Guia reúne diretrizes para ampliar inclusão e empregabilidade em um mercado ainda marcado por desigualdades estruturais
Em um cenário em que a inclusão da população LGBTI+ ainda esbarra em barreiras estruturais, foi lançado, nesta semana, em São Paulo, o Manual de Empresas e LGBTI+, iniciativa que busca transformar diretrizes de diversidade em práticas concretas no mercado de trabalho. A publicação reúne conceitos, orientações e experiências voltadas à construção de ambientes corporativos mais inclusivos e à ampliação da empregabilidade no país.
O lançamento, realizado na sede do Ministério Público do Trabalho (MPT), reuniu representantes da Aliança Nacional LGBTI+, do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+, além de lideranças do poder público, do setor privado e da sociedade civil. Em comum, as falas apontaram que, apesar de avanços institucionais e maior visibilidade, a inclusão no mercado formal ainda é limitada — sobretudo para pessoas trans — e distante de garantir permanência, segurança e desenvolvimento profissional.

MPT destaca papel de transformação social
Na abertura do evento, a procuradora do trabalho Tatiana Amormino destacou o papel do MPT como agente de transformação social, defendendo uma atuação que vá além da responsabilização e avance na construção de soluções coletivas. Segundo ela, ambientes de trabalho inclusivos não se restringem a uma agenda de direitos, mas também dizem respeito à própria sustentabilidade das empresas. “Uma empresa em que as pessoas precisam esconder quem são perde potencial”, afirmou.
A avaliação foi reforçada pelo magistrado Roberto Vieira Rezende, que ressaltou avanços institucionais e a importância da visibilidade. Ele lembrou que, décadas atrás, não era possível tratar abertamente de orientação sexual no Judiciário — um cenário que, embora ainda em transformação, começa a se alterar.
Apesar disso, Roberto alertou para retrocessos e episódios recentes de violência e discriminação, enfatizando a necessidade de vigilância constante. Ainda assim, apontou para uma trajetória de avanço: “Há aqueles que querem fazer o mundo retroceder, mas é impossível deter o avanço”.
Baixa inserção no mercado escancara desigualdades
Dados apresentados pelo procurador Igor Sousa Gonçalves dimensionaram o tamanho do desafio. Mais da metade das pessoas LGBTI+ não se sente segura para se assumir no ambiente de trabalho, enquanto a inserção de pessoas trans no mercado formal segue extremamente baixa.
Estudos citados por ele indicam que, na cidade de São Paulo, apenas 13,9% dessa população está no mercado formal. Em nível nacional, as estimativas apontam índices ainda menores, com predominância de informalidade e obstáculos à ascensão profissional.
Outro ponto crítico destacado foi a concentração de oportunidades em grandes centros urbanos. Políticas de inclusão, segundo Igor, ainda são pouco descentralizadas, o que leva muitas pessoas LGBTI+ a migrarem para estados como São Paulo e Rio de Janeiro em busca de trabalho. “Isso cria um problema social, com pessoas chegando sem acesso a direitos básicos”, alertou.
Ao final de sua apresentação, o procurador apontou a ausência de contratação após a formação como um dos principais gargalos. O MPT, segundo ele, tem desenvolvido iniciativas voltadas à empregabilidade, incluindo projetos de capacitação que já formaram centenas de pessoas trans e em situação de vulnerabilidade. Ainda assim, destacou a necessidade de maior engajamento do setor privado. “Não adianta capacitar se as empresas não contratam”, afirmou, ao explicar que o projeto passou a atuar diretamente na articulação com empresas para viabilizar contratações efetivas.

Manual busca orientar e combater desinformação
Abrindo a segunda mesa, o diretor-presidente da Aliança Nacional LGBTI+, Toni Reis, apresentou um relato marcado por memória, emoção e militância, conectando sua trajetória pessoal à construção de políticas públicas. Em sua fala, destacou o manual como ferramenta de educação e enfrentamento à desinformação.
“O preconceito nasce muitas vezes da informação distorcida. Por isso, sistematizar conhecimento é fundamental”, afirmou.
Reis relembrou episódios de discriminação vividos na infância e destacou mudanças sociais ao longo das décadas, inclusive no ambiente familiar. “A sociedade pode mudar”, disse, ao narrar como sua mãe, inicialmente contrária à sua orientação sexual, passou a apoiá-lo.
A publicação integra uma série mais ampla de 28 manuais, reunidos sob o título de Enciclopédia LGBTI+, que aborda temas como educação, comunicação, direitos e interseccionalidade. No recorte específico das empresas, o guia enfatiza que a inclusão não se limita à contratação.
“A inclusão não se encerra no momento da admissão. É preciso garantir permanência, segurança, reconhecimento e desenvolvimento profissional”, afirmou Toni.
Durante sua exposição, ele também alertou para os riscos de ambientes corporativos despreparados, que podem gerar discriminação, frustração e até evasão de trabalhadores LGBTI+. Outro ponto de atenção é a adoção de iniciativas superficiais, como campanhas pontuais que não se traduzem em mudanças estruturais.

Movimento empresarial como parte da solução
Na sequência, Reinaldo Bulgarelli, secretário executivo do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+, situou historicamente o engajamento empresarial com a pauta dos direitos humanos. Ele relembrou o percurso iniciado nas décadas de 1980 e 1990, quando organizações começaram a se estruturar em torno da responsabilidade social corporativa.
“O ambiente empresarial percebeu que gera impactos e que pode ser parte da solução”, afirmou.
Segundo Bulgarelli, esse movimento foi construído de forma coletiva, envolvendo empresas, Estado e sociedade civil, muitas vezes em processos marcados por diálogo e tensão. Ainda assim, destacou que o respeito aos direitos humanos deve ser compreendido como um princípio básico e estruturante, independentemente de posicionamentos políticos.
Para ele, o Manual de Empresas e LGBTI+ sintetiza esse esforço conjunto ao oferecer ferramentas práticas para transformar compromisso em ação e avançar na construção de ambientes de trabalho mais inclusivos.
Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)
Estagiária em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dica de entrevista
Aliança Nacional LGBTI+
Site: www.aliancalgbtil.org.br




