MANOEL CARLOS, AUTOR DE ‘PÁGINAS DA VIDA’ (TV GLOBO), SE PRONUNCIA SOBRE A POLÊMICA EM TORNO DA NOVELA DAS OITO; O PERSONAGEM SOROPOSITIVO FOI COLOCADO NA TRAMA COMO UMA FORMA DE ADVERTÊNCIA A FALSA IDÉIA DE CURA, EXPLICA O AUTOR

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17/12/2006 – 10h50

Crédito: Willian Andrade/TV Globo

Após quase uma semana de polêmica, o autor da novela “Páginas da Vida” se pronuncia sobre a maneira como foi tratado o tema da Aids no folhetim da TV Globo. “O AZT e os coquetéis de drogas deram às pessoas uma falsa idéia de cura. O personagem foi colocado como uma advertência, pois uma novela pode fazer mais por uma causa do que as mensagens do Ministério da Saúde”, explica Manoel Carlos em matéria publicada pela Revista TV de hoje. A revista circula todo domingo junto com o jornal O Globo.

Em uma cena exibida na última segunda-feira (11/12), o médico Diogo (interpretado por Marcos Paulo) afirma que um paciente está infectado pelo HIV apenas baseado em características físicas. Além disso, o infectologista decide fazer o teste de Aids contrariando a vontade do paciente. No dia seguinte, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) divulgou nota de “repúdio” ao modo como a vítima ficcional da pandemia foi tratada na novela. “Entendemos que uma emissora com a responsabilidade social da Rede Globo deva estar melhor assessorada quando veicular assuntos médicos em sua programação”, afirma trecho da nota. O diretor da SBI, Dr. Juvencio Furtado, garantiu que conduta do médico da trama é anti-ética ao afirmar que o paciente possui Aids sem mostrar comprovação de exames e baseado apenas em características físicas.

Nos dias seguintes, infectologistas e ativistas manifestaram seu descontentamento com a novela da TV Globo. “O procedimento [encenado na novela ‘Páginas da Vida’] é totalmente anti-ético. Ele fere o princípio básico, número um da bio-ética moderna que é a autonomia. Não existe mais a possibilidade de o médico dirigir o tratamento, impor normas… Isso é abominável”, protesta o infectologista Caio Rosenthal.

“Essa abordagem existe, não está fora da realidade, mas é anti-ética. Todos os exames feitos com um paciente, desde que ele esteja lúcido, precisam de autorização, tanto para fazer o exame como para o tratamento. Fazer exames sem autorização é uma prática dos anos 70, da época da ditadura. Todo exame é informado. Se o paciente disser que não, é não”, explica o infectologista Robinson Camargo, do Serviço de Assistência Especializada (SAE) em DST/Aids Sapopemba, na zona leste de São Paulo. Abaixo, a matéria da Revista TV, que circula todo domingo junto com o diário carioca O Globo.

O portador

Preocupado com avanço da Aids no mundo inteiro, o autor Manoel Carlos decidiu tratar do assunto há um ano e meio, quando começou a escrever a sinopse de “Páginas da vida”. Por isso, criou o personagem soropositivo Gabriel (Miguel Lunardi), que entrou na trama semana passada. Segundo Maneco, todos os motivos para abordar a doença já foram postos nas falas do médico Diogo (Marcos Paulo), infectologista que cuidou de portadores do vírus HIV nos campos de refugiados do Burundi, na África.

— O AZT e os coquetéis de drogas deram às pessoas uma falsa idéia de cura. O personagem foi colocado como uma advertência, pois uma novela pode fazer mais por uma causa do que as mensagens do Ministério da Saúde — diz o autor.

Para não ficar no didatismo, o soropositivo vai se apaixonar pela irmã Lavínia (Letícia Sabatella), mas não será correspondido: uma história que o autor diz conhecer na vida real. No entanto, Gabriel não aparecerá em estado terminal.

— Pretendo que ele fique muito mal, mas que a novela termine com ele em recuperação, com esperança de viver bastante, aguardando a cura definitiva, que acredito que virá um dia — conta Maneco.

Quando a preconceituosa Irmã Maria (Marly Bueno) descobrir que Gabriel é soropositivo, ela o expulsará da clínica Santa Clara de Assis. Mas Lavínia o esconderá na clausura.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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