Manifestações em SP precederam a Parada do Orgulho LGBT+ – Folha de S. Paulo

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Protesto no Teatro Municipal foi primeiro ato público em defesa do público
O Ferro’s Bar, na Bela Vista, serviu de palco para uma rebelião de lésbicas em 1983

Nestes tempos de Parada do Orgulho LGBT+, marcada para o próximo dia 7 de junho, dois acontecimentos históricos em São Paulo vêm à mente. O primeiro é a manifestação gay e de outras minorias, ocorrida em 13 de junho de 1980 em frente ao Theatro Municipal, considerada o primeiro ato público do movimento LGBTQIA+ brasileiro. O outro, registrado em 19 de agosto de 1983, é o Levante do Ferro’s Bar, lugar frequentado majoritariamente por lésbicas.

Os dois eventos são chamados de Stonewall brasileiro, em referência aos protestos que aconteceram em Nova York em 28 de junho de 1969 e abriram caminho para a luta pelos direitos da comunidade LGBT, então perseguida implacavelmente e criminalizada. No Brasil, durante a ditadura militar, gays, lésbicas, travestis e pessoas negras estavam sempre sob a mira da polícia e eram alvos de prisão arbitrária. Por aqui, a luta em favor da diversidade sexual ganhou forma dez anos depois do que nos Estados Unidos.

Manifestação de gays no Teatro Municipal
A manifestação do Theatro Municipal foi um protesto contra a chamada Operação Limpeza, comandada pelo truculento delegado José Wilson Richetti, que resultou na prisão de 1.500 pessoas LGBT e negras no centro de São Paulo nos dias anteriores. O ato público teve cerca de mil participantes, que se concentraram nas escadarias do teatro e depois saíram em passeata pelas ruas da região.

Os participantes reivindicavam o fim da violência policial e da discriminação sexual e racial, a destituição do delegado, conhecido pela perseguição às minorias, e o direito de ir e vir. Organizações de esquerda e do movimento feminista, o MNU (Movimento Negro Unificado) e o grupo Somos, pioneiro na militância homossexual, estiveram presentes no ato, acompanhados de perto pela polícia. Todos gritavam “Abaixo a repressão, mais amor e mais tesão”.

Levante do Ferros’Bar
O Levante do Ferro’s Bar, ocorrido três anos depois, também lutava contra a opressão. Dessa vez, porém, o estopim foi uma decisão do dono do estabelecimento de proibir sumariamente a circulação em suas dependências do jornal Chana com Chana, produzido pelo Galf (Grupo de Ação Lésbica Feminista). Apoiadas por gays, feministas e políticos progressistas, elas invadiram e ocuparam o espaço para ler um manifesto contra a repressão e o preconceito.

Houve alguma resistência dos funcionários do bar, mas foi impossível conter as mulheres indignadas com o fato de o dono do lugar onde gastavam seu dinheiro e exercitavam sua liberdade tomar uma decisão arbitrária. No dia seguinte, a distribuição do periódico foi liberada. O ato tirou as lésbicas da clandestinidade e foi um passo fundamental para que se organizassem politicamente. Em 5 de novembro de 1980, 200 mulheres haviam sido presas na região em torno do Ferro’s Bar na chamada Operação Sapatão, também comandada por Richetti.

Fachada do antigo Ferros’Bar
O Ferro’s Bar era um ambiente de tolerância. Fui lá algumas vezes tomar uma cerveja nos meus tempos de universidade. Apesar de ser um ponto de encontro de lésbicas, tinha um público diversificado. Ficava na rua Martinho Prado, na Bela Vista, bem em frente ao Museu Judaico de São Paulo. Hoje, a discreta construção serve de vestiário e espaço de descanso para os garçons e cozinheiros que trabalham nos restaurantes da rua Avanhandava.

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