Eliminar a transmissão vertical do HIV — quando o vírus é passado de mãe para filho durante a gestação, o parto ou a amamentação — já é realidade em mais de 20 países e territórios ao redor do mundo. Desde que a Organização Mundial da Saúde (OMS) iniciou o processo de validação, em 2015, diferentes regiões vêm acumulando conquistas históricas, provando que é possível zerar as infecções em crianças com políticas públicas bem estruturadas e acesso universal ao tratamento. Na semana das Crianças, a Agência Aids relembra os países que foram certificados.
O marco inicial veio em 2015, quando Cuba se tornou o primeiro país do planeta a eliminar a transmissão vertical tanto do HIV quanto da sífilis congênita. O feito, reconhecido pela OMS, abriu caminho para outras nações, especialmente no Caribe e na Ásia. No ano seguinte, Tailândia, Belarus e Armênia também alcançaram a validação.
Nos anos seguintes, o grupo cresceu com *Malásia (2018), Maldivas (2019), Sri Lanka (2019), e uma série de pequenos territórios caribenhos, como Anguilla, Antígua e Barbuda, Bermuda, Ilhas Cayman, Montserrat e São Cristóvão e Névis. Mais recentemente, a lista ganhou Dominica (2020), Omã (2022), Belize (2023), Jamaica (2024) e São Vicente e Granadinas (2024).
Em contextos de alta prevalência, a OMS também criou uma categoria especial, o “Path to Elimination” (Caminho para a Eliminação), que reconhece países que atingiram avanços significativos, mesmo sem cumprir todos os critérios formais. É o caso de Botsuana e Namíbia, na África — nações que conseguiram reduzir drasticamente as novas infecções em bebês, servindo de exemplo para o continente.
A validação da OMS não significa que o vírus desapareceu completamente, mas que o país atingiu níveis tão baixos de transmissão que a infecção infantil deixou de ser um problema de saúde pública. Para isso, é preciso cumprir metas rigorosas: menos de 50 novas infecções por 100 mil nascidos vivos e taxa de transmissão inferior a 2% entre mães vivendo com HIV, além de altos índices de testagem, tratamento e acompanhamento.
A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) destaca que as Américas foram a primeira região do mundo a implementar um plano regional de eliminação, em 2010. Graças a esse esforço conjunto, diversos países caribenhos avançaram mais rápido. Já na África, o progresso é expressivo, mas o desafio permanece: o continente ainda concentra mais de 80% das crianças vivendo com HIV globalmente.
Especialistas ressaltam que as conquistas são fruto de décadas de investimento em testagem pré-natal, tratamento antirretroviral universal para gestantes e acompanhamento rigoroso dos recém-nascidos. Mas manter a eliminação requer vigilância constante.
“O sucesso de hoje não garante o de amanhã. É preciso sustentar os programas, garantir medicamentos, equipes treinadas e direitos das mulheres preservados”, alertou a diretora do Departamento Global de HIV da OMS, Meg Doherty, em recente comunicado.
São Paulo: pioneirismo latino-americano na eliminação da transmissão vertical
No Brasil, alguns Estados e municípios já receberam a certificação. Entre eles, a cidade de São Paulo alcançou um marco histórico ao se tornar a primeira metrópole da América Latina a eliminar a transmissão vertical do HIV, segundo critérios reconhecidos pela Organização Mundial da Saúde. O resultado é fruto de mais de três décadas de políticas públicas contínuas e de um sistema de vigilância e cuidado que integra testagem, acompanhamento pré-natal e tratamento gratuito e universal.
Na websérie “HIV 40 Anos: Aids e Suas Histórias – Transmissão Vertical, um Assunto Proibido”, a coordenadora da Coordenadoria Municipal de IST/Aids de São Paulo, Maria Cristina Abbate, relembra os bastidores dessa conquista e o longo percurso que levou a capital paulista a atingir a meta de eliminação. “Esse resultado não veio do dia para a noite. Foi construído com equipes dedicadas, escuta das mulheres e um compromisso permanente com a vida”, afirma.
O caso de São Paulo é considerado exemplar por combinar ciência, gestão e mobilização social. A cidade mantém índices de testagem e tratamento entre gestantes vivendo com HIV superiores a 95%, o que praticamente zerou as infecções em recém-nascidos.
Enquanto novas nações se aproximam da meta, muitos países já mostram que o fim da transmissão vertical do HIV não é uma utopia. É uma meta possível — e cada vez mais próxima, quando há vontade política e compromisso com a saúde pública.
Redação da Agência de Notícias da Aids




