durante a gravidez, parto e/ou amamentação desde que ela não esteja indetectável.

A vida continua após o diagnóstico

Nesta terça-feira (17), a coluna Senta Aqui com Marina Vergueiro recebe a influenciadora digital Jéssica Mattar – Agência AIDS

Logo após saber da condição, Mattar iniciou o tratamento com antirretrovirais, que consistem em dois comprimidos diários, desmistificando a ideia de que é preciso de diversas cápsulas para controlar o HIV. Os princípios dos seus medicamento são dolutegravir, tenofovir e lamivudina.

“Os meus linfócitos CD4 [os mais afetados pelo HIV] estavam em 18 milhões de vírus no sangue quando fui diagnosticada. Em um mês com a medicação, fiquei indetectável”, lembra a criadora de conteúdo. Desde então, Mattar segue uma vida normal.

“Hoje em dia, uma pessoa que vive com HIV, que se trata com antirretroviral, não o transmite para ninguém através de contato sexual”, diz Roberta Schiavon Nogueira, infectologista consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI)

Já quando estava indetectável, Mattar se casou e teve dois filhos. “O meu marido soube desde o início que eu tinha HIV e me aceitou do jeito que eu sou. Acredito que meus filhos foram presente de Deus, porque existe vida após o diagnóstico e Ele me deu duas para eu cuidar”, reflete a mãe.

Mattar relata que as duas gestações seguiram tranquilamente como as duas anteriores ao diagnóstico do HIV. A única diferença é que ela não pôde amamentar os bebês. Segundo Nogueira, ainda não há dados que garantem que o aleitamento materno é seguro quando realizado pela mulher mesmo com carga viral indetectável. Já em relação a gestação, o cenário é diferente.

“Atualmente, a transmissão vertical, de mãe para filho, caiu de forma significativa no Brasil. A mulher que engravida, tomando o antirretroviral durante a gestação e tem carga viral indetectável, tem risco de transmissão para o bebê praticamente zero”, reforça a infectologista.

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