
Ana Karoline Sabino da Silva, de 28 anos, tinha 25 quando foi diagnosticada com tuberculose ganglionar. A professora pensava que a doença infecciosa causava apenas tosse com sangue e ficou surpresa ao descobrir a condição a partir de dores articulares e febre.
“Em abril de 2022, minhas articulações incharam e eu tinha muitas dores, que pioraram a ponto de eu ter dificuldade para me movimentar”, lembra. Quando Silva procurava o pronto-atendimento, os médicos suspeitavam de chikungunya e dengue, pois no Ceará, onde a professora mora, estava com surto das doenças.
De abril a junho, Silva ficou indo e voltando do hospital com exames das duas doenças sempre negativos. Nesse meio tempo, a febre, a falta de ar e o cansaço somaram à lista de sintomas da professora.
“Procurei o reumatologista que acompanha minha mãe, por ela ter artrite reumatoide, para ver se ele também fechava o meu diagnóstico para a mesma doença”, relata. O especialista pediu uma série de exames, mas nenhuma condição foi confirmada.
Até que, em julho, a professora observou um caroço dolorido no pescoço. Ela procurou diferentes médicos até chegar em um otorrinolaringologista. “Ele passou alguns exames de imagem e observou que a minha região do pescoço estava cheia de linfonodos aumentados”, conta.
Os linfonodos integram o sistema imunológico do ser humano, auxiliando na defesa do organismo. Quando eles estão aumentados podem indicar problemas de saúde como infecções, inflamações, doenças autoimunes, reações alérgicas, entre outros.
Silva passou por uma biópsia dos linfonodos e constatou-se que havia vestígios de tuberculose ganglionar na região cervical. A professora iniciou o tratamento em setembro de 2022.
A descoberta de outras doenças
O quadro estava melhorando até que um episódio chamou atenção de Silva. Ela saiu de casa no dia da votação à presidência em 2022 e tomou sol. “Quando eu voltei, estava passando muito mal. Tive febre, dor no corpo e as articulações inchadas. Retornei ao infectologista e ele falou que não era para isso ter acontecido. Eu estava em um nível do tratamento que não era para ter mais nenhum sintoma”, lembra.
A professora passou por mais uma série de exames para entender o que estava acontecendo. Só que ela teve uma piora importante nesse meio tempo e precisou ser internada. Além da febre que não abaixava, a cirurgia da biópsia do pescoço estava inflamada. O cansaço e a falta de ar também retornaram.
Na internação de quase um mês, foi descoberto que Silva tinha tido derrames pleural (no pulmão) e no miocárdio (no coração) e, por isso, a exaustão e dificuldade para respirar.
Também foi constatado que ela estava com a imunoglobulina baixa, o que a levou a transfusão de sangue, e PCR alto, que é um indicador de inflamação e infecção no organismo.
“Apareceu também o rash malar, mancha em formato de asa de borboleta no rosto. Foi então que visto todos esses sintomas, os médicos fecharam meu diagnóstico para o lúpus”, conta.
Mais tarde, a associação do lúpus com a tuberculose levou ao diagnóstico da doença de Kikuchi-Fujimoto (DKF), conhecida também como linfadenite necrosante histiocítica. A enfermidade causa principalmente o inchaço dos linfonodos, associado a febre e cansaço.
Atualmente, Silva está curada da tuberculose, mas continua o tratamento para o lúpus e para a DKF.
Para a pessoa desenvolver a tuberculose ganglionar, ela teve contato com o bacilo de Koch pela via aérea. “Essa bactéria é transmitida por quem a tem nos pulmões ou na laringe, quando fala, tosse, espirra, ou seja, a lança no ar em forma de aerossóis”, explica a infectologista Emy Gouveia, do Hospital Israelita Albert Einstein.
A maioria das pessoas que entra em contato com o bacilo convive com ele ao longo da vida e não apresenta sintomas ou a transmissão da condição. “O sistema imunológico não permite que o indivíduo desenvolva a tuberculose doença”, completa Gouveia. No entanto, o bacilo pode ser ativado em um momento de queda de imunidade.
Segundo Gouveia, a tuberculose ganglionar é a forma mais comum da doença extrapulmonar, que acomete principalmente crianças e pessoas convivendo com HIV.
“Neste caso, o paciente vai apresentar aumento dos gânglios, que podem estar amolecidos ou endurecidos, dolorosos e notados na região do pescoço. Eventualmente pode haver inflamação e fistulização para a pele”, explica a especialista.
No caso da tuberculose ganglionar, se não houver acometimento do pulmão também, a pessoa não transmite a doença.
Os principais sintomas deste tipo da condição são:
- Febre;
- Tosse persistente por mais de três semanas, com ou sem sangue;
- Perda de apetite e emagrecimento;
- Tontura;
- Cansaço;
- Suor noturno.
“A tuberculose ganglionar quando tratada adequadamente possui cura. O tratamento é realizado através de comprimidos de antibióticos, que deverão ser tomados de acordo com a recomendação médica”, detalha a infectologista.
A medicação é distribuída pelo Sistema Único de Saúde (SUS) gratuitamente e o tratamento deve ser seguido rigorosamente, mesmo sendo mais longo do que os de intervenções de doenças bacterianas.
“O abandono do tratamento pode favorecer a resistência ao antibiótico e a volta do quadro clínico”, enfatiza Gouveia.



