Festival Contato: “Mais Arte, Menos AIDS 2025” é palco de prevenção, desfile, testagem e celebração da vida no Dia Mundial da Luta Contra a Aids

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Em uma intervenção inédita, artistas, ativistas, profissionais de saúde e a população que cruzou o Marco Zero de São Paulo compartilharam histórias, fizeram testagem, retiraram insumos de prevenção e transformaram o centro da capital em um ato vivo contra o estigma.

O Marco Zero de São Paulo amanheceu diferente neste 1º de dezembro de 2025. No Dia Mundial da Luta contra a AIDS, que marca também os 40 anos da resposta brasileira à epidemia, a Praça da Sé foi tomada por cores, música, arte, prevenção e histórias que insistem em viver.

Centenas de pessoas circularam pelo espaço ao longo do dia, participaram de testagem rápida, retiraram insumos de prevenção, acompanharam intervenções artísticas e assistiram a um desfile histórico assinado pela artista plástica Adriana Bertini, reunindo mulheres cis e trans vivendo com HIV em um ato de orgulho, visibilidade e enfrentamento ao estigma. A ação integra o Festival Contato: Mais Arte, Menos AIDS 2025, realizado Sesc São Paulo em parceria com a Agência Aids e a Coordenadoria Municipal de IST/AIDS de São Paulo.

Para apresentar uma programação diversificada, a iniciativa contou com o apoio do Sesc São Paulo, da Coordenadoria Municipal de IST/Aids de São Paulo, das farmacêuticas Gilead e GSK/ViiV Healthcare e da Casa Gil Gondim.

A arte que abre caminhos e anuncia vidas

A jornalista Roseli Tardelli, diretora da Agência AIDS e idealizadora da mostra, abriu a atividade lembrando que a arte sempre foi a ponte mais potente para falar de vulnerabilidade e direitos.

“Esse desfile, tudo o que está acontecendo na Praça da Sé, está fazendo o papel de informar para que a informação e a prevenção cheguem antes que o HIV”, afirmou, destacando a importância de levar o debate ao espaço público, à luz do dia, diante de todas as pessoas.

Foi nesse espírito que o desfile “Camisinha: a gente pode usar, está disponível no SUS”, com peças confeccionadas a partir de preservativos reaproveitados, tomou o centro da cidade. As roupas assinadas por Adriana Bertini, que há quase três décadas transforma materiais descartados em arte e diálogo, vestiram mulheres que protagonizam a luta por direitos e prevenção.

Presente no evento, a co-deputada Carolina Iara, resumiu o significado simbólico de ocupar aquele espaço justamente hoje.

“Estamos em mais um dia, primeiro de dezembro, Dia Mundial da Lutra Contra a Aids. Esse ano faz 12 anos que eu me diagnostiquei com HIV, 12 anos também que eu fui acolhida pelo movimento de HIV/Aids. Nós tivemos muitos avanços. Conseguimos melhorar nossa medicação, conseguimos melhorar a prevenção.”

Carolina Iara durante o evento na Praça da Sé

Carolina também defendeu o licenciamento compulsório para baratear novas tecnologias, como o lenacapavir, e insistiu na responsabilidade coletiva diante do estigma:

“Ainda hoje nós temos jovens ou pessoas com mais idade que se infectam com HIV e acham que vão morrer logo. Sendo que nós já temos uma resposta biomédica muito eficaz, e isso ainda não está nítido para a população. Ainda tem muito preconceito”.

A co-deputada concluiu lembrando que o compromisso com a saúde pública deve ultrapassar fronteiras:

“Mesmo não estando em alguns estados, nós estamos lutando para que essas políticas públicas cheguem em todas as pessoas”.

Já a travesti e produtora audiovisual Lua Mansano, que vive com HIV desde 2019, tocou o público ao relatar sua trajetória de descoberta, acolhimento e construção de voz pública.

“Eu conheci o HIV em 2019, num momento em que eu estava começando a descobrir a minha transgeneridade. A minha reação foi chorar, porque eu acreditava que não ia poder viajar para certos países. Mas esses países que proíbem pessoas vivendo com HIV também produzem o estigma contra pessoas trans. Então, definitivamente, não quero ir para esses lugares.”

Lua Mansano durante o evento na Praça da Sé

Lua contou que só tornou pública sua sorologia em 2021, após refletir profundamente sobre seu lugar e seu impacto.

“Eu guardei isso por alguns anos porque eu sabia que um dia eu iria abrir o fato de que eu sou uma pessoa vivendo com HIV. Falar com pessoas vivendo com HIV me curou. Me curou do autoestigma.”

A criadora também relembrou trabalhos como a participação na série “Deu Positivo”, da MTV, e a colaboração na pesquisa Stigma Index.

“Eu pude reconhecer o valor de pessoas que vivem com HIV e que estão na luta há muito tempo.”

Silvia Almeida e o trabalho pela prevenção

Vivendo com HIV desde 1994, a aposentada Silvia Almeida trouxe a perspectiva de quem acompanha a epidemia há três décadas.

“No início de 90, quando o HIV chegou, a gente achava que existia um grupo de risco. O HIV entrou na minha vida em 1994, eu casada há 15 anos, e eu não era grupo de risco. Então comecei a entender que havia algo errado na prevenção.”

Silvia Almeida durante o evento na Praça da Sé

Silvia destacou o nascimento do movimento Cidadãs Posithivas e a importância de seguir falando sobre prevenção combinada:

“Eu sou muito feliz vivendo com HIV, mas não é fácil tomar medicação. A gente avançou muito, mas falta continuar falando de camisinha, de saúde sexual e reprodutiva, falta eliminar o estigma da sexualidade e do gênero. Somos todos vulneráveis.”

A vulnerabilidade e as desigualdades”

Referência no Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, Jenice Pizão reforçou que a epidemia só poderá ser superada com enfrentamento das desigualdades estruturais.

“A vulnerabilidade da mulher está ligada à desigualdade de raça, às desigualdades sociais, econômicas, educacionais. E ao etarismo. As mulheres com mais de 40, 50 anos parecem esquecer que podem se infectar. Se eu tenho estigma e preconceito, como vou pensar que estou em vulnerabilidade?”

Jenize Pizão durante o evento na Praça da Sé

Jenice também lembrou a potência do SUS e a necessidade de acesso equitativo às novas tecnologias de prevenção e tratamento:

“O Brasil disponibiliza através do SUS tecnologias de prevenção e boas políticas. O que precisamos é enfrentar o estigma e o preconceito e baratear os medicamentos novos, com menos efeitos colaterais, para que todas nós possamos ter essa possibilidade.”

Exposições, testagem e cuidado comunitário: a cidade como sala de aula pública

Além do desfile, o público que passou pela Sé encontrou duas exposições organizadas pelo Ministério da Saúde:

“I Festival Internacional de Humor em DST e AIDS”, com 18 cartoons selecionados entre mais de 1.300 trabalhos de 54 países.

Exposição “Indetectável=Zero (I=0)”, com fotos e depoimentos de pessoas vivendo com HIV e em tratamento contínuo.

Exposição “Indetectável=Zero (I=0)”

A equipe do Instituto Cultural Barong realizou testagens rápidas para HIV, sífilis e hepatites B e C, além de distribuição de preservativos, gel lubrificante e orientações completas sobre prevenção combinada. Foram mais de 100 (cem) testes de HIV realizados durante o evento.

Já o projeto PrEP na Rua, da Coordenadoria de IST/AIDS, levou ao público aquilo que muitas vezes falta: acesso simples, direto e sem barreiras.

Instituto Cultural Barong e Coordenadoria e IST/Aids de São Paulo presentes no evento

Tecnologia, cuidado e acolhimento: Cristina Abbate destaca o compromisso da cidade

A coordenadora municipal de IST/AIDS, Cristina Abbate, reforçou a importância de levar os serviços para onde as pessoas estão.

“Temos tido diariamente essa ação de trazer aos espaços públicos a oferta de serviços. É importante que o serviço de saúde venha até eles.”

Cristina também apresentou as estratégias inovadoras implementadas pela Prefeitura:

“Temos máquinas que dispensam PrEP e PEP, e hoje estamos lançando armários que vão dispensar autoteste. Quanto antes a pessoa sabe se tem o vírus, ela pode imediatamente iniciar o tratamento e com isso ela não vai transmitir.”

Cristina Abbate fala com a Agência Aids

Para ela, a prevenção precisa ser plural e acessível:

“Qual a melhor prevenção? Aquela que a pessoa escolhe. Oferecer tratamento de qualidade e serviços abertos na cidade tem feito São Paulo reduzir os novos casos de HIV. Já eliminamos a transmissão vertical e estamos caminhando de forma contundente para eliminar o HIV como agravo à saúde pública.”

Um 1º de dezembro que reafirma: a informação salva e a arte aproxima

A Praça da Sé viveu hoje um dia raro: de encontro, de escuta, de memória e de futuro. O Festival Contato transformou o centro da capital em território de prevenção e cultura, mostrando que viver com HIV é compatível com saúde, beleza, presença e cidadania, e que o estigma só será superado quando a sociedade inteira assumir o compromisso.

No 1º de dezembro que marca 40 anos da resposta brasileira, a mensagem foi clara: a arte continua sendo uma das ferramentas mais poderosas para salvar vidas, porque toca onde a política, sozinha, não alcança.

Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)

Estagiário em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

Apoios