Manual conta histórias reais para chamar atenção sobre direitos LGBT no ambiente de trabalho

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01/10/2014 – 20h30

“O RH não sabia, porém, como lidar com Alana. Sequer sabia se a trataria como Alaor ou Alana. Como seria seu crachá? Continuaria como Alaor e com foto masculina? Qual banheiro frequentaria? Poderiam manter seu e-mail, já que os clientes não veriam quem estava por trás da comunicação? Nos contatos tefefônicos, a voz seria de uma mulher e o nome de um homem?”

Essas questões fazem parte da história real de Alana Silva, 43 anos, analista sênior do setor financeiro de uma empresa de seguros. Ela saiu de férias como Alaor e aproveitou para assumir a identidade que sempre desejou. Na volta ao trabalho, ligou no RH avisando que não retornaria como Alaor e, sim, como Alana. Foi assim que suscitou as questões do parágrafo anterior e, ela mesma, acabou contribuindo para abrir na empresa o espaço adequado para a diversidade.

A trajetória de Alana faz parte do manual “Promoção dos Direitos Humanos de Pessoas LGBT no Mundo do Trabalho”, lançado em São Paulo, pelas Organizações das Nações Unidas (ONU). Está num capítulo com o título "Nasceu Alaor, mas agor é Alana – a história de uma mulher transexual num ambiente de trabalho". Há outras três: a de Ronaldo, um homem que se assume gay no trabalho;  Meire,  lésbica e sindicalista, e Carlos, que vive com HIV.

Cada capítulo sugere, no fim, reflexões a serem feitas individualmente ou em grupo, dentro do ambiente corporativo, por sindicatos, entidades. O objetivo é ajudar a promover os direitos humanos da população de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais (LGBT) dentro das empresas.

Durante o lançamento, no Instituto Carrefour, Beto de Jesus, da Txai Consultoria e Educação, idealizadora do projeto, chamou a atenção para o quanto é necessário toda a sociedade se envolver na defesa dos direitos humanos LGBT. Ele lembrou da importância da atuação do ativismo brasileiro junto à ONU para fazer a organização aprovar resoluções contra a discriminação em função da orientação sexual.

“Se eu fosse resumir a missão da ONU em algumas palavras elas seriam: promoção dos direitos humanos”, disse Laís Abramo, diretora da Organização Internacional do Trabalho ( OIT) no Brasil.

Laís destacou a importância de os trabalhadores terem um ambiente livre de discriminação e de qualquer violência. “O trabalho é fundamental para a vivência plena da cidadania”, disse. “Infelizmente, as pessoas LGBT ainda são excluídas.”

A diretora da OIT também disse que o fato de no Brasil não existir lei que criminalize a homofobia acaba estimulando a impunidade.

Rogério Sottili, secretário municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, considerou que, a despeito de atitudes homofóbicas de alguns políticos, o Brasil tem avançado nas questões dos direitos LGBT. Ele citou o lançamento da campanha Livres & Iguais, na qual o manual está inserido, na cidade de São Paulo, em maio deste ano, e alguns projetos da prefeitura que contemplam as causas LGBT.

Carlos Magno, presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), lembrou que o trabalho é a sobrevivência e, por isso, é importante um manual que trabalhe com a sensibilização dos empresários e do poder público. “O preconceito só legitima a desiguladade”, disse Magno.

Representando o Fórum de Empresas e Direitos LGBT, Adriana Ferreira, líder de Diversidade & Inclusão da IBM Brasil, se disse honrada em fazer parte do processo de elaboração do manual, junto com outras representações de vários movimentos sob a coordenação da Txai. “ Temos de educar nossos líderes. Esse manual serve para olharmos para ele e ver por onde começar.”

Para Renata Seabra, secretária-executiva da Rede Brasileira do Pacto Global, representando os mais de 600 signatários da iniciativa no Brasil, o tema LGBT ainda é tabu. “E para mudar a realidade, antes de mais nada temos de fazer a transformação dentro de nós. A aceitação precisa vir do coração.”

Cartazes

Reinaldo Bulgarelli, da Txai, explicou que, para dar mais realidade ao projeto resolveram fazer cartazes (foto) com pessoas também reais falando de sua relação com o trabalho. Você pode ver todos os cartazes aqui.

E pode baixar o manual completo aqui.

Fátima Cardeal (fatima@agenciaaids.com.br)

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