
Helena Sammarone Henriques tinha 20 anos quando descobriu que “sua pai” é uma mulher trans. Hoje, a jovem publicitária usa o título para se referir à Duda Henriques e, juntas, divulgam conteúdos nas redes sociais sobre a inclusão de pessoas trans em um ambiente familiar.
“Acho que a representatividade é essencial. A nossa família é uma representação muito legal de uma família que conseguiu respeitar essa diversidade que existe dentro dela”, conta a paulista, em entrevista a Marie Claire.
Ela cita a solidão que é passar pela transição de alguém próximo sem ter referências que lidam com isso positivamente. “Quando falamos sobre a comunidade trans e LGBTQIAPN+ em geral, é muito comum ouvirmos histórias tristes e catastróficas. Então, é importante saber que algumas famílias conseguiram lidar da melhor forma possível, mesmo que não concordem com tudo, e isso traz uma sensação de tranquilidade e paz de espírito”.
Antes mesmo de contar para a filha sobre ser uma mulher trans, Duda passava por um processo gradual de transição aos 49 anos. “Ela fez algumas coisas de forma bem discreta, como depilações e deixar o cabelo crescer um pouco. Mas ainda não estava com o cabelo muito grande”, afirma.
“Um dia, em 2018, a Duda me chamou para conversar e eu estava no tapete do meu quarto. Foi aí que ela me explicou sobre a disforia de gênero, o que era isso e por que justificava a necessidade dela de fazer a transição. Ela também me contou o passo a passo do que aconteceria dali em diante”.
Naquele momento, Helena sentiu nada além de orgulho da revelação. “Eu admiro muito a coragem dela por ter tomado essa decisão na idade que tinha. Tendo todas as dificuldades que ela enfrentava, de certa forma, estava colocando muita coisa em risco, né? Porque você nunca sabe como a sua família vai reagir, por exemplo. Nossa família era super estável e ela decidiu encarar esse risco, bancar a mudança e seguir com a transição”, declarou ainda a jovem.
Depois de um tempo, a publicitária passou a ver de perto como é difícil ser uma pessoa trans no Brasil. “A Duda deixou o antigo emprego para fazer a transição — ela é engenheira química de formação e atuava na diretoria de uma grande empresa do setor alimentício. Então tivemos que enfrentar a realidade de uma instabilidade financeira, porque ela tinha um emprego muito bom que garantia muita coisa para nossa família”, explica.
Duda teve que buscar outras formas de sustento, já que “o mercado de trabalho não estava tão aberto a uma pessoa na idade dela” e, ainda por cima, “fazendo uma transição de gênero”. “Foi aí que começamos a empreender e abrir a nossa marca”, relata Helena, que gerencia uma loja de caleidoscópios e joias ao lado dela.
“Desde o começo, a nossa marca sempre teve o objetivo de falar sobre as particularidades da nossa família. Mostramos o processo da transição de gênero da Duda [nos produtos], as opiniões e os conceitos em torno da comunidade trans, além de falar muito sobre o meu irmão, que tem síndrome de Down, e a convivência que temos como família”.
Aprendizados durante a transição
Durante toda a jornada com “sua pai”, Helena acompanhou tudo de perto. “Fui com ela para as cirurgias, estive nos pós-operatórios, a gente comprava roupas juntas. Pesquisei um pouco sobre o tema, mas o que aprendi mesmo foi com ela”, reitera a jovem.
“Tudo sobre a comunidade trans que a gente encontra por aí costuma ser carregado de muitos gatilhos, sabe? Sempre tem muita informação que acaba deixando a gente preocupada e com medo, porque a realidade dessa comunidade é realmente muito vulnerável”, compartilha.
A jovem afirma que pesquisou sobre o assunto, mas “com cuidado”. “Conversei muito com a Duda sobre tudo e fui às consultas com ela, foi aí que eu aprendi muito. Além disso, conheci outras pessoas trans. Quando você tem alguém muito próximo, acaba conhecendo outras pessoas trans que não conheceria de outra forma e, conversando com elas, você vai entendendo um pouco mais”.
Ela vê que sua vida de antes era “muito dentro de um padrão”, com uma família que “também seguia essas características mais tradicionais”. “Então, quando a Duda saiu desse lugar de homem cis hétero e entrou num lugar de mulher trans e lésbica (ela continua casada com a mãe de Helena), isso me tirou da minha zona de conforto”.
“Me trouxe mais responsabilidade também, porque quando alguém que você gosta muito está passando por um momento que a coloca em uma situação mais vulnerável, você faz tudo o que está ao seu alcance para ajudar essa pessoa a ser mais feliz durante esse processo”.
Para a paulistana, sua relação com Duda ficou muito mais próxima depois da transição: “Foi num momento em que eu percebi que ela precisava muito de mim. Até então, eu sempre fui a pessoa que recebia muito dela, porque era criança, adolescente, enfim. A partir desse momento, ela precisava muito de mim e as coisas se tornaram mais horizontais nesse sentido.”
“Minha pai é uma mulher trans”
Sobre continuar usando o termo “pai” para se referir a Duda, Helena esclarece que, querendo ou não, a empreendedora exerceu o papel de pai durante sua vida inteira. “Por mais que o ideal fosse que os papéis de pai e mãe fossem equivalentes na sociedade, sabemos que, na prática, não é bem assim. Geralmente, a mãe acaba se sacrificando mais em algumas questões. E, na minha vida, foi assim até os meus 20 anos”.
“A gente manteve esses títulos, mas, de certa forma, isso acaba sendo uma questão polêmica. Muitas pessoas não gostam que eu me refira à Duda como ‘pai’, porque dizem que isso é um posicionamento transfóbico, e eu entendo de onde vem essa crítica”.
A jovem afirma que, apesar de compreender, é importante “individualizar as situações”. “Se a própria Duda não se incomoda com isso, se a gente a trata com muito carinho e preserva isso dentro da nossa família e em público, não a vemos como uma pessoa diferente após a transição. Ela continua sendo a mesma pessoa, só com uma identidade de gênero diferente. Acho que, no fim, é uma questão de respeitar o que a pessoa aceita”.
Ainda assim, se Helena percebe que o tratamento como “pai” não é adequado em certos contextos, elas se adaptam. “A gente respeita muito o que a comunidade trans sente. Não queremos gerar conflito”, finaliza.



