Marcos Ribeiro / O Globo: Educação sexual é prevenção

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É comum que a criança não reconheça o abuso sofrido, por nunca ter tido uma conversa sobre sexualidade

Menina grávida foi vítima de estupro

A conversa não é recente, muito pelo contrário. Ao longo dos séculos, famílias e escolas têm muita dificuldade em lidar com a educação sexual das crianças de forma tranquila. Acredita-se, ainda, que é um incentivo à sexualidade precoce.

Na França do século XVIII, já ocorriam ações de repressão à sexualidade infantil. Essas ideias eram reforçadas pelo filósofo Rousseau (1712-1778), para quem a ignorância era a melhor garantia da manutenção da pureza infantil.

Em 1968, na segunda metade do século XX, a deputada federal Júlia Steinbruch (RJ), ao apresentar um projeto para introdução obrigatória da educação sexual em todas as escolas, teve como resposta da Comissão Nacional de Moral e Civismo que “não se abre à força um botão de rosa, sobretudo com as mãos sujas”.

Assim, chegamos ao século XXI com uma visão de que falamos de algo pecaminoso e impróprio. Falar de sexualidade com as crianças é mesmo necessário?

Essa conversa contribui para o desenvolvimento físico, psicológico, social e cognitivo das crianças. Conhecer o próprio corpo, saber cuidar dele e se proteger é um direito de todas as pessoas.

A educação sexual desenvolve a criticidade, o respeito às diferenças e o combate a vários tipos de violência (misoginia, homofobia, racismo e de gênero). O trabalho contribui para, mais tarde, proteger de uma gravidez não planejada ou de uma infecção sexualmente transmissível (IST) por meio de comportamentos preventivos.

A conversa sobre sexualidade protege de violência sexual, permite diferenciar o toque de carinho do abusivo e buscar ajuda quando necessário. Em muitas palestras sobre o tema, professores relatam que, ao final do trabalho, é comum alunos relatarem situações de violência sexual, geralmente por alguém próximo à criança, como pais, padrastos, avôs, amigo íntimo da família etc.

Corroborando essa ideia, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, “dentre as crianças e adolescentes entre 0 e 13 anos de idade vítimas de estupro no ano passado, os principais autores são familiares”.

É comum que a criança não reconheça o abuso sofrido, por nunca ter tido uma conversa sobre sexualidade ou pelo vínculo com o abusador, o que a torna mais vulnerável e uma vítima sem recursos psicológicos para se defender. No Brasil, o Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, registrou, somente nos três primeiros meses de 2023, mais de 17.500 violações sexuais contra crianças e adolescentes.

Muitas famílias acreditam que esse assunto é para dentro de casa. Só que a escola precisa, também, desenvolver a construção social, o convívio em grupo e suas diferenças e a formação de cidadão em seus alunos. A educação sexual não pode ficar de fora.

*Marcos Ribeiro, mestre em educação sexual pela Unesp, é autor do livro “Você conversa com seu filho sobre sexo?”

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