Marie Claire: Como Lady Gaga mudou para sempre as normas de gênero e sexualidade na música pop

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Lady Gaga mudou para sempre a forma de falar em sexualidade e gênero no pop

A primeira vez que Lady Gaga cantou Born This Way foi no palco de um VMA, vestindo o icônico e controverso vestido de carne. Era 2010, e ela havia acabado de ganhar seu terceiro prêmio da noite quando disse que prometeu revelar o nome de seu novo disco: “Eu sou linda do meu jeito, porque Deus não erra. Estou do lado certo, querida, eu nasci assim”. Meu eu de 12 anos estava assistindo ao vivo, paralisada, de olhos arregalados, arrepiada da cabeça aos pés — mesmo sem entender uma palavra do que ela dizia.

Naquele ponto, eu não sabia porque Gaga me fascinava tanto. Enquanto colegas de classe debochavam dela por “parecer um homem”, me via encantada com suas roupas extravagantes, a voz anasalada (um tanto excêntrica para mim na época) e a postura inabalável, quase divina, que sustentava em seus videoclipes provocativos. A verdade é que era na estranheza de Gaga e na sua liberdade para falar exatamente o que buscava – seja no amor, no sexo ou no comportamento — que me acolhia. Era como se ela me dissesse que, em algum lugar do mundo, poderia existir, em algum momento, um espaço feliz e seguro para mim. Anos depois me descobri bissexual.

Gaga foi uma figura presente o tempo inteiro nesse processo e na minha caminhada em busca da minha própria identidade. Foi aos 18, numa festa queer com amigos, que entendi perfeitamente que o impacto que ela tinha em mim era unanimidade na minha geração. É claro que tínhamos outras divas, como Madonna, Beyoncé, Katy Perry e Rihanna. Mas Gaga era… Gaga. Para nós, havia algo de inigualável, fresco, pulsante e excêntrico nela que nos atraía com muito mais magnetismo. Não à toa, parecia que a boate cantava mais alto quando era ela quem dominava a pista.

Seja por meio das escolhas criativas (da música e composições à moda e beleza exageradas e pitorescas) ou pela postura combativa e firme, Gaga conseguiu subverter várias normas dentro da indústria musical e, consequentemente, sociais e políticas.

O que se destaca em sua carreira é a forma vocal como falava em liberdade sexual com crueza, sobretudo de mulheres e pessoas LGBTQIA+ — desde seu flerte com temas como sadomasoquismo e vampirismo até a forma como foi incansável ao defender o direito de casais homoafetivos de se casar (o que só foi permitido pela Suprema Corte dos Estados Unidos em 2015).

Por meio de sua arte e seu impacto, Gaga mudou para sempre a forma de falar de sexualidade e gênero na música pop. Não só isso, mas abriu horizontes que possibilitaram a ascensão de diversos artistas queer no mainstream.

Em março deste ano, a rapper Doechii definiu Gaga como uma “salvação” em sua infância e que foi ela quem a fez se aceitar enquanto “artista, queer e little monster”.

Chappell Roan afirmou que assistir a Mother Monster na infância foi um “efeito dominó para o lugar onde está hoje”. Lorde já colocou a artista como “sua rainha”, e Sam Smith atribui o trabalho dela como um impulsionador para se entender enquanto pessoa não binária.

O mérito de Gaga está na forma como usou composições, sobretudo de Born This Way, para criar um espaço seguro para mulheres e pessoas queer, além de ter usado o álbum para denunciar abertamente legislações anti-LGBT.

Foi o que analisou a pesquisadora Mallory Malman em um artigo para a Universidade Estadual da Flórida: “Ela reforçou essa postura com visuais metafóricos — como figuras alienígenas, o vestido de carne e performance drag — para desconstruir a heteronormatividade em uma plataforma de larga escala”.

Lady Gaga continuou trajetória de David Bowie, Madonna e Prince

Lady Gaga no clipe de Just Dance; raio no rosto remete a David Bowie, sua maior inspiração — Foto: Divulgação

É verdade que Gaga não foi quem revolucionou a conversa sobre sexualidade ou que subverteu papeis de gênero na música. Prince, Freddie Mercury, Boy George, Cher, Diana Ross, Madonna e, especialmente, David Bowie — a maior referência da Mother Monster — foram só alguns dos artistas queer que pavimentaram o caminho para que Gaga pudesse ter um caminho mais aberto. Isso sem falar em acontecimentos culturais mais marginais — como a cena ballroom forjada pela comunidade trans e preta em Nova York — ou de influências da moda — como Alexander McQueen, Donatella Versace e artistas drag.

Bowie, Janis Joplin, Joan Jett, Grace Jones, Debbie Harry (do Blondie) e Madonna são só alguns exemplos dos artistas que tensionaram os limites dos papéis de gênero e a heteronormatividade para um grande público. Foi particularmente Madonna quem não só abriu espaço para explorar a sexualidade feminina sem travas como abraçou de forma mais veemente a comunidade LGBTQIA+ — principalmente homens gays, durante a pandemia da aids.

É seguro dizer que portas mais difíceis foram abertas antes da chegada de Gaga. Mas há algo de diferente que estava adormecido quando ela tomou a indústria. Para o jornalista irlandês Brian O’Flynn, foi Gaga quem conseguiu colocar a comunidade LGBTQIA+ no mainstream – o que revolucionou a abordagem sobre sexo e gênero e a inventividade nas sonoridades consideradas “palatáveis” para sempre.

Em um artigo de 2018 ao The Guardian, o jornalista comparou o impacto de Lady Gaga na geração Millenial e Z ao de Bowie na juventude dos anos 1970. Ele diz que depois de uma onda queer pulsante, a indústria se inclinou nos anos 1990 e começo de 2000 para um caminho mais heteronormativo — destacando artistas como Timbaland, Justin Timberlake, Red Hot Chilli Peppers, Snoop Dogg e as “versões pré-diva pop” de nomes como Beyoncé e Shakira.

“[Gaga] foi a vanguarda de um renascimento da identidade queer na cultura pop que deixou um legado impressionante uma década depois. Hoje em dia, dificilmente alguém se assustaria ao ouvir uma palavra como ‘transgênero’ pronunciada em uma música de sucesso. Mas, antes de Born This Way, a ideia teria sido surpreendente. É em parte graças a ela que vivemos hoje em uma era em que RuPaul’s Drag Race é mainstream”, escreveu O’Flynn.

A jornalista queer Jujiin Samonte também definiu, em um texto da revista Mega, que a obra da artista, que prega “autoconfiança, auto descoberta e autoestima, ajudou uma geração a se tornar mais corajosa e criativa”.

“Lady Gaga é uma esquisitona e uma aberração autoproclamada. Como verdadeiros divisores de águas, sua chegada sísmica à consciência mundial abalou as paisagens da música, da moda e da arte. Essas crianças [que cresceram com Gaga quando sequer tinham idade suficiente para ir a uma balada] assistiram tudo isso acontecer.”

“A esquisitice dela fez com que a minha própria esquisitice parecesse mais aspiracional do que dolorosa”, analisou Brian O’Flynn sobre sua forte ligação com Gaga. “Num mundo de escuridão total, a presença dela era minha única luz, um caminho silencioso para mim mesmo, antes mesmo de eu saber o que significava a palavra queer.”

Um mundo de sexo, sadomasoquismo e monstros

Lady Gaga no videoclipe de Abracadabra — Foto: Divulgação

Gaga entende bem as dinâmicas patriarcais e cisheteronormativas do mundo em que vive, e se mostrou em inúmeros momentos autoconsciente sobre elas. Seja quando revelou em entrevista ao Bill Gates, neste ano, que se recusou a desmentir ser “hermafrodita” para não envergonhar outras pessoas intersexo. Ou quando se abriu diversas vezes sobre a própria bissexualidade ou violências sexuais que viveu ao longo dos anos.

E ainda ao se levantar de forma veemente pelos direitos das mulheres — como pelo direito ao aborto — e de pessoas trans — em um momento em que a comunidade vive uma ofensiva ainda maior nos Estados Unidos. “Pessoas trans não são invisíveis. Elas merecem amor”, afirmou no palco do Grammy, em fevereiro deste ano, ao vencer um gramofone por Die With a Smile, grande sucesso em parceria com Bruno Mars.

Essa autoconsciência também aparece na maneira como fala de trazer o sexo e a identidade para suas músicas. Gaga parece obcecada por monstros — como chama a própria base de fãs —, vampiros e figuras animalescas — “coloque suas garras para cima”, outro mandamento importante do Gagaverso.

“O contexto de monstros e animais oferece para os fãs de Gaga um escape de precisar viver de acordo com idealizações e expectativas da mídia e da sociedade. Eles se tornam cientes de sua monstruosidade e experimentam alguma liberdade ou alívio, talvez até poder sobre suas vidas”, analisou o sociólogo Victor P. Corona.

Verbetes como “feio”, “doença”, “criminoso” e “loucura” também são usadas com frequência em sua discografia. É a partir desta maneira que ela assume o esquisitismo nela para enaltecer o esquisitismo do outro, tirando essas características do lugar de anormalidade.

O mesmo vale para quando bebe da fonte do sadomasoquismo ou usa de descrição de sexo violento para se mostrar no controle, mas também para fazer com que homens se sintam ameaçados por sua liberdade sexual ao saber exatamente o que quer, sem ligar para julgamentos. Esse é o mesmo impacto que ela busca ao usar a palavra “vadia” como um termo de empoderamento — como em Bad Romance, em que proclama: “Sou uma vadia livre, baby”.

“Diria que Gaga desafia papéis de gênero por sua performance da mesma forma que o faz em suas letras ao falar alto, expansivo e de forma ativa e por abordar a sexualidade em várias músicas”, diz a pesquisadora Birgitta Abrahamsson em um artigo para a Universidade de Gotemburgo, na Suécia, ao analisar a influência do gênero e do sexo nas composições da artista no álbum The Fame Monster.

Abrahamsson ainda destaca que Gaga é quem escreve todas as suas músicas (sozinha ou não), o que traz uma autenticidade maior sobre as nuances do que descreve e gera uma identificação muito mais ampla e verdadeira. “As garotas de Gaga são armadas pela sexualidade”, descreve a pesquisadora. “Elas rompem com os papéis de gênero, buscam exercitar poder em ser ativas, o oposto de passivas, frequentemente são tratadas como sujeitos sexuais em vez de objetos.”

A mesma linha narrativa foi mantida por Gaga nos seus trabalhos posteriores. Sobretudo na era ARTPOP, que pode ser considerado uma ode ao amor e ao sexo enquanto prazeres divinos, de outro mundo. Não à toa é a deusa Afrodite quem se torna alter ego da artista ao longo dessa era. É nesse grande quebra-cabeça que mora o poder de Gaga: transformando em arte as dores, a luta, os prazeres e a experiência única de termos nascido estranhos. Ainda bem que nascemos assim.

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