Mais de 15 milhões (20,9%) de crianças, adolescentes e jovens adultos brasileiros de 5 a 29 anos convivem com pelo menos um transtorno mental, segundo a mais abrangente análise já feita sobre o tema no país.
Liderado pelo psiquiatra gaúcho Christian Kieling e publicado por um grupo de pesquisadores na revista The Lancet Regional Health – Americas, o trabalho é o primeiro a detalhar essa realidade por faixa etária, desde a infância até o início da vida adulta. O esforço é fruto da tese de doutorado de Claudia Buchweitz em Psiquiatria e Ciências do Comportamento na UFRGS.
Realizado com base em dados do Global Burden of Disease (o maior projeto científico internacional de medição de saúde do mundo), o estudo também aponta que 2,5 milhões de jovens no Brasil sofrem de algum transtorno associado ao uso de substâncias como álcool ou outras drogas.
A partir dos 15 anos, ansiedade e depressão ocupam o primeiro e o segundo lugar do ranking geral — à frente de qualquer doença física —, com impacto especialmente maior entre meninas e mulheres jovens.
Não se trata de “achismo”. O problema é real, está mapeado pela ciência e não pode ser negligenciado.
“Uma mensagem crucial deste estudo é a necessidade de se adotar ações de proteção à já na infância e na adolescência”, diz o Dr. Christian, ligado ao Instituto de Pesquisa do Hospital Moinhos de Vento, na Capital.
Como os problemas de saúde mental começam cedo, o especialista destaca que é fundamental criar oportunidades de prevenção e intervenções precoces, para evitar impactos ao longo de toda a vida.
Cuidado
O estudo traz ainda um retrato da mortalidade por suicídio entre jovens brasileiros.
A taxa de mortes por 100 mil habitantes aumenta de 1,24 entre 10 e 14 anos para 13,43 entre 25 e 29 anos. Em 2023 (dados do Global Burden of Disease), foram 5.402 mortes por suicídio entre 10 e 29 anos no Brasil, das quais 77% entre rapazes.
A estatística é um indicativo, segundo Claudia Buchweitz, da necessidade de políticas específicas de prevenção voltadas a jovens do sexo masculino, grupo historicamente pouco alcançado pelos serviços de saúde mental.
Falta de dados
Apesar da dimensão do problema, o estudo revela uma grande lacuna na produção de conhecimento: para estimar a situação de toda a população brasileira de 5 a 29 anos, o Global Burden of Disease contou com apenas 66 fontes de dados nacionais — a maioria concentrada nos Estados de São Paulo e do Rio Grande do Sul.
Praticamente não há dados de saúde mental infantojuvenil vindos das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Mesmo com fontes limitadas, os dados são contundentes e falam por si.



