Marie Clarie: ‘Fui diagnosticada com HIV+ aos 19 anos em 1990, encarei o preconceito e hoje sou mãe e voz do movimento de luta pelos direitos das pessoas com HIV/Aids’

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Vanessa Campos em 2014

Vanessa Campos recebeu o diagnóstico na época em que o mesmo era, como ela diz, “uma sentença de morte”. Vivendo há mais de 30 anos com HIV+, a amazonense conta toda a sua história de luta ao preconceito e relacionamentos abusivos até chegar em 2016, momento em que se tornou ativista. Primeira amazonense escolhida secretária nacional de Informação e Comunicação da RNP+ (Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids), Vanessa realizou diversos sonhos e hoje é voz e inspiração para todos os que têm o mesmo diagnóstico

“Nasci em Manaus, no Amazonas, e cresci em uma família grande. Meus avós tiveram dez filhos: oito mulheres e dois homens. Minha mãe foi a primeira ‘mãe solo’ da família, o que virou um escândalo na época, em 1972. Apesar de toda a pressão para que ela não tivesse a criança, aqui estou. Até os 7 anos, fui criada pela minha avó e pelo meu avô, e a minha mãe morava junto conosco.

Até que chegou o ano de 1979, quando minha mãe se casou com meu padrasto. Vale dizer que eu não conheci meu pai biológico e nunca soube muito sobre ele, mas o meu padrasto foi o melhor pai que eu poderia ter. Tive uma infância e uma adolescência muito privilegiadas. Pude estudar nas melhores escolas, fazer aula de inglês e balé e realizar viagens para São Paulo.

Aos 17 anos, tive meu primeiro namorado. Foi com essa idade que iniciei minha vida sexual. Naquela época, não se falava tanto sobre preservativos. Esse namoro, que começou no final de 1989, durou dois anos. Na primeira semana de 1990, tive alguns sintomas parecidos com os de uma virose, como febre, dores no corpo, cansaço e algumas pintinhas na pele.

Minha mãe decidiu me levar para uma dermatologista e a médica pediu diversos exames, menos para infecções sexualmente transmissíveis e HIV. Quando vieram os resultados, nada indicava uma doença grave. Os sintomas passaram em duas semanas e minha vida seguiu.

Em 1992, pouco tempo após o término dessa relação, meu então ex-namorado sofreu um acidente de carro. Não foi muito grave, mas ele fraturou o fêmur e, por isso, ficou internado. Seu pai era médico e notou algumas alterações inesperadas e não relacionadas ao acidente. O que era para ser uma simples recuperação se complicou. Ele teve febre e dores de cabeça e foi diagnosticado com meningite criptocócica, causada por fungos e que, naquela época, era – e continua sendo – uma doença definidora do HIV. Seu pai desconfiou e o resultado deu positivo. A meningite o matou muito rapidamente, o que deixou todos arrasados.

Um dia, recebi a ligação de uma enfermeira explicando a situação e pedindo que eu também fizesse o teste de HIV. Nos anos 1990, o diagnóstico não era rápido e eu me preparei para um resultado po- sitivo. Li tudo o que podia sobre HIV e aids e entendi que não afetava apenas homens que transam com outros homens, como diziam. Atingia também mulheres. A aids era vista como algo relacionado a gays e mulheres promíscuas, e sabemos que isso não é verdade. Foi assim que tive o meu diagnóstico de HIV+, aos 19 anos, muito jovem. Jamais imaginei. O HIV+ era uma sentença de morte e eu pensei que morreria igual ao Cazuza. Na minha cabeça, era só sentar e esperar por uma passagem rápida e muito dolorosa.

Apoios