O presidente Luiz Inácio Lula da Silva inaugurou neste sábado (23), no campus da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, a nova sede do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS/Fiocruz) e lançou o Centro de Desenvolvimento e Produção de Terapias CAR-T, iniciativas consideradas estratégicas para fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS), ampliar a soberania científica brasileira e reduzir a dependência de tecnologias importadas na área da saúde.
A visita marcou o encerramento das celebrações pelos 125 anos da Fiocruz, uma das principais instituições científicas da América Latina. Durante o evento, Lula defendeu o investimento público em ciência, tecnologia e inovação como instrumento de desenvolvimento nacional e de garantia de acesso universal à saúde.
“O lançamento dá ao Brasil a certeza de que não somos menos competitivos que ninguém”, afirmou o presidente. “Fazer investimento em pesquisa é uma coisa que nem todo mundo gosta de fazer, porque o resultado pode não ser positivo. Mas quanto custa o não fazer? Tudo aquilo que acrescentar conhecimento ao país merece investimento”, declarou.
Ao lado do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e do presidente da Fiocruz, Mario Moreira, Lula também destacou o papel do SUS na redução das desigualdades sociais. “O papel do Sistema Único de Saúde é fazer com que o povo mais humilde tenha o mesmo tratamento que o governador e o presidente da República”, disse.
Nova sede do CDTS amplia capacidade de inovação em saúde
Criado em 2002 com apoio do Ministério da Saúde, o CDTS atua na conexão entre pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico, buscando transformar descobertas acadêmicas em produtos e soluções para o SUS, como vacinas, medicamentos, testes diagnósticos e biofármacos.
Agora, o centro passa a funcionar em uma estrutura própria de 15 mil metros quadrados, construída com investimento de R$ 370 milhões. Outros R$ 35 milhões foram destinados à compra de equipamentos por meio do Programa para Ampliação e Modernização da Infraestrutura do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (PDCEIS), ligado ao Novo PAC.
O novo prédio contará com laboratórios compartilhados, centrais tecnológicas e sete co-labs destinados a parcerias com universidades, institutos de pesquisa e empresas nacionais e internacionais. A previsão é que os laboratórios comecem a operar em regime assistido em setembro de 2026, com funcionamento gradual a partir de janeiro de 2027.
Segundo o coordenador-geral do CDTS, Carlos Morel, a inauguração representa “um marco histórico, científico e tecnológico” para o país. “O Brasil ganha uma infraestrutura ímpar, planejada para estimular e fortalecer parcerias estratégicas para o SUS”, afirmou.

Antiviral contra dengue e Covid e próteses cranianas em 3D
Entre os projetos desenvolvidos pelo CDTS está o antiviral MB-905, candidato a medicamento para tratamento da Covid-19 e de arboviroses, como a dengue. O composto, desenvolvido integralmente no Brasil, avança para estudos clínicos de fase 1.
Outro destaque é um novo teste diagnóstico para doença de Chagas, desenvolvido em parceria com Bio-Manguinhos/Fiocruz e em preparação para submissão de registro sanitário.
O centro também coordena um projeto inovador de cranioplastia com impressão 3D. Mais de 200 pacientes já foram beneficiados experimentalmente com próteses cranianas personalizadas produzidas com cimento ortopédico, tecnologia voltada para vítimas de traumatismos, tumores cerebrais e outras lesões graves.
A Fiocruz também pretende consolidar, no âmbito do CDTS, a plataforma nacional de desenvolvimento de vacinas de RNA mensageiro (mRNA), considerada uma das principais fronteiras da biotecnologia mundial.
Fiocruz aposta em terapias CAR-T para tratamento de câncer
Durante a cerimônia, o governo federal também lançou o Centro de Desenvolvimento e Produção de Terapias CAR-T da Fiocruz, considerado um dos projetos mais ambiciosos da atual política de inovação em saúde.
A terapia CAR-T é uma forma avançada de tratamento oncológico em que células de defesa do próprio paciente são retiradas, modificadas geneticamente em laboratório e reinfundidas no organismo para atacar tumores. A tecnologia é utilizada principalmente em casos de leucemia, linfoma e mieloma.
Hoje, tratamentos comerciais desse tipo custam entre US$ 350 mil e US$ 400 mil por paciente nos Estados Unidos — o equivalente a mais de R$ 2 milhões. A expectativa do governo é que a produção nacional reduza o custo para até 10% do valor atual, permitindo futura incorporação ao SUS.
“O diferencial da Fiocruz é pensar o acesso da população”, afirmou Padilha. “Graças a essa estrutura, pessoas que hoje não teriam condições poderão receber gratuitamente um tratamento de altíssimo custo.”
A iniciativa conta com investimento de R$ 330 milhões e integra o Novo PAC. O projeto foi desenvolvido em parceria com a organização norte-americana sem fins lucrativos Caring Cross.

Tecnologia brasileira poderá reduzir dependência externa
O projeto brasileiro utiliza uma tecnologia conhecida como duoCAR-T triespecífico, capaz de reconhecer simultaneamente três alvos diferentes do câncer, aumentando a eficácia do tratamento.
Além da produção das células CAR-T, a Fiocruz também pretende fabricar nacionalmente os chamados vetores lentivirais, estruturas essenciais para a modificação genética das células do paciente e consideradas um dos componentes mais caros da terapia.
Com isso, o Brasil poderá dominar toda a cadeia produtiva da tecnologia, reduzindo a dependência de importações e ampliando o acesso aos tratamentos avançados.
Segundo a diretora de Bio-Manguinhos, Rosane Cuber, a produção local dos vetores é estratégica para garantir sustentabilidade econômica ao tratamento. “Bio-Manguinhos entrega uma solução que não apenas atende ao sistema público brasileiro, mas também posiciona o país como referência na América Latina em terapias avançadas”, afirmou.
A previsão é que os primeiros pacientes participem dos estudos clínicos no segundo semestre deste ano, em pesquisa liderada pelo Instituto Nacional de Câncer.

Homenagem a sanitaristas e entrega de veículos para o SUS
Durante a agenda, Lula também participou de uma homenagem a profissionais da saúde pública. O presidente entregou carteiras de registro profissional de sanitarista, regulamentado pela Lei nº 14.725/2023.
Entre os homenageados esteve o médico sanitarista Sergio Arouca, um dos principais nomes da reforma sanitária brasileira e da construção do SUS, representado pelas filhas.
O governo federal ainda realizou a entrega de 40 micro-ônibus do programa Agora Tem Especialistas – Caminhos da Saúde para 38 municípios fluminenses. Os veículos serão usados no transporte gratuito de pacientes do SUS que precisam se deslocar mais de 50 quilômetros para tratamentos como radioterapia e hemodiálise.
Também foram entregues uma ambulância do Samu para o município de São João de Meriti e duas vans destinadas ao transporte intermunicipal de pacientes no estado do Rio de Janeiro.
Redação da Agência de Notícias da Aids com informações



