Mãe de menino trans explica reação ao gênero do filho: ‘Sensação de alívio por ver ele falar o que pesava tanto’

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Mariana Bergamo Oda, mãe de Felipe, conta os desafios e as emoções que viveu ao ouvir do próprio filho que ele era uma criança transgênero, reforçando a importância do acompanhamento psicológico e do apoio familiar

Felipe tinha apenas oito anos quando contou para a mãe, Mariana Bergamo, 37, que não se identificava como uma menina. A farmacêutica, que é mãe de três, conta os detalhes dos momentos de aceitação e apoio que viveu ao lado do filho e reforça a importância do apoio da experiência transformadora.

“Desde muito cedo, o Felipe tinha todos os jeitos de um menino. Era até difícil, a gente comentava isso com as pessoas próximas e elas diziam: ‘Nossa, mas ele é delicado’. E realmente, ele é um menino super delicado. Mas o jeito dele de andar, de se portar, as brincadeiras… era diferente. Ele tentava fazer parte do grupo das meninas, mas sempre se sentia melhor com os meninos. De qualquer forma, mesmo com a gente reparando no jeito dele, foi uma surpresa, porque nós nunca imaginamos uma criança transgênero, né?

 

 

O Felipe verbalizou que não queria ser uma menina aos 8 anos. Uns seis ou oito meses antes, nós percebemos uma mudança de comportamento muito brusca dele. Ele sempre foi uma criança muito comunicativa, brincalhão, com muita paciência. E, de repente, mudou totalmente. Ficava isolado no canto dele, os amigos do prédio o chamavam para brincar e ele não queria. Passou a ser super reativo, não tinha mais paciência com as irmãs.

 

 

A gente percebeu que tinha alguma coisa errada, mas não sabíamos o que era. Cheguei a pensar que ele estava com ciúmes da irmã, já que os dois são gêmeos e, na época, estávamos muito focados no esporte que ela estava praticando. Mas conversei com a psicóloga que o conhecia e tratava a irmã dele e ela falou: ‘Mari, eu não acho que é isso. Ele é muito bem resolvido’. E foi aí que, depois de um tempo, ele verbalizou que queria ser um menino. Então, lógico, pra gente foi um choque na hora, mas também existiu aquela sensação de alívio, por ver ele falar o que estava pesando tanto para ele.

 

 

Ele disse: ‘Mãe, eu não queria ser uma menina, eu queria ser um menino’. Na hora, eu e meu marido nos entreolhamos. A primeira reação foi de susto, porque, realmente, apesar de acharmos que o Felipe seria uma mulher homossexual, nós não esperávamos que seria transgênero. A gente também não tinha convivência com nenhuma outra pessoa trans, então não sabíamos nem o que era direito. O que eu tinha era só algumas informações da internet, Instagram, etc. Mas, depois, nós adotamos uma postura mais de: ‘Tá, ele é trans. E agora, o que a gente pode fazer para ajudá-lo a se sentir melhor?’.

No mesmo dia que ele nos contou, ele me perguntou se podia usar roupa de menino e eu disse que sim. Então, nós fomos comprar roupa pela primeira vez. Eu nunca tinha visto ele tão feliz. No início, eu e o meu marido não sabíamos muito o que fazer e deixamos as coisas partirem dele. As pessoas começaram a falar que nós estávamos influenciando o Fe a querer ser menino, e no começo, até a gente ficou: ‘Será que é influência nossa?’, justamente por já acharmos que ele seria uma mulher homossexual. Mas nós tomamos postura de esperar que todas as solicitações viessem dele.

‘‘Foi um processo gradativo. Ele pediu a troca de roupa, nós fizemos. Ele pediu o corte de cabelo, nós levamos para cortar. Por fim, depois de um tempo, ele pediu para mudar de nome. E aí começamos a transição social’’.

A primeira roupa que ele comprou foi uma camisa polo e quando eu olhei ele vestindo, eu pensei: ‘É isso mesmo’. Ele estava tão feliz, tão alegre por poder se expressar socialmente como um menino, que aquilo fazia todo sentido pra mim. Foi muito especial.

Nós começamos a ver o Felipe voltando a ser uma criança sorridente, a ter paciência com as irmãs, a querer brincar, justamente porque ele estava se mostrando socialmente do jeito que ele realmente é: Um menino. A gente viu uma melhora tão grande nele que foi maravilhoso acompanhar todas as etapas. Na primeira vez que ele cortou o cabelo, o pai dele ficou um pouquinho chocado. Mas foi só um choque inicial, depois todo mundo foi se habituando. Eu falo que o meu filho vive em uma bolha, porque nós tivemos pouquíssimos problemas. A escola dele é muito inclusiva, tem um pensamento de acolher cada criança e a demanda de cada uma. As professoras já estavam acompanhando todo esse processo de pedir pra chamá-lo por outro nome, pedir para trocar de roupa e tudo mais e quando ele verbalizou, a gente já sinalizou.

As crianças também o acolheram. Para elas, realmente foi só uma mudança de roupa, cabelo e nome. Os amigos continuam sendo os mesmos, as brincadeiras são as mesmas, foi tranquilo. Já com a família, apenas no começo, houve um pouco mais de resistência, porque cada pessoa tem seu tempo e algumas precisaram de um período maior para digerir, mas graças a Deus, o Fe nunca sofreu nenhum tipo de preconceito, nem teve nenhum problema.

Para o Felipe, tudo isso só foi um problema até ele falar. Depois que ele falou e viu que estava tudo bem, voltou a viver a vida dele de onde tinha parado antes de lidar com esses conflitos. Mesmo assim, ele começou a fazer acompanhamento com a psicóloga, porque apesar de estar muito bem resolvido, a gente se preocupa com o que ele vai enfrentar na vida. Por enquanto, ele está um pouco blindado. É criança, a gente consegue controlar mais. Mas isso não é a realidade, né? Um dia ele vai crescer e vai enfrentar a vida real. Eu e o meu marido também buscamos ajuda de um psicólogo para ter entendimento e ajuda para fazer a transição social dele de forma mais tranquila.

Hoje em dia nós já aprendemos que a criança tem voz. É diferente da forma que eu fui criada. Criança, na minha época, não era ouvida. Como a gente não acredita nesse tipo de criação, a gente passou a escutar muito o que as nossas crianças falavam e demonstravam.

Nós sempre tentamos deixar, não só com ele, mas com as irmãs também, um canal de comunicação muito aberto entre a gente. Então, desde quando o Felipe era muito pequenininho, eu falava: ‘A única obrigação de vocês é ser feliz. A única coisa que a mamãe quer é que vocês sejam do jeitinho que vocês são’. Sempre fui falando essas coisas para eles e deixei muito espaço para falarem as coisas. Eu realmente tinha medo do Fe chegar na adolescência, se descobrir como uma menina homossexual e não ter coragem de vir falar com a gente. Então, talvez por termos trabalhado isso a infância inteira deles, eu acho que isso fez com que ele sentisse que poderia falar.

Eu acho que o que mais me impactou foi ver a coragem dele. Com 8 anos, ele teve tanta sabedoria e coragem para ser quem é. Por que nós, adultos, não temos essa mesma postura com a nossa vida e por que eu questionaria isso de alguma forma? A gente aprendeu muito. Até algumas coisas mudaram na nossa vida depois disso, tanto eu, quanto o pai, passamos a ter mais coragem de enfrentar certas mudanças que antes tínhamos receio.

Você acolher o seu filho garante que ele tenha uma infância feliz. A gente vê depoimento de transgêneros adultos que falam que a infância é um lugar que eles não gostam de revisitar, porque foi muito difícil. Você vê adolescentes que a família diz que ‘é fase’, que ‘passa’, e isso vai se estendendo. Quando entram na adolescência, com aquela enxurrada de hormônio, e o corpo começa a se modificar, essas crianças começam a lidar com várias questões sérias. Então, você acolher e fazer com que ela seja feliz, só vai te garantir que estará com você no futuro e bem”.

A importância do canal aberto

A psicóloga especialista em transgêneros, Tatiana Zuccari, reforça que o acompanhamento psicológico é muito importante, tanto para a criança, quanto para os pais.

“Para a criança, a terapia é importante para que ela se expresse livremente, sem julgamentos, de modo que ela entenda quem é, o que sente, além de ter suporte e recursos emocionais para lidar com a família, escola e com as situações do dia a dia”, explica, afirmando que no caso dos pais é importante que haja acompanhamento psicológico para uma melhor compreensão dos sentimentos dos seus filhos, além de ajudá-los a lidar com as próprias angústias e emoções.

“Os pais, muitas vezes, lidam com o luto pelas expectativas que colocaram sobre aquela criança. É um processo muitas vezes de desconstrução, que precisa de suporte para que eles entendam as próprias emoções, sentimentos e expectativas e possam acolher os seus filhos genuinamente nos seus desejos, expressões e vivências. Quando existe um acolhimento familiar, a saúde mental daquela criança tem um prognóstico muito melhor, porque ela sente que tem suporte, que os pais estão ali validando, respeitando quem é na sua existência. E assim, ganha força e suporte para existir no mundo e encarar as situações da vida”, complementa.

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