Março Lilás: Falta de inclusão compromete prevenção do HPV entre homens trans no Brasil

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Mesmo diante de índices elevados de infecção e alterações citológicas, população segue à margem das políticas públicas de vacinação, rastreamento e cuidado ginecológico

No mês do Março Lilás, campanha dedicada à conscientização e à prevenção do câncer de colo do útero, uma lacuna persistente das políticas públicas de saúde volta ao centro do debate: a invisibilidade dos homens trans que mantêm colo do útero e que, portanto, também necessitam de vacinação, rastreamento e acompanhamento regular para a prevenção do HPV e de lesões precursoras do câncer.

Ainda amplamente centrado nas mulheres cis, o debate sobre câncer de colo do útero ignora uma realidade já documentada por estudos recentes: homens trans também estão expostos a taxas significativas de infecção pelo papilomavírus humano (HPV) e enfrentam obstáculos concretos para acessar exames preventivos, atendimento ginecológico e medidas de proteção.

Mais do que um desafio biomédico, trata-se de um retrato das falhas estruturais do sistema de saúde. A elevada prevalência de HPV nessa população não pode ser dissociada das barreiras de acesso, da discriminação nos serviços e da ausência de estratégias de cuidado que reconheçam, de forma explícita, as necessidades de homens trans.

Em um estudo realizado em um ambulatório trans de Vitória (ES), a prevalência geral de HPV chegou a 58,3%. Entre os homens trans, o vírus foi identificado em 38% das amostras cervicais e em 25% das amostras anais — números que ajudam a dimensionar um problema ainda subestimado na saúde pública brasileira.

Cuidado ginecológico ainda marcado pela exclusão

Apesar desse cenário, o acesso ao cuidado segue atravessado por barreiras, despreparo institucional e ausência de protocolos efetivamente adaptados. Para homens trans que preservam o colo do útero, exames como o papanicolau continuam sendo fundamentais — mas nem sempre são realizados.

Constrangimento, discriminação, experiências traumáticas e a dificuldade de encontrar serviços acolhedores ajudam a explicar por que muitos deixam de procurar acompanhamento ginecológico regular.

Em entrevista à Agência Aids, o pediatra Carué Contreiras, do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids de São Paulo (CRT-SP), afirma que o HPV deve ser compreendido dentro de um contexto mais amplo: o da exclusão dos homens trans do cuidado ginecológico e obstétrico.

Segundo ele, a dificuldade não se restringe ao papanicolau, mas atravessa toda a atenção em saúde sexual e reprodutiva.

“HPV é só mais uma das camadas de atendimento ginecológico geral”, afirma. Para o especialista, homens trans também enfrentam barreiras em atendimentos relacionados a contracepção, aborto, outras infecções sexualmente transmissíveis, endometriose, cólicas e demais demandas ginecológicas.

Preconceito afasta usuários e atrasa diagnósticos

Na avaliação de Carué, a discriminação vivida dentro dos serviços de saúde tem impacto direto na prevenção e no diagnóstico precoce. Muitos homens trans evitam procurar atendimento justamente por já terem passado por situações de constrangimento, desrespeito ou despreparo profissional.

“Se a pessoa sente preconceito no serviço de saúde, ela vai evitar. Se vai evitar, a pessoa vai ficar com a sua rotina de saúde atrasada”, disse.

O efeito é concreto: ao adiar consultas e exames preventivos, aumenta o risco de que lesões precursoras do câncer sejam identificadas apenas em estágios mais avançados.

Para o médico, esse impacto ultrapassa o HPV e compromete toda a rotina de cuidado — especialmente em uma área já atravessada por sofrimento, desconforto e disforia.

Barreiras vão além do consultório

Os entraves, porém, não se limitam ao contato direto com profissionais de saúde. Obstáculos institucionais e administrativos também contribuem para manter essa população à margem do cuidado.

Carué chama atenção para as dificuldades enfrentadas por homens trans que já retificaram nome e gênero nos documentos. Em razão de limitações nos sistemas informatizados, muitas vezes encontram barreiras até mesmo para solicitar exames ginecológicos.

“Ele está lá com sexo masculino, e o sistema trava na hora de pedir um transvaginal para alguém do sexo masculino; o sistema não consegue rodar isso”, relata.

O problema revela uma exclusão silenciosa: ela também está embutida na lógica de funcionamento dos serviços.

Mais do que uma questão de acolhimento individual, trata-se de uma estrutura organizada a partir de referências binárias que frequentemente não reconhece — nem responde — às demandas específicas das pessoas trans.

Invisibilidade também se reflete nos dados

A exclusão não termina no atendimento. Ela também aparece na produção de dados. Segundo Carué, os sistemas de informação e formulários de saúde nem sempre registram adequadamente a identidade de gênero, o que dificulta compreender, com precisão, a realidade epidemiológica dos homens trans.

Sem informação qualificada, faltam diagnósticos consistentes — e, consequentemente, políticas públicas direcionadas. A invisibilidade estatística, nesse contexto, reforça a invisibilidade assistencial.

Para o médico, essa ausência evidencia como corpos trans ainda permanecem fora do centro das estratégias de produção de conhecimento e formulação de respostas em saúde pública.

Vacinação existe, mas acesso segue desigual

No campo da vacinação contra o HPV, o cenário também está longe do ideal.

Embora homens trans possam ser contemplados pela vacinação universal dentro da faixa etária recomendada e, em alguns casos, por estratégias voltadas a grupos específicos — como pessoas vivendo com HIV ou em uso de PrEP —, isso não significa que exista uma política efetivamente desenhada para alcançá-los de forma ampla e contínua. Na prática, o acesso permanece desigual.

A baixa cobertura vacinal, somada às dificuldades de inserção nos serviços e à ausência de ações específicas, sustenta um quadro persistente de vulnerabilidade.

Carué observa que, embora existam possibilidades formais de acesso, ainda não há uma política estruturada especificamente para homens trans no enfrentamento do HPV.

Reconhecer é o primeiro passo para prevenir

Os dados epidemiológicos e os relatos do atendimento clínico convergem para a mesma conclusão: o HPV em homens trans não permanece invisível por falta de relevância — mas por falta de reconhecimento institucional.

Quando os serviços não acolhem, as diretrizes não nomeiam explicitamente essa população e os sistemas de informação falham em registrá-la, cria-se um ciclo de invisibilidade que alimenta o adoecimento evitável.

Neste Março Lilás, ampliar o debate sobre a prevenção do câncer de colo do útero também significa reconhecer quem historicamente foi deixado de fora dele.

Enfrentar o HPV entre homens trans exige mais do que ampliar a vacinação. Implica incluí-los explicitamente nas diretrizes de rastreamento, qualificar profissionais de saúde, adaptar fluxos de atendimento e produzir dados capazes de orientar políticas públicas mais justas e efetivas.

Sem isso, a prevenção continuará falhando justamente com quem mais precisa ser visto.

Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)

Estagiária em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

Dica de entrevista

Carué Contreiras

E-mail: carue.contreiras@crt.saude.sp.gov.br

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