Pela primeira vez, o centro de São Paulo será ocupado por algo que o Brasil raramente vê — e que nunca deveria ter deixado de ver: o desfile, “Camisinha a gente pode usar, está disponível no SUS”, inteiramente protagonizado por mulheres vivendo com HIV, cis e trans, que colocam seus corpos e suas narrativas no espaço público como gesto político, estético e profundamente humano.
No próximo 1º de dezembro, dentro da mostra “Mais Arte, Menos Aids 2025”, quatro mulheres que vivem com HIV atravessarão a Praça da Sé como quem rompe um silêncio histórico. Elas não caminham apenas pela arte ou pela moda. Caminham para reescrever o imaginário sobre o HIV, mostrar que há vida, trabalho, maternidade, envelhecimento, desejo, afeto, cidadania e potência onde o estigma tentou impor medo.
As peças que compõem o desfile foram criadas pela artista plástica Adriana Bertini, que há quase três décadas transforma preservativos em arte e educação.
A atividade integra a programação do Projeto Contato, do Sesc São Paulo, e acontecerá em dois momentos, às 11h e às 15h30. É um convite aberto para que a cidade reconheça, respeite e celebre essas vidas — e todas as outras que constroem, diariamente, a luta contra o HIV/Aids.
As protagonistas
Silvia Almeida — 61 anos, aposentada, Miss Pessoa Vivendo com HIV 2025
Viver com HIV há quase três décadas fez de Silvia uma referência de coragem e acolhimento. Diagnosticada em 1993, no auge da epidemia, ela encontrou no ambiente de trabalho algo raro para a época: apoio. A força que recebeu transformou-se em motivação para informar, acolher e educar colegas, famílias e comunidades inteiras.
Ao longo dos anos, Silvia virou voz ativa na prevenção, premiada por seu trabalho em responsabilidade social e reconhecida por transformar dor em ação. Eleita Miss PVHA 2025, ela representa com firmeza a possibilidade — e a beleza — de envelhecer vivendo com HIV.

Sílvia Almeida | Foto: Acervo Pessoal
Jenice Pizão — 65 anos, professora aposentada, doutora em Educação e fundadora do MNCP
Diagnosticada em 1990, Jenice atravessou os anos mais duros da epidemia. Professora, pesquisadora e uma das fundadoras do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, dedicou sua vida à defesa dos direitos das mulheres que vivem com HIV.
Mãe, avó e militante incansável, ela ajuda a construir políticas, fortalecer redes e combater desinformação. Sua história é marcada pela luta contra o estigma, pela afirmação da autonomia reprodutiva das mulheres e pela certeza de que informação salva vidas.

Jenice Pizão
Lua Mansano — produtora audiovisual, travesti posiTHIVamente viva
De Ourinhos, Lua construiu sua trajetória entre comunicação, ativismo e orgulho trans. Na internet, tornou-se referência ao falar, com didática e afeto, sobre mercado de trabalho, identidade e viver com HIV. Carrega o reconhecimento de TOP Voice no LinkedIn e uma atuação dedicada a fortalecer outras travestis e mulheres trans.
Lua acredita no poder da troca e da representatividade. Para ela, ver corpos trans vivendo com HIV ocupando espaços públicos — como este desfile — é parte do processo de reconstruir vínculos com a saúde, com o cuidado e com a própria comunidade.
Lua Mansano | Foto: LinkedIn
Carolina Iara — 32 anos, travesti, negra, intersexo, co-deputada estadual de São Paulo
Carolina é pesquisadora, moradora da periferia, parlamentar da Bancada Feminista do PSOL e um dos nomes mais potentes da política contemporânea paulista. Cresceu na zona leste cercada por movimentos de resistência e encontrou no ativismo a força para enfrentar as violências que marcaram sua trajetória, da destransição forçada ao diagnóstico de HIV.
Ao retomar sua identidade e reconstruir sua vida, Carolina transformou sua experiência em luta coletiva. Hoje, atua pela defesa das pessoas trans, intersexo, periféricas e vivendo com HIV, reafirmando que dignidade e afeto também são direitos humanos inegociáveis.

Carolina Iara
Um desfile que fala de saúde, mas também de futuro
Ao atravessarem a Praça da Sé, essas quatro mulheres levam muito mais que roupas feitas de preservativos. Levam narrativas inteiras: de sobrevivência, educação, autocuidado, espiritualidade, política, maternidade, trabalho e comunidade.
Em um país que ainda naturaliza violências contra pessoas trans e onde o estigma segue afetando diagnósticos tardios e afastando pessoas da testagem, ver mulheres cis e trans vivendo com HIV ocupando um dos espaços mais simbólicos de São Paulo é, também, um ato de prevenção.
Prevenção que passa pela informação, pelo exemplo, pelo cuidado coletivo e pela coragem de existir plenamente.
Programação completa
Além do desfile, o público terá acesso a uma série de atividades que ocupam a praça como território de cultura, prevenção e cidadania.
Exposições
- I Festival Internacional de Humor em DST e Aids
18 cartoons selecionados entre mais de 1.300 obras de 54 países, trazendo humor crítico e inteligente para pensar saúde pública. - Mostra “Indetectável=Zero (I=0)”
Depoimentos e retratos de pessoas com carga viral indetectável, reforçando a mensagem central da resposta ao HIV: quem trata não transmite.
Ações de Saúde Comunitária
- Instituto Cultural Barong:
testagem rápida para HIV, sífilis e hepatites B e C; distribuição de preservativos; orientações sobre prevenção combinada. - Projeto PrEP na Rua – Coordenadoria Municipal de IST/Aids:
informações acessíveis, insumos, escuta e acesso facilitado à PrEP — direto no espaço público, sem barreiras.
Auditório Público ao Ar Livre
Um debate aberto, direto com o público, conduzido por:
– Guggaã Taylor — psicóloga, ativista, vivendo com HIV há 30 anos
– Dra. Mafê Medeiros — infectologista do Instituto Emílio Ribas
O encontro aborda cuidado, saúde mental, prevenção, direitos e as múltiplas formas de viver — e viver bem — com HIV.
Neste ano, o projeto “Mais Arte, Menos Aids”, iniciativa da Agência de Notícias da Aids em parceria com o Sesc Carmo, conta com apoio da Coordenadoria Municipal de IST/Aids de São Paulo, das farmacêuticas Gilead, GSK/ViiV Healthcare e da Casa Gil Gondim. A programação oferece ao público uma experiência múltipla que une arte, saúde, informação, acolhimento, memória e direitos.
Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)
Estagiário em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dicas de entrevista:
Silvia Almeida
Instagram: silviaadalmeida
Jenice Pizão
Instagram: jpizao
Lua Mansano
Instagram: luamansano
Carol Iara
Instagram: acarolinaiara




