22/3/2007 – 16h10
Da esquerda: Fabiana Oliveira, Cabenda Ricardo, Rui Delgado e Ana Paula Batista
“Nós temos que assumir a nossa responsabilidade e fazer o nosso papel na luta contra a Aids na África, mesmo que um oceano nos separe”. Foi com esse sentimento que o angolano Ricardo Cabenda e mais 12 estudantes de diferentes países africanos criaram, em 2004, no Rio de Janeiro, Brasil, o grupo Mãe África Ação Social. Desde então, eles promovem no país a conscientização de universitários africanos sobre a prevenção do HIV e o envolvimento deles nesta causa. “Queremos que, quando eles voltarem aos seus países, estejam capacitados para retransmitirem o que aprenderam aqui”, diz Cabenda, que está no Brasil há nove anos.
Dos 1.588 estrangeiros que já ganharam uma bolsa de estudo do governo brasileiro no valor de 150 dólares norte-americanos mensais para estudar no Brasil, 877 são de origem africana e 711 são latino-americanos, informa o Programa de Estudantes Convênio de Graduação. Além dos bolsistas, um número não especificado de jovens africanos estuda nas universidades públicas e privadas brasileiras.
Rui Delgado, de Cabo Verde, se formou em direito pela universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro, e em breve retornará a seu país. “Depois de seis anos no Brasil é hora de voltar e dar a minha contribuição, seja como advogado ou na prevenção do HIV”, diz ao PlusNews. Cabo Verde tem soroprevalência estimada em 0,8% para uma população de 430 mil pessoas, e Angola, cerca de 4% para uma população de 14 milhões. Apesar de serem maiores que no Brasil, onde se estima soroprevalência de 0,6% para 180 milhões de habitantes, as taxas de infecção pelo HIV de Cabo Verde e Angola são relativamente baixas para a África Subsaariana, que chega a registrar 30% de soroprevalência em alguns países. Moçambique é o país africano de língua portuguesa mais atingido pela epidemia com cerca de 16,2% de soroprevalência para uma população de 19.8 milhões.
Planos
Além do diploma universitário, os idealizadores do Mãe África perceberam que seria de extrema importância levar do Brasil um pouco da sua experiência na área de Aids. Para isso, eles contaram com o apoio do Centro de Promoção de Saúde (CEDAPS). Esta organização não governamental (ONG), sediada no Rio de Janeiro, ajudou a capacitar os fundadores do Mãe África sobre a Aids e até hoje cede uma sala para as reuniões dos estudantes africanos.
Segundo a coordenadora técnica do CEDAPS, Ana Paula Batista, a parceria já começou a colher os frutos de suas ações.
“Outras ONG e órgãos públicos já perceberam a importância deste tipo de trabalho nas comunidades africanas”, comenta.
O Mãe África já foi convidado duas vezes para participar da comissão organizadora do seminário anual de prevenção de Doenças de Transmissão Sexual e Aids, promovido pela prefeitura do Rio de Janeiro.
E em abril deste ano será realizado, no Rio de Janeiro, com apoio do Mãe África, o segundo “Encontro dos Filhos da África, Mama África – minha mãe sem Aids”, onde acontecerão palestras e a capacitação de novos voluntários na área de HIV. “Aos poucos vamos atingindo os nossos objetivos que é informar e capacitar não apenas os estudantes africanos, mas também os refugiados”, diz Cabenda.
Um dos grandes desafios que os membros do Mãe África perceberam ao longo das suas ações foi a dificuldade de abordar o tema por causa do preconceito contra os soropositivos. “Em Angola, as pessoas ainda têm muito preconceito contra os portadores do HIV e aqui no Brasil algumas têm receio de falar sobre o assunto com medo de serem mal vistas pela comunidade ou até mesmo perderem seus empregos”, diz Cabenda.
Para ele, 2007 é um ano de planos. Além de ampliar o trabalho do Mãe África através de palestras em escolas, ele sonha em visitar sua família. “O que mais nos motiva a continuar nesse trabalho é a certeza de que, mesmo distante de nossos familiares, estamos lutando para construir uma África melhor”, finaliza Cabenda.
Fonte: Irin PlusNews


